Política
Plano de fuga de pres�dio quase termina em morte
Era um domingo. Em Alagoas, dia de clássico entre o CRB e CSA. No presídio e fora dele, um plano de fuga se desenhava nos mínimos detalhes. Escala de guarda desfalcada por causa do jogo; sonífero para os policiais no café; carro esperando lá fora. Ao volante, o médico José Rocha, ex-dirigente do Centro Acadêmico de Medicina e o único que até então reconhecera Aldo, durante um atendimento que fizera em sua cela. Peça fundamental no plano de fuga. ?Ele descumpriu orientação do partido (o PCB) e decidiu ajudar o grupo por conta própria?, conta Edberto Ticianelli. O que o grupo não contava, no plano de fuga, era com a resistência de um dos três policiais de plantão em tomar o café (com sonífero), nem com a escrivaninha que caiu quando Aldo se esgueirou para passar pelo policial que cochilava, junto à porta do Dopse; nem mesmo com o grito que veio do outro lado avisando sobre a fuga; e muito menos com a hesitação do guarda acordado, em atirar em Aldo, apesar de ele ter caído. O plano deu todo errado, mas o resultado deu certo. A fuga foi um sucesso. A HISTÓRIA ?Pariconha é parte da nossa história de resistência a uma ditadura que dominou por 21 anos o Brasil. Por mais que aqueles jovens estudantes e trabalhadores desconhecessem a correlação de força da nossa parte, merecem respeito e um lugar na História de Alagoas e do Brasil. Aquelas mulheres e aqueles homens ofereceram o que havia de mais sagrado para reconquistar a democracia: as suas vidas e a juventude?, observa o historiador e voluntário da Comissão Estadual da Verdade, Geraldo Magella. Ele destaca que, mesmo passados 46 anos desse evento, ainda é possível obter revelações horripilantes e escrever novos capítulos dessa história trágica. ?O longo período de 21 anos de ditadura está distante de ser encerrado como campo de estudo. As revelações obtidas pelas comissões da verdade no Brasil e as desclassificações de documentos sigilosos nos EUA, sobre o Brasil, ampliam ainda mais o campo de estudo e pesquisa?, diz ele. Nem precisa ir muito longe. Aqui mesmo, no Brasil, documentos do SNI, considerados inéditos até a semana passada, quando foram publicados pelo jornal Diário de Pernambuco, revelam novos detalhes dessa história, como o fato de que, até meados dos anos 80, o grupo de camponeses de Pariconha, bem como os ?forasteiros? que lá fixaram morada, ainda eram monitorados pela Polícia Militar de Alagoas.