Política
MACEI� CRESCE DESORDENADA POR FALTA DE PLANEJAMENTO
O que têm em comum a estátua da Praia da Sereia, o estádio Rei Pelé, a Ponte do Detran, o Emissário Submarino, o Canal do Reginaldo, quilômetros de estradas e dezenas de prédios construídos em Maceió? Todos passaram pela mente e pelas contas do alagoano Vinícius Maia Nobre, uma lenda viva da Engenharia Civil no Brasil. O homem é um desbravador e aos 86 anos de idade mantém a vitalidade, lucidez e velocidade de raciocínio que destacam seu trabalho desde a década de 1950. Hoje conselheiro estratégico da Organização Arnon de Mello (OAM), Vinícius tem muita história para contar e muitas contas para ensinar. Uma oportunidade que está posta pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL) para o próximo dia 12 de março, quando o professor Vinícius Maia Nobre dará uma palestra com o tema ?Evolução Urbana de Maceió, Ontem e Hoje?. Na última quarta-feira, o engenheiro concedeu uma entrevista à Rádio Gazeta e antecipou alguns dos pontos que irá tratar na palestra. Sem dúvida, um relato sincero que traduz uma parte importante da história, da falta de planejamento, de obras importantes e da estrutura de esgotamento sanitário de Maceió. Leia a seguir alguns trechos da entrevista. COMEÇOU ERRADO ?Maceió é uma cidade que não teve planejamento, surgiu de um engenho, pelo Porto, que é bom que se saiba, é a melhor enseada portuária das capitais todas dos portos do Nordeste. Face a esta validade de ancoragem dos navios abrigados, à época, nos arrecifes, então Maceió cresceu assim, sem planejamento. A ligação de um arruado que começou com um engenho, e o intercâmbio do Porto de Jaraguá, que precisava vir e foi crescendo. Então muitos erros aconteceram. Erros que precisam ser apreciados, para a gente conhecê-los e corrigi-los, com o planejamento?. RIACHOS E BACIAS ?Toda região de Maceió é coberta por riachos: Reginaldo, Riacho do Sapo, Gulandin, do Cardoso, o Silva, em Bebedouro, do Bolão. É uma cidade onde entra muita água. O próprio nome da cidade: aquele que tapa o alagadiço é o nome do tupi. No Tabuleiro de Maceió, você tem bacias, locais onde cai água. A chuva precipita, escorre água, então vai para o fundo dessa bacia que (normalmente) termina desaguando, formando um riacho que é afluente do outro e termina no mar. Mas aqui em Maceió você tem bacias que não têm saída, nós chamamos na engenharia de bacia endógena, ela é fechada, cai água e não sai. Tem uma que é a Bacia do Cepa. Até o Tribunal de Contas, você vê que a Fernandes Lima vai descendo. Agora venha para o lado de cá, na margem direita, na rua Miguel Palmeira, no Alto do Céu, próximo a desaguar no Reginaldo, já vem descendo. Junta tudo ali num lugar só, e aquela água que escorre vai para onde? Fica por ali mesmo? O AMERICANO E A FERNANDES LIMA ?Eu era pivete, tinha meus 12, 13 anos, conhecia a região, morei sempre no Farol, na Fernandes Lima, e nas grandes chuvas, no inverno daqui, eu corria pra ver o pessoal: para atravessar para o outro lado tinha que pegar um barco, uma canoa. Claro que tinha a bacia ali, juntava água como o ?diacho?. O que foi feito, na época? O americano que esteve aqui na guerra, para fazer a estrada da base aérea pra Maceió, para a Praça do Centenário tinha que passar por ali, então o que foi que ele fez? Ele aterrou, botou uns tubos de passagem, que a água enchia de um lado, enchia de outro e ficava se intercomunicando, e ele passou por cima porque era guerra. Ele queria ganhar a guerra...? EMISSÁRIO SUBMARINO ?Não precisamos de outro. O Emissário hoje está ocioso. Ele foi projetado e construído para uma cidade de 1,5 milhão de habitantes. Pode botar gente no sanitário que dá conta. O que ocorre é que não está havendo ligação (até o Emissário, na Praia do Sobral). Só tem a bacia da Pajuçara e poucas redes, como a que a gente fez quando construiu o Emissário, como a rede do conjunto Santo Eduardo e outras localidades. Ampliou-se pouco. É uma pena que os dirigentes, os executivos, não olhem pra isso, precisa fazer mais redes (de esgotamento sanitário). O destino final do esgoto de Maceió é o Emissário. Na época, eu me lembro bem, que quando se fez esse estudo, o planejamento, para o saneamento de Maceió, concluiu-se que o destino final do esgoto seria o mar, que é um corpo, por excelência, receptor. Em todo o mundo, não há cidade. Por exemplo, Nova Iorque, São Francisco, na Califórnia, Los Ângeles, qualquer cidade do Mediterrâneo, lá na Europa, Roma, donde for, Nice, cidade ribeirinha, lá no Mar do Norte, mesmo, em Estocolmo, onde for, se tiver o mar de frente, você bota o destino final do esgoto nesse mar. Agora, dependendo do grau desse esgoto, você tem que tratá-lo. Então o de Maceió também ficou concebido assim?. BIODIGESTOR, UMA POLÊMICA ?Na época, a gente sofreu muita crítica porque disseram que o Emissário era obra cara e que podia se resolver com o biodigestor. Eu me lembro bem que nós já tínhamos uma experiência sobre o assunto. O biodigestor de Maceió existia, o primeiro serviço de esgoto de Maceió foi começado no governo de Silvestre Péricles e concluído por Arnon (de Mello). Mas o que era o biodigestor? Era um tratamento simples, para cidade bem pequena, para uma vila, aí se faz, no campo, no interior, você não tem destino final, aí você faz. O esgoto vai in natura, mas ele é fechado, em câmeras, então você sabe que tem um processo natural das chamadas aérobias e anaeróbias, que são os germes que pegam o sólido, ele come aquilo e as outras, que são inimigas dela, comem elas. Tem uma autodestruição. Nesse processo, forma-se o líquido e o gás, então tem a saída do gás etc. Então o líquido, que está cheinho de coliforme fecal, vai para uma lagoa, chamada de lagoa de estabilização, ficava lá no sol, que fazia o trabalho de evaporar aquela lagoa. Era assim o esgoto?.