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‘Popula��o se descuidou ap�s epidemia de 2009’

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No último mês, registros cada vez mais frequentes de casos da gripe pelo vírus H1N1 têm assustado a população em praticamente todo o País, levando centenas de pessoas à rede de saúde em busca da vacina para se imunizar contra a doença. O médico infectologista Celso Tavares afirma que o vírus nada mais é do que uma gripe, que se incorporou ao dia a dia da população. O profissional afirma que é preciso manter hábitos de higiene para evitar a contaminação, vacinação e que as pessoas têm que estar conscientes de seu papel no controle da doença. Lembra que em 2009 o Brasil registrou uma epidemia da gripe, mas diz que a população parece ter esquecido. Ele alerta que é preciso cuidar, já que a gripe pode evoluir e levar à morte. O médico fala ainda sobre doenças provocadas pelo Aedes aegypti, como a dengue, zika vírus, chikungunya e microcefalia, teme que haja aumento dos casos de morte por dengue, por conta dos olhares estarem voltados para a zika, e faz a crítica ao que considera falta de investimentos em saúde básica. Gazeta.O vírus H1N1 vem causando mortes no País e assustando a população. O que é a doença e como se prevenir? Celso Tavares. O que me espanta é que houve epidemia de H1N1 em 2009, não há tanto tempo, nós tivemos muitas informações, era só no que se falava, e nós nos esquecemos de tudo. O vírus da gripe, da influenza, faz parte do nosso cotidiano. Todos os anos a influenza mata entre 250 mil a 500 mil pessoas. E isso faz parte do dia a dia, só que quando morre alguém, ou alguém vai para a UTI, principalmente se essa pessoa tem uma situação que possibilite a divulgação desses fatos, toma-se esses contornos. É só lembrar que a epidemia da gripe espanhola, em 1918, matou, segundo estatísticas, entre 25 a 50 milhões de pessoas, outras falam entre 40 a 100 milhões de pessoas. Todo ano nós temos gripe, principalmente no inverno, porque as pessoas ficam mais juntas. Quais são os tipos de vírus? Influenza A, B e C. No influenza A, existe um subtipo chamado H1N1 e H3N2 e são eles que causam maiores problemas. O tipo B causa surtos menores, mas mata, põe gente na UTI. O grupo C é o que carece de maior importância. Agora, nós temos isso anualmente. Esses vírus não infectam somente os seres humanos. São vírus que infectam todos os animais. Até uma baleia pode ter gripe. Qualquer animal pode transmitir? Pode. Aí é que é o grande problema. Porque você tem essa doença afetando aves, porcos, cães, gatos. Na China agora está havendo uma epidemia de influenza felina. Qual é o grande problema? Você deve estar lembrando da gripe do frango, a H5N1, doença com um nível razoável de especificidade, só que às vezes o vírus consegue dar um salto interespécie. Deixa de infectar somente o frango e infecta as pessoas. A H5N1 tem ocorrido na China e mais ou menos 50% das pessoas contaminadas morrem. Já houve casos no Brasil? Não, não. O nosso problema foi, em 2009, a H1N1, e a partir daí passou a fazer parte do nosso dia a dia. Qual é a causa? É um vírus do grupo A. Transmitido pela tosse, espirro. É difícil a prevenção? Não. Nós temos uma boa vacina. Qual é o grande problema? Lembro do desespero que foi em 2009 para se vacinar. Ali no 1º Centro de Saúde [no bairro da Levada] havia pânico. Profissionais de saúde chegaram a ser agredidos por pessoas desesperadas. Só que depois que passou essa situação as pessoas se esqueceram e nos últimos anos, 2013 a 2015, o Ministério da Saúde teve que prorrogar a data da vacinação para se tentar conseguir atingir a meta. Então, nós vacinamos pouco nesses anos e a influenza A H1N1 se incorporou no nosso dia a dia. Gripe é uma doença causada pelo vírus influenza ? A, B ou C. Portanto, a expressão gripe é muito mal usada. No H1N1 os sintomas são muito mais severos. Tosse, febre alta, corpo dolorido, dor de garganta. E um percentual, que varia de 1% a 2% das pessoas pode evoluir mal e apresentar um quadro grave, que vai exigir internação, podendo levar à morte. A gripe mata anualmente no mundo entre 250 mil a 500 mil pessoas. Há uma nova vacina contra o H1N1? Há uma vacina com três vírus e uma com quatro. O que importa é que a tríplice tem os dois vírus que causam os maiores problemas. Não tem grande diferença, não. A maioria dos problemas decorre do vírus tipo A, H1N1 e H3N2. Então, essa vacina protege. Agora, tem que ser tomada anualmente e lamentavelmente as pessoas relaxam. Além disso, as pessoas às vezes se recusam a tomar a vacina porque dizem que depois têm gripe. Não! O que acontece às vezes é uma coincidência. Você pode ter às vezes, em um ano, três, quatro, cinco resfriados. Há estados em que a vacina começa a faltar. Aqui em Alagoas, qual a situação? Houve um fato novo esse ano. Habitualmente a temporada de gripe começa depois de maio, lá para junho, aí você começa a vacinar em abril, maio, porque quando começa o período da gripe, está todo mundo protegido. Esse ano ela resolveu nos causar uma surpresa e antecipou a chegada. Isso aí é fruto do progresso. Hoje em dia você sai daqui para a Flórida (EUA), onde está havendo casos de gripe A H1N1, e vem em poucas horas de lá para cá. Essa situação gerou esse número de casos e, também, eu creio que isso se deve à baixa cobertura nesses últimos anos. Basta ver agora com essa situação do H1N1. Em 2009 tivemos uma epidemia, a partir de 2011 as pessoas esqueceram tudo o que passaram. A prevenção então é vacina? Vacina e higiene. Lavar as mãos, evitar levar as mãos à boca, aos olhos, nariz. E uma vez contraindo, buscar assistência. Essas outras doenças que também causam epidemias, tipo a dengue, seriam pela mesma razão: falta de controle? A dengue nunca foi. Há 30 anos que ela está aqui. Nós somos bons anfitriões. Por quê? Porque não fazemos nada para que o mosquito vá embora. Nós o acolhemos na nossa casa. Fazemos jus à nossa fama de pessoas hospitaleiras e não fazemos nada para acabar com a dengue. Muito pelo contrário. É só sair pelas ruas agora que você vai testemunhar dezenas de situações que favorecem a doença. Ou seja, a prevenção depende da população? O mosquito não é assim tão forte? O grande problema não é o mosquito. A fêmea do mosquito precisa do nosso sangue para que os filhos nasçam bem. E mãe é mãe independente da espécie, e para que o filho nasça bem ela faz qualquer coisa. O zelo pela saúde, por sua casa, o respeito à lei, ao cidadão, ao próximo. Esse ano eu tenho muito receio que as mortes por dengue aumentem porque nós estamos encegueirados pela zika e dengue tem uma peculiaridade. Como assim? A maioria dos casos evolui bem: basta você hidratar e manter repouso. Mas alguns precisam de internação para receber hidratação venosa. Se não receber, morre. E às vezes a diferença entre a vida e a morte é questão de minutos. E a fila é uma grande assassina. Paciente com chikungunya reclama muito que tem dor. Paciente com dengue fica prostrado, acabado. Se ele não tiver um parente que tenha perspicácia, intuição para saber que aquela pessoa está evoluindo para a morte, essa pessoa vai morrer, ou vai complicar, vai para a UTI, passar um bom tempo porque ele fica largado. É necessário que nós nos lembremos que dengue continua acontecendo e mata e esse ano, basta passar em todas as unidades de emergências para perceber que estão cheias. Então, zika, chikungunya, microcefalia, isso tudo existia? Não foi a evolução do Aedes quem trouxe essas doenças? Você não deve mexer com quem está quieto. O vírus zika existe desde sempre, estava lá numa floresta chamada zika e lá ele era uma zoonose. Era uma doença que tinha somente a ver com macacos e mosquitos, raramente acometia alguma pessoa. Havia equilíbrio. Na natureza, o equilíbrio é essencial. O que aconteceu: o tal do progresso. Cortaram a floresta para fazer um aeroporto e a partir daí esse vírus começou a sair do seu nicho, do seu local natural e começou a atingir mais pessoas. Cada vez que se reproduz, há uma probabilidade de acontecer uma mutação. O vírus zika, até 2007, não causava maiores problemas, mas nesse ínterim, há estudos mostrando a evolução genética dele e que ele sofreu um processo que se denominou de humanização. Ele passou a apreciar mais os humanos. Lógico: quantos milhares de macacos existem? Uns poucos. Quantos milhares de humanos existem para ele infectar? Mais de 7 bilhões.

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