Política
Ind�stria da mis�ria sustenta munic�pio mais pobre de AL
ARNALDO FERREIRA / EDITOR DE POLÍTICA De acordo com o mapa do Desenvolvimento Humano do Brasil elaborado pelo IBGE, Alagoas possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) do País. Enquanto o Brasil tem o IDH-M de 0,709, o Estado lidera o ranking da miséria, com 0,633. Os quatro piores IDH-M do País são Maranhão, Piauí, Paraíba e Sergipe. Segundo o Atlas do IDH-M, o município de Traipu é o de pior Índice de Desenvolvimento Humano neste Estado. O município sertanejo de São José da Tapera (AL), que até então apresentava os piores indicadores e era o campeão nacional de mortalidade infantil, desemprego, analfabetismo e de outros indicadores de miséria, já superou todos os índices negativos e hoje é o 36º de melhor desempenho dentre todos os 5.507 municípios brasileiros, isso em termos de melhoria de IDH. A GAZETA DE ALAGOAS esteve em Traipu (distante 178 quilômetros de Maceió), na última quarta-feira, e constatou por que o município detém indicadores dramáticos. Fome, miséria, doenças e gente morrendo de sede, em 36 povoados rurais, são as cenas mais comuns naquela região do agreste alagoano localizada, literalmente, às margens do Rio São Francisco. Sem muito esforço, podem ser comprovados indicadores só comparados aos dos países mais pobres da África, como por exemplo: mais de três mil casas de taipa, milhares de moradias sem banheiro, sem cozinha e sem água tratada. Na verdade, da população de 25 mil habitantes (dados oficiais do município, o censo do IBGE apontou a população de 23.400 pessoas porque não visitou alguns povoados e assentamentos de trabalhadores rurais) 90% não dispõem de água tratada e de rede de saneamento básico A população adulta e jovem sofre de doenças diarréicas, calazar (doença transmitida pelas fezes de cães), doença de Chagas, por causa do alto índice de infestação do ?barbeiro? nas casas dos povoados rurais, verminose, entre outras. Água tratada só para um terço da parte urbana do município, onde vivem cerca de cinco mil pessoas. ?O nosso Índice de Desenvolvimento Humano é relativo ao ano de 2000 e reflete muito bem a situação de abandono e desmando administrativos dispensados pelo administradores anteriores deste município?, declarou o prefeito Marcos Santana (PSDB), acrescentando que a prefeitura tem várias pendências jurídicas e processos na Justiça e Polícia Federal, a maioria por desvio de dinheiro dos programas sociais. ?Nós últimos dois anos tenho feito o que é possível. Mas nos faltam investimentos federais e estaduais nas áreas de abastecimento de água e de programas para geração de emprego e renda?, lamentou o prefeito. Economia da miséria Além de ter o pior IDH-M, Traipu é exemplo da contradição do capitalismo selvagem. A economia se sustenta graças à condição de miséria de 90% da população. O secretário de Administração, Francisco Carlos Albuquerque dos Santos, revelou que a receita mensal gira em torno de R$ 600 mil. Desse montante, R$ 230 mil são provenientes da transferência do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços- ICMS, não passa de R$ 40 mil; para manter 100% das crianças nas escolas, com merenda escolar e pagar em dia os professores, o município recebe pouco mais de R$ 100 mil/mês do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério -Fundef. Os programas sociais mantidos pelo governo federal como Bolsa-renda, alimentação, Vale-gás e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) deixam no município mais de R$ 100 mil todo mês. Este montante dos programas de combate à miséria, analfabetismo e socorro aos desempregados movimenta a economia. As fontes econômicas de Traipu estão na pecuária e na agricultura de milho, feijão arroz, algodão e castanha de caju. Mesmo estando à beira do São Francisco, não tem projeto de irrigação, resultado: as colheitas de feijão, milho e algodão dependem das fases chuvosas nesta região, que é a mais quente do Agreste. Já a cultura de arroz foi dizimada depois da construção da barragem de Xingó, porque as cheias e a irrigação das margens se acabaram. O índice de trabalhadores e pequenos produtores rurais desempregados e vivendo como miseráveis chega a 90%, confirma o prefeito, que foi obrigado a criar o programa de renda mínima para poder empregar, temporariamente, cerca de mil trabalhadores miseráveis. ?Os programas sociais atendem 4 mil inscritos, que recebem o Vale-gás, as bolsas e o dinheiro do Peti?, confirmou o gerente da única casa lotérica da Caixa Econômica Federal no município, Ronaldo Farias de Albuquerque. ?As pessoas pobres garantem a sobrevivência do comércio local. Por isso, os pontos comerciais mais rentáveis ficam perto da casa lotérica?, salientou. O comércio de medicamentos é o mais lucrativo. A farmácia São José - a maior da cidade, segundo seu proprietário, movimenta R$ 15 mil por mês. Entre os seus maiores consumidores estão as famílias das áreas rurais. Pessoas como dona Eliane de Araújo dos Santos, 55 anos do povoado de Mumbaça (distante 10 quilômetros) que recebe R$ 30 do Bolsa-alimentação e dona Josefa Pia da Silva, 46, que recebe R$ 45 de Bolsa-escola de três filhos, garantem a sobrevivência do comércio varejista Elas gastam tudo comprando alimentação básica e remédios. ?O que a gente ganha é pouco. Mas, se não fosse isso não sei como seria para alimentar os filhos?, disseram as trabalhadoras rurais, que estão com os maridos desempregados e perderam parte da safra de milho na seca. Estão comendo o feijão da safra passada As lavadeiras do São Francisco, que moram na área urbana, também têm histórias dramáticas de fome e mortalidade infantil. Dona Maria Lopes dos Santos, 50, perdeu a conta de quantos filhos morreram de diarréia, pelo consumo de água sem tratamento. A saída para tanta miséria, segundo o prefeito Marcos Santana, seria a implantação no município de uma indústria de beneficiamento de pescado, projetos de irrigação, de piscicultura, políticas de desenvolvimento do turismo e a correção do censo do IBGE, que reduziu o censo populacional, provocando uma perda de receita. ?Dependemos da política dos governos federal e estadual. A nossa parte tem sido feita. Traipu tem sua área urbana recuperada, as crianças estão na sala de aula. Mas precisamos de emprego e renda, do contrário será difícil mudar o resultado do IDH?. IDH de Maceió Maceió tem o pior índice de Desenvolvimento Humano entre as capitais nordestinas e se tornou um caso atípico, por ser o único município alagoano com o índice diminuído. De acordo com recente estudo do professor de Economia Cícero Péricles, a capital tem 380 aglomerados (tipo favela) subnormais onde vive 40% da população. ?A capital não tem recebido investimentos públicos e privados capazes de acompanhar o crescimento acelerado?. O Índice de Desenvolvimento Humano- IDH que se estende a todos os Estados e municípios brasileiros, é calculado a cada 10 anos pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas do governo federal e pode ser considerado como uma avaliação relativamente segura da qualidade de vida municipal e é obtido de uma média entre a saúde, a educação e a renda da população. A saúde é medida pela expectativa de vida ao nascer; a educação é contabilizada pela alfabetização e pelo número de matrículas da população em idade escolar; e o item renda é calculado pela riqueza total dividida pelo número de cidadãos.