Política
Desembargador abre m�o do sossego para defender traficantes
ARNALDO FERREIRA O narcotraficante mais temido do País, Luiz Fernando da Costa - o Fernandinho Beira-Mar, ainda não disse a ninguém que vai largar a vida do crime. Muito pelo contrário, a polícia tem indícios de que ele continua com o posto de chefão do narcotráfico e líder da facção Comando Vermelho, que há anos espalha o terror nas favelas do Rio de Janeiro. Porém, nos últimos dias, surpreendeu ao confessar para o seu mais novo advogado de defesa, o desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Maranhão, Luiz de Almeida Teles, que está estudando livros de Direito e que agora volta a ser advogado. Há três semanas preso na carceragem da sede da superintendência da Polícia Federal de Alagoas, Beira-Mar mostra fôlego financeiro suficiente para contratar mais um advogado e ninguém menos que um promotor e desembargador aposentado, que mora na capital de São Luiz do Maranhão. Nesta entrevista exclusiva à GAZETA DE ALAGOAS, Almeida Teles confirma que trocou o sossego da aposentadoria para defender acusados de seqüestro e traficantes, revela ainda como passou a atuar na defesa de Beira-Mar. Admitiu ter sido contratado por honorários que beiram a casa dos R$ 100 mil. Comedido com as palavras, o desembargador aposentado explicou por que depois de 40 anos de trabalho na Justiça do Maranhão decidiu voltar a advogar. /// - O senhor é o mais novo advogado do traficante Luiz Fernando da Costa? - É verdade. O que acontece é que me aposentei e com a experiência que tenho preferi não ficar parado. - Qual a sua experiência? - Tenho 40 anos de serviços, trabalhando na Justiça. Já fui promotor de Justiça, depois juiz de Direito, cheguei a desembargador, depois membro do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão por dois períodos. Então, tenho uma experiência razoável. - O senhor mora onde? - Em São Luiz. - Como é que foi encontrado para trabalhar na defesa de Beira-Mar? - Através dos familiares dele. - Os familiares do traficante são do Maranhão? - Não... Não. - Mas, como chegaram até o senhor? - Tenho clientes no Rio de Janeiro. Eles, naturalmente, falaram com a Cecília Machado (a advogada de Beira-Mar). - O outro cliente é do narcotráfico? - Ele está preso. Mas não é do narcotráfico. Meu cliente, Ismael Caetano da Silva, é acusado de um suposto seqüestro. - O senhor agora substitui a advogada Cecília Machado? - Não... Não... - O senhor, que já ocupou cargos importantes na Justiça do Maranhão, como é que se sente defendendo um réu como Fernandinho Beira-Mar, acusado de tantos crimes? - Normal. Defendo qualquer cidadão que necessite da prestação do serviço de defesa na Justiça. - Qual o valor do honorário de um cliente como o narcotraficante mais temido do Brasil? - Vou dizer e talvez o repórter vai estranhar: sou um advogado sui generis. Não trabalho por dinheiro. - A defesa é de graça? - Não, não é de graça. Estou dizendo que não vivo atrás de dinheiro e nem impondo coisas absurdas. - Então, o que é que move o senhor? - Sou um homem da escola do advogado Sobral Pinto. - Mas estamos falando de um preso que é o mais temido por causa dos seus crimes. Isto não o preocupa? - Não. Não me preocupa não... - Fernandinho Beira-Mar sabe que está em Maceió? - Sabe. - Ele conhece bem esta capital? - Não sei. Mas acredito que ele já andou por aqui, no Nordeste, na Paraíba. - O senhor está aposentado há quanto tempo? - Há dez anos. - O seu cliente quer ficar aqui para não morrer ou voltar para o Rio de Janeiro? - Ele quer voltar. - Por que ele quer voltar para o Rio de Janeiro? - Tem familiares lá, tem a mulher (Elisete Costa), 11 filhos. Acho que ele tem chances de voltar porque a Lei das Execuções penais diz que o condenado tem de cumprir a pena no local onde cometeu o crime. Tem um mandado de segurança para ser julgado no STF solicitando a volta do meu cliente para o Rio. O mandado falta ser julgado (já foi julgado e o STF decidiu que Beira-Mar fica em Alagoas). - Dentre os cinco advogados que trabalham para o traficante, a sua função qual é? - Vou prestar a ajuda aos colegas na medida do possível e naquilo que possa fazer para contribuir na sua defesa. - Mas, quanto custa a sua ?ajuda? neste caso? - Volto a dizer o seguinte: sou uma pessoa desprendida do dinheiro, sou da linha do advogado Sobral Pinto. - Então, é de graça mesmo? - Não. Não advogo de graça. Mas não vou explorar. Todo mundo pensa que um homem desse é rico, cheio do dinheiro, alguns imaginam que eu cobraria 200 mil, 300, 500 mil reais. Não é nada disso não. - Mas, qual é o honorário? - Depende... - Passa de R$ 20 mil? - Mais... - Chega à casa dos R$ 50 mil? - Mais um pouco, não é... - Fica em R$ 100 mil? - É, pode ser. Mas, não estou recebendo nada disso não... - Mas este valor costuma ser o seu honorário para clientes como Fernandinho Beira-Mar? - Depende... Levo sempre em consideração a situação do cliente. Sou um homem pobre. Eu só tenho muitos filhos. - Quantos? - Onze filhos. Estou empatado com o meu cliente que tem 11 filhos também. E como eu, esses filhos todos não é só com uma mulher. - Como seu cliente passa o tempo? - Lendo livros de auto-ajuda e livros de Direito, me disse que vai fazer o curso de Direito. Ele não é besta não. (Colaboração da jornalista Beatriz Azevedo - TV GAZETA) ? (A.F.)