Política
Candidato a prefeito indica filha para coordenar o Fome Zero
ARNALDO FERREIRA O programa ?Fome Zero?, criado em meio às promessas da campanha eleitoral do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, e que é considerado como um dos fortes componentes para combater a fome e a miséria de milhares de brasileiros que vivem, hoje, na exclusão social, tem sido alvo de críticas graves e sérias em todo o Brasil. Efetivamente o programa não saiu do papel em Alagoas e na maioria dos Estados. Mesmo assim, é atacado de todas as formas. Em Alagoas, os objetivos do programa são contestados por políticos da oposição e governistas. O vereador de Maceió, Marilúzio de França Moura, recebeu informações de que o ?Fome Zero? será usado como instrumento da campanha eleitoral de 2004, quando os eleitores voltam às urnas para escolher prefeitos e vereadores. A denúncia do vereador atingiu em cheio o deputado federal Givaldo Carimbão (PSB), que é candidato declarado a prefeito de Maceió e que está em plena campanha dentro e fora do partido do governador Ronaldo Lessa e da prefeita Kátia Born (PSB). ?Tem gente indicando a própria família para coordenar o programa Fome Zero com objetivos eleitorais?, disse o vereador, em discurso no plenário da câmara e na conversa rápida com jornalistas que cobrem a Câmara Municipal de Maceió. França Moura afirmou estar preocupado com o futuro do programa criado apenas com objetivos humanitários. ?É preocupante que venham desvirtuar o programa. O Fome Zero é de uma grandeza enorme e não pode cair na pequinês dos que querem transformá-lo num palanque eleitoral?, disparou o vereador, atingindo o alvo certo de suas críticas. O radialista, em seu discurso no plenário da câmara, assegurou: ?Já me chegaram informações de que há políticos lançando seus parentes para coordenar o programa porque estão de olho nas eleições municipais?. PT cobra clareza Os vereadores presentes à sessão de quinta-feira, na câmara, ficaram surpresos com a gravidade das declarações do colega França Moura. O líder do PT na Casa, vereador Judson Cabral, lembrou a história profissional, política e de luta sindical de um nordestino, que saiu do sertão de Pernambuco para escapar da seca e foi morar em São Paulo, onde passou fome e outras dificuldades com os irmãos. Judson assegurou que o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula não vão tolerar que desviem os objetivos do programa Fome Zero. Exigiu para o vereador ser mais claro e não usar a tribuna apenas com insinuações. ?Se a gente sabe que tem gente usando de má-fé no governo, na prefeitura ou à frente do programa Fome Zero, temos de denunciar?, disse, lembrando que a função do legislador, especificamente do vereador, é atuar como fiscal da população. O outro vereador do PT, na Câmara de Maceió, Thomaz Beltrão, sustentou a seriedade do programa criado no governo Lula. ?O Fome Zero está longe de ser uma proposta eleitoreira. O presidente Lula carrega uma história de luta e não permitirá que maculem a sua história com atitudes tão pequenas?. Beltrão tranqüilizou o colega França Moura ao assegurar que os procedimentos para atender as famílias, através do programa, se darão via cadastro de cada beneficiado. ?Na execução do Fome Zero não vai funcionar o famoso método do ?Q. I.? (Quem Indique) dos políticos?, garantiu. Carimbão confirma A GAZETA DE ALAGOAS, depois de conversar com vários deputados estaduais, federais e os senadores da bancada federal alagoana, identificou quem indicou parente para coordenar o programa ?Fome Zero? no Estado. O deputado federal Givaldo Carimbão, lançado pela prefeita Kátia Born e pelo governador Ronaldo Lessa como um dos quatro fortes candidatos a prefeito de Maceió do PSB, confirmou, com exclusividade, na última quinta feira, por telefone, de Brasília, ter indicado a sua filha Flávia de Sá Gouveia, para coordenar, em Alagoas, o programa que é a menina do olhos do presidente Lula. ?Em conversa com a prefeita Kátia Born, ela me disse que precisava de uma pessoa de confiança para coordenar o programa Fome Zero. A prefeita queria uma pessoa que tivesse a vivência administrativa com problemas da exclusão social, que tivesse compromisso com os mais carentes, sensibilidade, fosse séria, sem mácula. Diante desses requisitos todos, resolvi emprestar a experiência de minha família, particularmente de milha filha Flávia, para o programa Fome Zero?. Carimbão aproveitou o contato com a GAZETA para fazer uma provocação indireta a França Moura: ?Desafio aos que têm olho gordo, inveja, que querem atingir a mim e a minha família, que denunciem qualquer envolvimento meu com desvio de dinheiro público ou prática de irregularidades, principalmente com recursos destinados ao benefício social?. Ao saber, através dos assessores de imprensa, sobre o pronunciamento de França Moura e ao ser questionando se sentia atingido, de alguma forma, com o pronunciamento do vereador que é do mesmo grupo político do governador e da prefeita, o deputado federal alfinetou: ?O que vem de baixo não me atinge?. Apresentou como aval próprio, a sua trajetória política. O parlamentar assegurou que quem conhece a sua história empresarial, política e religiosa sabe que ?tenho ligação com seriedade e com o compromisso social?. O deputado, há 15 anos, trabalha na assistência social de filhos das famílias que estão abaixo da linha da miséria e moram nas favelas e grotas da periferia. Ele mantém o Lar Coração de Jesus, que funciona como semi-internato na região do Tabuleiro do Martins. ?O Lar Coração de Jesus é administrado por minha família, minha mulher e filhos. Comecei com 40 crianças e hoje há mais de 800 crianças assistidas e ganhando cidadania. A maioria dessas crianças vive em área de risco?, desabafou. Ainda rebatendo o radialista, Carimbão garantiu que a coordenadora do Fome Zero - sua filha Flávia - é pedagoga formada no Cesmac e ?tem berço?. Apesar de assumir que a sua entidade garante cidadania para 800 crianças e adolescentes, Carimbão assegurou que não pratica e nunca fez assistencialismo eleitoral ou pessoal. ?Quem tem um passado como o meu tem que emprestar a quem precisa. A Kátia precisou de uma pessoa da minha família para tocar um programa importante, fundamental e sério e achei por bem indicar a minha filha que tem experiência neste setor?, disse o deputado, tentando manter o seu eqüilibrio emocional. Críticas da oposição O programa Fome Zero tem sido criticado pela oposição ao presidente Lula e ao ministro da Segurança Alimentar, José Graziano. O presidente do PFL alagoano, José Thomaz Nonô, é um dos que não perdoa o ministro que fez um infeliz comentário para empresários paulistas, insinuando que nordestinos teriam de ser mantidos na região, para não atacar a população daquele Estado. Nonô não acredita no sucesso do programa por causa das ?trapalhadas? que vêm acontecendo. O vereador George Sanguinetti (PSDB) também cobra eficiência da equipe de Lula e seguidamente cobra execução do combate à exclusão social. O secretário de Comunicação do PT, Joaquim Brito, rebateu as críticas. Depois de conversar com o presidente Lula, desmentiu os boatos de que Graziano seria substituído. ?O ministro da Segurança Alimentar está mantido pelo presidente Lula?. Sobre as trapalhadas que impedem, inclusive, as pessoas de fazerem doações ou depósitos para o programa Fome Zero, adiantou que as pendências foram sanadas. ?Uma conta no Banco Brasil e outra na Caixa Econômica Federal estão recebendo as doações?. Mas, o programa só vai atender 13 dos 102 municípios alagoanos, conforme disse o próprio ministro, em Brasília.