Política
Lei Antifumo come�a a valer no Pa�s - II
DO DIREITO DE FUMAR » HÉLIO SCHWARTSMAN - Filósofo ?Não importa o que diga Aristóteles e toda a filosofia, não há nada como o tabaco: é a paixão das pessoas honestas, e quem vive sem tabaco não é digno de viver. Ele não apenas alegra e purga os cérebros humanos mas também instrui as almas na virtude, e com ele aprendemos a nos tornar homens honestos. Ou não haveis reparado nos modos gentis com que dele nos utilizamos com todas as pessoas, já desde a primeira vez, e como nos alegramos em oferecê-lo à direita e à esquerda, onde quer que nos encontremos? Nem ao menos esperamos que no-lo peçam, e corremos à frente do desejo das gentes: tanto é verdade que o tabaco inspira sentimentos de honra e de virtude a todos os que dele se valem?. A passagem acima, embora numa tradução meio capenga, abre o magistral ?D. Juan? de Moliáre. O tom é, evidentemente, de farsa. Quem profere as exuberantes palavras é Sganarelle, o personagem cômico da peça. Mais do que isso, Aristóteles não apenas jamais escreveu uma única linha sobre o tabaco como nem sequer conheceu essa planta nativa das Américas, que só começou a insinuar-se pela Europa depois de 1500. No mais, exceto por uns poucos anos no início do século 16, quando médicos apressados ainda receitavam o recém-chegado tabaco como panaceia, ninguém jamais achou que fumar fosse saudável. Como em toda sátira, porém, também estão presentes elementos verdadeiros. O tabaco, a exemplo das demais drogas, proporciona prazer a quem o usa e, em algum grau, favorece a sociabilidade entre fumantes. Figuras influentes na mídia estão denunciando a ?ditadura da saúde? e reclamando o reconhecimento do direito do indivíduo de fumar se este for o seu desejo. Evidentemente, coloco-me aqui do lado das liberdades. Depois de ter defendido a legalização das drogas e a regulamentação da eutanásia, não poderia furtar-me a apoiar também os fumantes que desejem obstinar-se. Mas diferentemente dos que se insurgem contra a campanha antitabagista, não a vejo com repulsa. Parto do princípio de que nunca é errado divulgar os dados científicos disponíveis a respeito do que quer que seja. Muito embora as pessoas não costumem começar a fumar (ou usar qualquer outro produto psicoativo) pesando racionalmente os prós e contras da decisão, deixando-se, ao invés disso, levar por impulsos emocionais e apelos sociais, boa informação nunca é demais. No mínimo, o Estado poderá depois dizer ?eu avisei?. Assim, é forçoso reconhecer que, depois que alguém se lançou no vício e dele aprende a extrair prazer - o primeiro cigarro experimentado provoca inevitavelmente asco -, manter-se fumante pode ser, sim, uma decisão racional. A vida, afinal, não se mede apenas em comprimento, mas também em ?largura?. Se o indivíduo julga que o tabaco lhe dá tantas alegrias que vale a pena sacrificar alguns anos por elas (e normalmente anos de menor atividade senão de decrepitude), quem sou eu para discordar? A primeira de todas as liberdades deve ser a de atribuir um valor à própria existência. O foco da propaganda antifumo, contudo, vem sendo outro. Os sanitaristas insistem é nos direitos dos não-fumantes. Há duas linhas de argumentação. Dizem que a fumaça dos tabagistas não ameaça apenas a saúde deles próprios, mas também a dos que o cercam. De modo mais indireto, insistem que o fumante também causa prejuízos à sociedade, quando as doenças provocadas pelo hábito passam a onerar o sistema de saúde. (...) O tabaco é decerto um grave problema de saúde pública, mas não deve servir de pretexto para que se apliquem os impulsos liberticidas tão em voga atualmente. Cada um deve ser livre para decidir seu próprio destino com a condição de não prejudicar os demais para além de um nível que se considere tolerável.