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Governo socialista: realidade ou utopia? / Parte I

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Às vésperas da posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, o médico e escritor Luiz Nogueira reacende a discussão sobre a possibilidade ou não do renascimento ou fortalecimento do socialismo com a eleição do petista. Em entrevista à GAZETA , ele faz uma retrospectiva rápida do socialismo no Brasil e o que representa, na sua concepção, a eleição de Lula para o País. *** A eleição de Lula pode significar o renascimento, ou melhor, o fortalecimento do socialismo? Acho o tema difícil, acadêmico, cansativo. Não é uma questão para grande parte da massa, do povo. Mas inquieta a todos. Deve ser discutido. Não vejo bases históricas para isso. O socialismo, no Brasil, caso se deseje uma retrospectiva, rápida, um tanto já delineada, pode ter tido início em 1848, com a Revolução Praieira, Pernambuco, liderado pelo senador Nunes Machado. Naquele momento tivemos uma Manifesto ao Mundo, de 12 pontos, feito pelos portugueses aqui nascidos, e contra os reinóis, aqueles outros ligados aos interesses meramente da corte de Portugal. Seu conteúdo é utópico, digamos, estilo de Saint-Symon, pensador francês e profeta do Partido dos Trabalhadores, que terminou sendo uma realidade na Inglaterra, e não na França, porque ali aconteceria a Revolução Industrial. Ernesto Pedro de Figueredo, pensador mulato ligado àquele movimento revolucionário, chegou marxismo. É o primeiro, acho que sim, pensador em tal sentido. A maioridade de Pedro II, a Guerra do Paraguai, a propaganda abolicionista e, finalmente, a República, incrivelmente, não alimentaram a utopia socialista. E Augusto Comte, secretário de Saint-Symon, foi o paradigma para a República brasileira, com o seu Positivismo. Compreensível porque, a sua lei dos Três Estados hierarquizava a sociedade de modo tal que as castas remanescentes da monarquia foram as privilegiadas, o que se chocava caso a solução pendesse para o socialismo. A Revolução Praieira foi esmagada. Mais tarde, com a fundação do Partido Comunista, em 1922, já com mundo bipolar, o partido desejou, logo em 35, atingir o poder através dos movimentos militares, universitário e sindical, fornecendo instrumentos para que Getúlio implementasse seu perfil ditatorial. As intensas agitações sindical, camponesa e estudantil, nos anos 50, com certeza, forneceram material para o endurecimento do regime em 1964. Os eventos de confronto armado pós-64 terminaram por reduzir os movimentos armados a solitário núcleos de resistência ao sistema. Finalizando: a infância do socialismo, no Brasil, foi frustada, abortada, reprimida violentamente, e o socialismo jamais conseguiu ser uma doutrina das massas. Ainda hoje é um arquipélago, algumas ilhas, onde se avistam e remanescem sindicalistas, universitários, intelectuais radicais, e uns poucos militares que ruminam nostalgias muito mal resolvidas. E fato muito grave: num mundo no qual a mão-de-obra, leia-se trabalho, a força motriz da história, do processo socialista, está sendo trocada por emprego, Marx deve estar se revirando em sua sepultura. Nos Estados Unidos da América, as experiências, ao menos com o socialismo utópico, foram mais longas, com Charles Fourrier e Robert Owen, os mais importantes. E, sofrendo menos repressão, e esse pode ter sido o caminho para seu esgotamento natural. Mas muitos estão pensando que o Lula vai ressuscitar o socialismo. Sei disso. Mas é bom não se esquecerem de que o perfil do Lula é a do político, e não a do revolucionário das armas. Seu perfil não inclui nenhuma vinculação a movimentos armados. Ele foi sempre o líder sindical em nome das melhorias das condições do trabalhador. Acreditou, sempre, na solução política, mais ou menos pacífica, à medida do possível, dentro do sonho de democracia. Sua luta, se tem contornos de confronto com os patrões, tem também um conteúdo onde sempre buscou negociações. E mesmo o Partido dos Trabalhadores, bem examinado, se acolheu correntes maoístas, trotskistas, marxistas, etc., o Lula é um observador da Internacional Socialista, de forte conteúdo social democrata. Como o Lula vai conciliar isso, então ? O tempo dirá. Ele fará uma escolha. Imagino que seja a via pacífica, negociada. Ele terá que compreender o seguinte: que concessão é algo que o capitalismo sempre faz quando no sufoco, porque tem horror à interrupção do ciclo produtivo. Passado o sufoco sempre retirou, lentamente praticamente tudo o que concedeu. E já não é possível confundir-se concessão com avanço, falo de avanço socialista, do ponto de vista de doutrina, de ideologia. O Lula terá sido um grande governante se criar e consolidar um política na qual os avanços possam ser mais bem vigiados e cobrados permanentemente pela sociedade. Como? Basta conseguir reduzir os lucros bancários, 2002 deu a eles 30% de lucros nos seus investimentos. A indústria lucrou apenas 1,5%. Consiga retirar 5% dos lucros bancários e passar para o setor industrial, gerará alguns milhões de empregos. A isso junte-se algum sucesso com a política dos seus sonhos: o programa Fome Zero! Poderá ser um ídolo. Veja que ainda não estou na consolidação do Mercosul, levantado o ânimo e perdido o orgulho nacional da América do Sul. É muito sonho a ser realizado em 4 anos. Vamos aguardar: triunfo nem sempre depende das habilidades, mas de uma boa escolha. Você, então, estabelece uma diferença grande entre concessão e avanço ? Isso é coisa minha. E não sei se está inserida dentro dos métodos de análises históricas, pelos sociólogos e filósofos, enfim pelo academicismo oficial. Mas o vício é antigo, começando mesmo na Revolução Francesa de 1789, bastando que se veja quantas constituições foram promulgadas na França de então. Assim, eu perguntaria: a Constituição do PMDB, de Ulisses Guimarães, o grande líder daquele tempo, continua intocada? Suas leis complementares foram sancionadas e incorporadas à Constituição de 1988? Os pretendidos avanços do final da abertura democrática, falo de avanços sociais, estão mantidos? Mas há um consolo: ao menos a democracia parece mais enraizada na história do Brasil. É fundamental não se confundir concessões no campo social com avanço no campo ideológico-revolucionário. Eles jamais serão a mesma coisa.

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