Política
Lula quer reabrir Sudene, mas n�o sabe como
ARNALDO FERREIRA O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer reativar a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), no segundo semestre. Mas ainda não tem um formato do funcionamento da autarquia extinta no final do governo de FHC depois de se transformar num dos maiores cabides de empregos, mergulhar em denúncias de corrupção e nos últimos dez anos deixou de ser o principal fórum político-administrativo dos governadores nordestinos. Enquanto o governo Lula estuda a volta da Sudene, os escritórios regionais têm de ser fechados. Os servidores, técnicos, sabem apenas que ficarão em disponibilidade e buscam o remanejamento para outras repartições federais. Lula quer dividir responsabilidade, envolver os governadores e prefeitos nordestinos na discussão da reabertura da autarquia. Por isso, a proposta de reativação passou a ser formatada pelos atores principais desta discussão e por um grupo de trabalho liderado pela doutora em economia Tânia Bacelar. Não foi por acaso que a economista mais importante da região faz parte deste projeto. Ela pertence ao quadro desde a Fundação da Sudene, em 1959, conhece os pontos fracos e a parte boa da instituição. Antes de adotar qualquer medida, Tânia está discutindo a reabertura da Sudene com os governadores, prefeitos e políticos da região. Em Alagoas, garantiu que a nova superintendência será muito diferente e adiantou que quem tem dívidas com a velha estrutura. ?Quem lesou a velha Sudene terá problemas com a Polícia e a Justiça Federal?, disse Tânia no encontro que manteve com parlamentares da bancada federal, estadual, técnicos do governo estadual e prefeitos. Ela confirmou a existência de um grupo que trabalha na formatação da nova Superintendência, que terá como base os resultados dos debates com a sociedade nordestina. A previsão dela dá conta de que a Superintendência será reaberta em junho. Os escritórios regionais da velha e pesada autarquia fecham mesmo até o fim deste mês. Barcelar esclareceu que não há como mantê-los abertos. Garantiu que muita coisa vai diferenciar a nova Sudene. ?Uma coisa é certa, a nova autarquia não será tão executora como a velha estrutura. O Nordeste mudou muito e não admite mais uma estrutura que só se preocupava com a estiagem nos períodos cíclicos ou com os megaprojetos. A antiga estrutura era tão atrasada que teve de fazer uma empresa para perfurar poços porque a região não tinha quem fizesse isso. Hoje seria até ridículo se criar uma empresa para sair por aí perfurando poços?, disse. Porém, a nova superintendência terá os mesmos macroobjetivos da velha. ?A nova Sudene vai trabalhar na promoção do desenvolvimento, será muito mais enxuta, terá um papel político articulador das ações e promotora. Não será executora?. Tânia Barcelar lembrou que as Organizações Não-Governamentais (ONGs) desempenham papéis estratégicos e fundamentais na política de convivência e podem ajudar a desempenhar um papel de fortalecimento das ações. Tânia já participou de 22 debates, o último foi em Maceió na segunda-feira. Ela percebeu que ao contrário do que acontece no Norte do País, onde ninguém quer saber da reativação da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), o Nordeste sente falta da Sudene. ?Há interesse e pressões políticas dos setores da cadeia produtiva forçando a reabertura da nossa Sudene. Existe uma determinação firme do presidente Lula e do vice José Alencar em recriar a instituição?. Porém, reconhece que em curto prazo não há como a nova instituição atender às demandas reprimidas ao longo das últimas décadas por causa da falta de estratégias nacionais para o desenvolvimento integrado. ?O Nordeste tem 30% da população do Brasil e só gera 15% da produção nacional. Este hiato é grande e não se resolve isto em três ou quatro anos?, alertou. Desafios Um dos desafios da nova instituição é reverter a situação de atraso no processo de desenvolvimento regional e mostrar ao País um novo Nordeste. Tânia Barcelar demonstrou estar convencida de que já existe um novo Nordeste. ?Quando a gente fizer a discussão sobre o novo Nordeste vamos surpreender o Brasil porque existem iniciativas novas, muita coisa boa está florescendo e mudanças culturais importantíssimas?. Ao lembrar o seu ingresso nos quadros da Sudene, no começo do funcionamento da autarquia, em 1959, disse que naquela época a discussão central dos técnicos e dos governadores era a luta contra a seca. ?Hoje, ninguém fala mais como nos anos 60, 70, porque existem experiências interessantes sobre a convivência com o clima do semi-árido. Acho que essa é a linha correta de pensamento. Antes a Sudene não valorizava atividades simples, fortes a caprinocultura, meu avô era uma das pessoas que diziam que criar cabras e ovelhas era coisa de pobre. Mas, hoje, esses e outros conceitos têm de ser revistos. A nova instituição tem de se apoiar nas coisas boas, nas iniciativas simples e que, se bem estruturadas, organizadas, podem ajudar no componente do desenvolvimento regional integrado?. Tânia Barcelar garante que apesar de tudo o Nordeste acompanhou a economia nacional. O que ocorre, segundo ela, é que a economia brasileira parou de crescer. O grande desafio hoje é voltar a crescer. ?O Nordeste, no contexto econômico nacional, representava menos de 15% da produção do País, antes da Sudene. Hoje representa 15%. Mas ainda é a metade do que se tem em termo de população?. A reativação da autarquia passa por uma profunda transformação a ponto de recriá-la em outros moldes. A idéia é que passe a ser uma nova instituição, contemporânea do século XXI. ?Não teremos mais a Sudene dos anos 50. Mas não vamos desperdiçar tudo. As coisas boas serão aproveitadas. A velha estrutura não tem solução, vai ser extinta. A nova instituição começara a funcionar no segundo semestre?. Tânia Barcelar não sabe se o pessoal da velha estrutura será aproveitado e nem tem idéia sobre o número de servidores que permanecerão no quadro. ?Quem está na velha instituição vive um momento de transição e sabe disso?, frisou.