Política
Criminaliza��o do Bullying - I
A CRIMINALIZAÇÃO DO BULLYING E A EDUCAÇÃO » RUBENS MACIEL - Psicanalista especializado em Desenvolvimento Humano, Autoconhecimento e Qualidade de Vida Tornar o bullying crime é o tema que atualmente está na pauta dos desejos da sociedade em nosso país. Para discutir alguns aspectos associados ao tema vamos partir da afirmação de que todo ser deseja evitar o sofrimento e busca a felicidade, e ao mesmo tempo consideremos que a frustração gera raiva e violência. Você certamente nunca viu alguém feliz da vida em um estado raivoso ou agressivo. Então, o que não está funcionando bem e causando um número cada vez maior de agressões físicas e morais entre os estudantes? Criminalizar a agressão é atacar o sintoma e deixar a sua causa de lado. Uma queixa bastante frequente em nosso trabalho clínico é a dificuldade que algumas pessoas sentem de amar, de ser generoso. A sensação de falsidade gerada pela amistosidade cínica, dos ?tapinhas nas costas? levanta suspeitas e nos intriga. Este é um clima de incômoda superficialidade. Certo grau de perversidade sempre foi comum entre os jovens, pois eles ainda não apreenderam a controlar suas emoções e pensar nas consequências de seus atos. Mesmo há décadas atrás eram corriqueiras as brincadeiras de mau gosto e os apelidados depreciativos, mas na atualidade os limites foram muito ultrapassados. O homem de hoje tem seu olhar voltado para o exterior e pouco se volta para seu autoconhecimento e transformação pessoal. A felicidade está projetada em símbolos de status, de posses, de corpos sarados, viagens e capacidade de produzir. O que importa é ?parecer?, sem grande preocupação com o ?ser?; com os sentimentos, emoções, valores éticos e relacionamentos interpessoais. Passada a época da sociedade de produção, da primeira metade do século passado, onde os bens de consumo, a segurança e o conforto eram escassos e as relações interpessoais eram de maior cooperação, entramos em tempos em que há excesso de produção que precisa ser consumida. Se você vender a ideia de que sua felicidade depende do seu consumo muitos irão acreditar. Visitamos os shoppings com o sentimento de uma criança que vai ao parque de diversões, buscamos os carros potentes, os melhores diplomas e os mais importantes empregos. Somos convocados a ser multitarefas. Cada qual quer defender o seu. Mas qual é de fato o objeto de desejo? A felicidade. Este sim é o bem mais precioso que todos querem alcançar. Cabe perguntar: até que ponto estas coisas trazem a felicidade duradoura? É claro que podem contribuir para nosso bem-estar temporário, mas uma visão mais profunda nos mostra que a felicidade é um estado de espírito, se não fosse assim como explicaríamos a alegria daqueles que vivem com pouco dinheiro? Dentro deste cenário estão lançadas as bases para o individualismo e o egoísmo, que sustentam a lógica da estratégia de luta. É cada um por si. Hoje sabemos que as pessoas egoístas são mais predispostas a problemas do coração, se zangam facilmente e são mais solitárias. É fácil imaginar o estresse a que os jovens estão submetidos, acreditando que tem de competir e vencer o tempo todo e, é importante considerar que entre os sintomas do estresse estão a irritabilidade e a impulsividade. Outro aspecto da inabilidade para se aprofundar nas reflexões inerentes à vida é a forma quase infantil que boa parte da sociedade trata a emoção da raiva. A ideia disseminada e apoiada pela sociedade é que você não deve guardar a raiva e sim colocá-la para fora, desabafar, ou ?olho por olho, dente por dente?. Esta lógica segue o raciocínio de que não conseguimos suportar emoções intensas ou desagradáveis para depois elaborá-las e, assim, como em um vômito, expulsamos o conteúdo desagradável. Isso nos impede de refletir e consequentemente amadurecer. Os educadores poderiam destacar a importância da condição de interdependência entre todos e assim amenizar a tendência ao individualismo exagerado. Se você vive em um ambiente positivo, seja sua casa, escola ou trabalho, tudo corre melhor e este clima depende de cada um de nós. É preciso entender que a cada ação temos uma reação, uma lei básica da física. Assim, agressão gera agressão, cooperação e generosidade amistosa geram os mesmos sentimentos. Esta reflexão pode levar os jovens a desenvolver sua responsabilidade e empatia. Aqueles que se preocupam com a educação no seu sentido mais amplo poderiam olhar com mais atenção para este importante fato: o jovem precisa compreender seu mundo interno, seus valores, suas emoções, para depois trabalhar com eles. A educação deve se referir ao homem como um todo, em seus aspectos físicos, emocionais e espirituais e não apenas a desenvolver seu intelecto.