Política
Desperd�cio de alimentos agrava fome no Pa�s
FÁBIA ASSUMPÇÃO Uma das ações prioritárias do Programa Fome Zero, do governo federal, está na criação de bancos de alimentos em regiões metropolitanas. Atualmente, em todo o País, 15 bancos já distribuem às famílias carentes sobras de comida de restaurantes e os artigos alimentícios de supermercados com prazo de validade próximo a vencer. Um dos desafios dessa proposta é combater o desperdício de alimentos que ainda é muito grande em todo o Brasil. Só no campo de perdas agrícolas, estima-se que há um desperdício equivalente a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), em torno de R$ 11 bilhões/ano, o que daria para fornecer cestas básicas mensais no valor de um salário mínimo (R$ 200,00) a quase sete famílias, durante um ano. Num Estado como Alagoas, onde a população de indigentes corresponde a 56,5%, ou seja, mais de 1,5 milhão das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, conter o desperdício de alimentos deve ser estabelecido como prioridade. A Fundação Getúlio Vargas considera abaixo da linha de pobreza todo brasileiro que tem menos de R$ 80 por mês, para gastar com alimentação. A Associação Brasileira das Ceasas (Abracen), fundada há 15 anos, que reúne as ceasas do Brasil, hoje sediada no Recife, vem realizando uma pesquisa para saber o volume das perdas que ocorrem nos entrepostos atacadistas, nas feiras livres das grandes capitais e até nos 60 mil supermercados espalhados pelo Brasil, onde o desperdício é também preocupante. Estoque pequeno O presidente da Associação dos Supermercados de Alagoas (ASA), Raimundo Barreto, afirma que se fosse instalado um Banco de Alimentos em Alagoas, a contribuição dos supermercados com alimentos prestes a vencer não seria tão volumosa. Segundo ele, essa contribuição poderia até se dar em relação a frutas e legumes e alguns produtos como os pães e laticínios, mas seria difícil em relação aos industrializados. ?Hoje, os supermercados procuram trabalhar com uma quantidade de produtos de acordo com a procura?, justifica. ?Além disso, quando o produto está prestes a vencer, eles são repostos pelas indústrias?. Para Barreto, quem mais poderia dar contribuição aos bancos de alimentos seriam as próprias indústrias. Em média, os produtos são retirados das prateleiras dos supermercados oito dias antes de vencer o prazo de validade para consumo. ?Nem sempre o produto que está com a validade vencida significa que esteja sem condições de consumo, há apenas uma recomendação do fabricante para que seja consumido dentro daquele prazo e, por isso, temos esse cuidado de retirá-lo das prateleiras?, observa Barreto. Segundo ele, as perdas maiores dos supermercados são realmente em relação às frutas e legumes ? a maioria que vem de fora do Estado, e já sofre danos durante a viagem - e os laticínios. Mesmo quanto aos produtos industrializados, quando apresentam as embalagens ? estando dentro do prazo da validade ? não se recomenda o consumo. Alguns donos de supermercados calculam que o desperdício com os hortifrutigranjeiros fica entre 7% e 8%. No País, calcula-se que o percentual de desperdício nos supermercados gira em torno de 1% do faturamento. Além do Banco de Alimentos, um projeto que vem dando certo é a fabricação de sopas a partir de alimentos doados por feirantes das ceasas. Em Alagoas, o governo reativou, desde o ano passado, a Fábrica de Sopa, que tem uma produção de 38 mil refeições por mês. O cardápio é variado, vai desde a sopa de legumes a pratos tradicionais da culinária alagoana como o arroz doce e munguzá. O secretário-executivo das Minorias Sociais, Zezito Araújo, explica que o projeto vem sendo tocado praticamente com recursos do governo, por meio da Loteria Social de Alagoas (Social). Ele explica que a demanda de alimentos que poderiam ser doados pelos comerciantes da Ceasa em Alagoas é muito insignificante. Sopa ?As sobras de alimentos na Ceasa chegam quase a zero?, justifica o secretário. Mesmo assim, o Soprobem ? que administra a Fábrica de Sopa- pretende realizar um trabalho junto ao Instituto de Desenvolvimento Rural (Ideral) ? que administra a Ceasa ? para orientar os feirantes quanto ao aproveitamento dos alimentos. O custo mensal da produção dos alimentos na Fábrica de Sopa é de 35 mil, atendendo em cada comunidade assistida 250 famílias. Hoje, cinco comunidades são atendidas pelo programa: Cidade de Lona, Vila Brejal, Caic do Vergel, Feitosa e no Dique Estrada. A quantidade de sopa recebida por cada família cadastrada é suficiente para alimentar cinco pessoas. Segundo Zezito, o programa da sopa não se constitui apenas na distribuição de alimento. ?A sopa é apenas uma forma de atrair essas famílias carentes para que participem de outras ações, como cursos profissionalizantes, para que tenham condições de gerir a própria sobrevivência?. A proposta do governo é expandir o programa, fazendo parcerias com os municípios, principalmente da chamada Grande Maceió. Outro projeto do governo é implantar, ainda este, o Restaurante Popular, que vai fornecer refeições a preços populares entre R$ 1,00 e R$ 1,50. Vilões Os especialistas da área de hortifrutigranjeiros apontam como grandes vilões do desperdício o manuseio, o transporte e a embalagem inadequada dos produtos. Atualmente, estima-se que 96% dos produtos comercializados nas ceasas já estão acondicionados em embalagens de acordo com as exigências da lei. Algumas secretarias de Agricultura, como a de São Paulo, vêm desenvolvendo o Programa para Melhoria dos Padrões de Embalagens de Hortigranjeiros. O trabalho para evitar o desperdício começa desde a colheita, com a seleção de variedades mais adequadas às condições de clima e solo, até a colheita, com o investimento no treinamento e na qualidade da mão-de-obra, passando pela embalagem e o armazenamento. Até mesmo os consumidores podem evitar desperdício ao manusear os legumes em casa, guardando-os, por exemplo, descascados, em sacos plásticos, na parte de baixo da geladeira. Conter o desperdício pode ajudar a matar a fome de muitas pessoas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o período de 1995 e 2001 demonstram que houve um crescimento anual de 6,7% na quantidade de pobres nas regiões metropolitanas. Até 1999, havia uma estimativa de que em Maceió mais de 270 mil pessoas vivem em situação de indigência e para alimentá-las seriam necessários R$ 180 milhões por ano. (MFA) O último levantamento da qualidade sobre o acesso da população a outros bens de consumo foi o Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef) de 1974/1975. A partir desses dados, foi possível avaliar que 42% das famílias brasileiras (8 milhões de famílias) ou cerca de 50% da população da época, equivalente a 46,5 milhões de pessoas, consumiam menos calorias que o necessário.