Política
TRAG�DIA DE 2010 SE PERPETUA
O nome é fictício, a história, real. Flor da Silva tinha 12 anos quando a cheia passou na sua vida. Foi tudo muito rápido: o Mundaú subiu, destruiu e desceu. Levou a boneca, a casa, a rua, a praça, a escola e metade de Rio Largo. A menina Flor desabrochou, virou moça, foi mulher, engravidou, pariu e se separou. Em cinco anos, tudo se transformou. Flor trocou de escola sete vezes e passou por cinco casas diferentes. Hoje tem 17 anos, um filho de 2, é vítima da cheia e do Programa da Reconstrução. Quando pergunto por que parou de estudar, a melancolia invade o semblante da jovem. Após tantas mudanças, teve de abandonar o 6º ano do Ensino Fundamental depois de mais um desastre. ?O meu filho tinha 1 ano e puxou a tampa do forno. O fogão balançou e a panela com água quente caiu em cima dele, queimou a cabeça, as costas e o corpinho todo?, resume Flor. A gota d?água foi fervente. Impossível voltar para a escola, a menina tinha de cuidar do filho. A internação na Unidade de Queimados do Hospital Geral do Estado (HGE) durou meses, numa recuperação dolorosa, que se estendeu na volta ao lar e deixa traumas até hoje. Flor mora no conjunto Tavares Granja, com os pais, dois irmãos e uma tia, todos desempregados. ?A luta é grande, a gente sai por aí meia-noite, uma hora da manhã, para catar reciclagem de lixo?, conta Maricélia dos Santos, a tia. Uma carcaça de geladeira velha foi improvisada com rodas e se tornou um carrinho para a coleta. Durante o dia, Flor e a família fabricam detergente caseiro para vender. ?Aqui nesses conjuntos de Rio Largo é muito parado, é muita gente desempregada para pouco emprego, não tem trabalho, não tem dinheiro, então a gente só vê o que não presta, mas tem que ficar calado, quem fala demais é levado para dentro da mata e de lá não sai vivo?, resume Maricélia.