Política
RUI E ALMEIDA FORAM INGRATOS COM LULA
Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), encerra a série de reportagens da Gazeta de Alagoas com os candidatos a prefeito de Maceió. Na entrevista, ele fala sobre as razões que o levaram a deixar Brasília, onde detém mandato de deputado federal, para disputar o cargo, avalia o porquê de aparecer nas pesquisas com um índice de rejeição que ultrapassa a 50%, se diz injustiçado por seu nome constar do processo da Operação Taturana, fala sobre como fazer, se eleito for, para enfrentar a oposição dos governo federal e estadual, defende que o município seja tratado de forma republicana pelo governo de Michel Temer, se eleito for, e acusa seus adversários, Cícero Almeida (PMDB) e Rui Palmeira (PSDB) de agirem com generosidade ao ex-presidente Lula de quem, segundo ele, receberam total apoio econômico em suas administrações. Ele responde também a perguntas dos eleitores, ouvidos nas ruas de Maceió pelo estudante de jornalismo Thiago Tarelli. Acompanhe. Gazeta. O que o levou a se afastar da Câmara Federal e se lançar a esse desafio que é a disputa pela Prefeitura de Maceió numa disputa tão acirrada como a que estamos acompanhando? Paulão. Eu fui vereador, deputado estadual e federal, uma atividade importante num parlamento que você aprende principalmente a legislar e fiscalizar, mas chega um momento da vida que você tem o que fazer ou executar. Então eu acho que esse é um dos motivos que na classe política ela tem um sonho de ser o gestor de sua cidade e acho que acumulei uma experiência não só do ponto de vista individual, a idade, mas também a atividade de compreender os entes federados, município, Estado e União e estou preparado para ser gestor. Agora, a temática foi a realidade social que Maceió está atravessando. A gente tem uma cidade que tem uma marca de turismo fundamental, sol e mar, uma das mais visitadas do Brasil, você tem uma contradição social que é a maior do Brasil. Na qualidade de político você não pode ficar só indignado. Fiquei, e quero contribuir no sentido de atenuar. Se puder erradicar é o ideal, mas pelo menos atenuar. Não se concebe se ter uma parte de Maceió com IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] da Suécia, e na periferia índice dos países menos desenvolvidos do Brasil. Ter uma juventude com nível de mortalidade que é acima inclusive de países que estão em conflito de guerra. Esse foi o motivador. Entendo que como gestor você pode até num período de curto prazo ter uma ação de governo e depois de outro prazo, para outra gestão, de Estado, de fazer uma política onde a gente possa atenuar esse abismo social. Então, na avaliação do senhor, o próximo gestor que for administrar a cidade de Maceió terá muito o fazer para reverter esse quadro que o senhor está descrevendo? Sem dúvida nenhuma. É verdade que você tem parceria com os governos federal, estadual, sociedade civil. Avalio que Maceió está numa situação atípica, crítica. Não se concebe uma cidade onde você tem nos finais de semana, entre sexta e uma segunda-feira, 36 mortes. Essas mortes têm localidade, que é a periferia. Essas mortes elas têm um foco social: pessoas que têm poder econômico pobre. Tem sexo: masculino. Faixa etária: de 14 a 29 anos e você tem um motivador que é ligado principalmente à questão do crack, do tráfico. Agora a gente tem que fazer uma análise sociológica, antropológica sobre esse processo. É uma juventude que não tem perspectiva de futuro. Estou falando que os entes federados não oferecem perspectiva de você pensar o presente, muito menos o futuro. Quando o município se ausenta, o tráfico ele adota. Tem políticas públicas, mesmo num espaço de quatro anos, que podem melhorar a qualidade de vida e diminuir esse fosso social. Na educação, se você coloca equipamentos público como creches, não como o ex-prefeito que diz que vai colocar em todos os bairros, eu acho que isso é demagogia, a gente não tem dinheiro para isso, até porque creche é financiada pelo governo federal. Mas fazendo um levantamento da área que existe o Atlas da Violência de Alagoas, as secretarias de Segurança, Assistência Social, Saúde têm esse mapa. Quais são os locais de Maceió que têm o maior índice de violência? Os aglomerados urbanos, alguns, em torno do Benedito Bentes, Clima Bom, Dique Estrada, Jacintinho, Vergel, Santos Dumont, você pode criar mecanismos no sentido de colocar a presença do município nesses bairros. A creche é um equipamento que permite desde que a criança possa nascer dá uma autonomia, um fortalecimento à mulher trabalhadora que desce desses bairros e muitas vezes não tem um parente para cuidar. A outra questão é a escola de tempo integral. É fácil implantar? Não. Ela é cara. Mas você prioriza esses bairros que têm o maior índice de violência. Na área da Saúde, estabelecendo o Programa Saúde da Família. Assistência social, fazer um levantamento das famílias que moram nas ruas, qual o papel do município e ter um foco na juventude. E aí o orçamento ele tem uma singularidade porque você faz o mapeamento das quatro zonas, divide por bairro. O prefeito, que só agora vem pedir voto no período eleitoral, ele tem que voltar com a sociedade, discutir o orçamento que ele tem, verificar quais os problemas de cada bairro, elencar dez prioridades, e é a população agindo de forma cidadã, porque hoje ela está apática. Uma parcela não acredita na classe política. Quando você chama para fazer a discussão, ela passa a ser o ator da história e aí vai cuidar mais inclusive dos equipamentos que ela definiu. O partido do senhor, o PT, está fora da presidência da República, rompeu com o governo do Estado. Como o senhor pretende gerir o município sem o apoio dessas duas forças? Da mesma forma que o Cícero Almeida durante oito anos e o Rui quatro. Espero que mesmo esse governo sendo um governo ilegítimo, ele tem que agir de uma forma republicana. Existem os repasses constitucionais, que independem de governo, como por exemplo, nas áreas de saúde, educação e assistência social. Tem que ter um processo de parceria. Numa região como a nossa, que é uma região com a maior densidade demográfica, com a maior quantidade de habitante do Brasil, e tem índices sociais muito abaixo da média do Brasil, principalmente Alagoas, é possível essa parceria. Você tem que ter parceria também do ponto de vista da sociedade civil e avalio que tem que fazer uma rediscussão do ponto de vista tributário. A gente tem uma arrecadação onde praticamente dois terços do município dependem do governo federal. É necessário começar a otimizar. Fazer algumas modificações. Temos que fazer, por exemplo, o IPTU progressivo. Ou seja, aquela faixa de isenção inicial que não paga e você penalizar somente as faixas maiores. Estou dizendo isso porque o modelo tributário do Brasil é um modelo que penaliza só a classe trabalhadora e os mais pobres. Eu não acredito que haverá resistência. Uma das marcas do Cícero Almeida [PMDB] no governo foi devido à generosidade do presidente Lula e ele mesmo reconhece. Na história de Alagoas, Lula e Dilma foram os que mais aplicaram no Estado e em Maceió. Almeida e o Rui [Palmeira-PSDB]. Se beneficiaram do governo do PT e não retribuíram. Eu quero ter um tratamento republicano. Agora é necessário o município não ficar só dependente do governo federal. O Rui e o Cícero, um teve oportunidade de oito anos, outro quatro e agora mais quatro e eles não tiveram a capacidade política, a liderança de fazer esse arranjo essa concertação: governo federal, estadual, municipal e sociedade civil. O senhor aparece nas duas pesquisas de intenção de votos divulgadas pelo Ibope com um índice de rejeição muito alto, que ultrapassa os 50%. Como o senhor espera superar essa rejeição e vencer a eleição? A gente está atravessando uma conjuntura muito dura. Primeiro em relação ao governo da presidente Dilma, que no final deu no processo de impedimento e esse processo midiático cotidiano, seletivo, que está provado que ela não teve nenhum ato de improbidade, inclusive pelo próprio Ministério Público, porque o objeto da discussão seria a pedalada fiscal. Se for isso todo governador vai ser ?impichado?. Na verdade foi uma ação política. O PT cometeu um erro: não ter tido a capacidade de fazer uma política de aliança. Aquela eleição da Câmara, quando o Eduardo Cunha foi candidato, eu particularmente defendi essa tese perdi, acho que o PT não deveria ter lançado candidatura. A gente devia ter a humildade de apresentar outra candidatura no sentido de barrar a subida do Eduardo Cunha à Câmara Federal, porque todo mundo sabia quem era o Eduardo Cunha. Sempre foi esse homem do subterrâneo, dos grandes esquemas. E aí quando ele é eleito ele pauta aquela pauta-bomba e faz tudo aquilo que deu no que deu. ? ### PERGUNTA DA COORDENAÇÃO DE CAMPANHA Qual o diferencial de sua proposta para a cidade? Participação popular. Eu entendo que a realidade que Maceió está atravessando, com todo esse quadro social que eu citei, o segredo é a participação popular. É o controle social. Criar a Ouvidoria, ter transparência, inclusive on-line, você discutir a sua cidade, a sua rua, ter integração nas várias secretarias, priorizar o social. Como Maceió e outras capitais dependem muito do governo federal e os recursos próprios nossos são baixos, tem condição de ter orçamento para resolver todos os problemas de Maceió? Não. Qual a sua prioridade? A minha prioridade é o social. Eu não vou discriminar a cidade, agora quero dizer, com todo respeito, entre um viaduto e uma creche, eu farei a creche. Entre um viaduto e uma escola de tempo integral, eu farei uma escola de tempo integral. Entre um viaduto e colocar um Cras que possa resolver a assistência social do deficiente, eu prefiro o Cras. ### A VEZ DO ELEITOR MAYARA KARLA C. DE SOUZA - assistente contábil Onde eu moro, no Benedito Bentes, a pista da Cachoeira do Meirim, a principal do bairro, eu acho que eles não olham. Não tem sinalização, você não sabe onde começa e termina a calçada. Aquela pista é questão do urbanismo. Dentro dessa linha você deve perceber que a Cachoeira do Meirim você teve avanço de equipamentos comerciais de uma forma desordenada. É necessário que a secretaria responsável por isso, junto com o Planejamento, quando fizer uma pista já estabeleça alguns pré-requisitos. Primeiro o rolamento da pista, segundo a calçada, terceiro uma calçada com sinalização. Hoje, principalmente visual, tem uma dificuldade enorme. A outra coisa é acessibilidade para quem tem deficiência motora. Iluminação e você colocar ciclovia, que tem um papel fundamental, além de definir a padronização. O que foi que ocorreu com o atual prefeito? Houve a Conferência Municipal, no mês de junho, e quem deveria conduzir, ser o protagonista era prefeitura, mas a prefeitura não fez a conferência. BERNARDO SANTOS, técnico de enfermagem Minha pergunta é sobre saneamento básico. Em Bebedouro, onde eu moro, deveria melhorar. O que ele vai fazer pelo bairro? Saneamento básico, Maceió tem que ter uma parceria com o Estado e o governo federal. É uma obra fundamental, que infelizmente eu diria que ao longo de décadas nunca foi priorizada pelos gestores e a gente sabe que o saneamento consegue equacionar uma questão fundamental que é a saúde. Mas é uma obra muito cara. Maceió não tem empresa de saneamento básico. Então, a primeira coisa que a gente tem que fazer é discutir o município com o Estado, a União, a sociedade civil e também com um consórcio. Nesse caso, a parceria do saneamento básico tem que ser com a Casal. Hoje a gente tem uma baixa cobertura de saneamento, é uma obra que é invisível e tem um custo muito alto. Eu não posso aqui criar demagogia num processo eleitoral só para dizer que quero ganhar voto, dizer que você vai estender com facilidade. Essa discussão é prioridade, agora entendendo que tem que ter parceria com o Estado sob pena da gente não aplicar essa política.