Política
Governo socialista: realidade ou utopia? / Parte II
Vivemos, hoje, um intenso drama no qual mercado e ideologia causam tensões em todos os países do mundo, mesmo com o fim do socialismo, quer dizer, o fim da experiência socialista na ex-União Soviética. O socialismo está morto ? Já falamos das dificuldades do socialismo, ao menos no Brasil. Acho difícil que uma doutrina que entrou na história pela porta da frente saia pela dos fundos, por um simples acordo de cavalheiros, ou então de não-cavalheiros. Mas fico com a impressão de que se pode falar em descompromisso momentâneo, ou mesmo duradouro, com uma ressurreição socialista do tipo marxista-leninista. A força motriz, o trabalho, transformista da história, está comprometida, está sendo trocada pelo emprego. Agora, é claro, não se sabe por quanto tempo. Seria bobagem imaginarmos que capitalismo é o paraíso e o socialismo o inferno, o que já é uma contradição e, portanto, capaz de gerar uma luta interna. E toda luta, supõe-se, terá um fim, um dia. Essa dialética é complicada. Bem diferente da velha contraposição metafísica dos antigos gregos, quer dizer: do claro/escuro, do alto/baixo, do feio/bonito, etc. A natureza jamais dispensará a luta dos contrários. A sociedade humana também. A questão é esperarmos para ver se o socialismo morreu, de fato. Ou então se tudo não passa de um descompromisso momentâneo. Mas o suposto paraíso capitalista, creio, está gestando sua própria contradição. O que virá ? Não sei ! Essa coisa de mercado, de produção, de subsídios para a indústria, para a agricultura e para a pecuária é a mesma em todos os países? Delas qual a mais importante e inevitável ? Elas todas têm sido inevitáveis, em todos os pontos do mundo. É assunto de conteúdo muito técnico. Mas qualquer um percebe sua conseqüência imediata: um país que subsidia uma das suas fontes produtivas cria, ao mesmo tempo, emprego onde faz isso e, a outro tempo, compete em melhores condições que outro que nada faz nada em tal sentido, na hora de expor seu produto no mercado internacional. Agora, quanto a um subsídio ser mais importante do que outro, parece-me, que o subsídio à agricultura e à pecuária tem uma coisa interessante: gera alimentos, a um tempo, e a outro é uma maneira muito forte de evitar os grandes êxodos rurais que incham as metrópoles, criando graves problemas. Países ricos se deram e se dão ao luxo de enormes sacrifícios em gastos do setor público, contanto que controlem o social e gerem emprego. Foi assim após a quebra da Bolsa de Valores de 1929. Tivemos o ?ciclo keynesiano?, com forte intervenção do Estado na economia. Nos países considerados em desenvolvimento a tendência é desarticulação do Estado, com o eufemismo de redução do seu tamanho, em função do livre mercado, por imposição externa dos mais ricos. O que diria a um jovem entusiasta pregador do socialismo, digamos, o que adora falar em Karl Marx, Trotsky e outros tantos socialistas do passado? O mais simples: leia, e leia muito. Ainda hoje sofro quando vejo jovens falando algumas bobagens, cônscios de estarem falando reflexões definitivas. Citarei algumas: 1 ? Falando num seminário, na Ufal, na presença de alguns líderes políticos, descobri que eles não conheciam determinados assuntos sobre os quais faziam catequese. Não sabiam, por exemplo: que luta de classes, não foi, na origem, uma doutrina de Marx. Sequer haviam ouvido falar em Augustin Thierry, francês que, estudando as sociedade dominadas e dominadoras, os primeiros tentando estabilizar os seus poderes e os segundo procurando a desestabilização dos mesmos, cunhou a palavra ? antinomia? , para estabelecer a tensa relação social entre dominados e dominadores. E que Marx havia escrito para seu grande parceiro, Engel (Friedrich ) dizendo que havia nascido o pai da moderna historiografia, referindo-se a Thierry, e renomeando, a partir dali, a ? antinomia? como sendo ?luta de classes?. Não sabiam que Engel, lendo Sociedade Antiga, de Lewis Henry Morgan, mudou parte do Manifesto Comunista no tocante à afirmação ? A história da humanidade é a história da luta de classes?, pela expressão ?A história da humanidade não é a história da luta de classes, mas das sociedades que escreveram sua história?, considerando-se que as sociedades ágrafas, da tradição oral, não escreveram sua história ficava-se portanto, a se dever maiores explicações em tal sentido. E salientar, aqui, que a divisão da sociedade em classes, a divisão do trabalho, a propriedade privada, etc., surgem na final do período Paleolítico, e se estruturam com o início da civilização, na Mesopotâmia, com os povos sumerianos, acádios, amorritas, assírios e caldeus. A civilização, portanto, é que marca a história escrita. A escrita cuneiforme e o alfabeto sugiram em tal período e, naquele momento, com uma finalidade puramente contábil. 2 ? Muitos nada sabiam sobre Augusto Blanchi, e seus comandos blanquistas, elites intelectuais de certo modo clandestinas, que assumiriam as lideranças durante explosões sociais. Fato recusado por Marx, que defendia que as lideranças devem ser formadas no calor das lutas sociais, os líderes correndo todos os riscos dos desgastes. 3 ? Alguns jamais havia ouvido o nome de Errico Malatestta, anarquista italiano que esteve no Brasil por volta de 1919, e que afirmara: ? As dificuldades econômicas da classe operária não produziram o fenômeno da solidariedade irrestrita? . E não consta, na história, que categorias operárias mais bem diferenciadas, metalúrgicos, petroleiros, por exemplos, entrem em grave em solidariedade a enfermeiros, comerciários e outras categorias mais fragilizadas, apenas como exemplos. E tudo nos faz voltar a 1848, quando Emmanuel Josheph Síyás, teorizou a ? luta intraclasses?, doutrina pela qual a classe operária, fatalmente, formaria suas elites, comprometendo a Ditadura do Proletariado como o produto final da História.