Política
�reas do MST se transformam em quart�is de bandidos
ARNALDO FERREIRA O assassinato do trabalhador rural José Ângelo da Silva, com 27 tiros, dentro do acampamento ?Boa Fé?, no município de Atalaia (distante 50 quilômetros de Maceió), por pistoleiros infiltrados no movimento sem terra, há uma semana trouxe à tona um grave problema que desmoraliza o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. Quadrilhas de pistoleiros assalariados, de assaltantes e de traficantes estão usando as áreas do MST como esconderijos. Para ludibriar as investigações policiais os acusados de vários crimes se disfarçam de trabalhadores rurais. Para o disfarce ficar quase que imperceptível, as quadrilhas estão comprando lotes nos assentamentos ou se infiltram nos acampamentos e espalham um clima de terror e medo. A situação chegou a um ponto em que hoje é fácil identificar que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Alagoas, passa por uma profunda divisão política interna. A maioria dos assentamentos e acampamentos está sem lideranças com força suficiente para afastar os criminosos da área. Algumas áreas estão mesmo sem rumo e para agravar a situação, esses locais se tornaram esconderijos. Até porque não existem assistência técnica para a produção rural e muito menos financiamento agrícola. No sertão, agreste, zona da mata e nas áreas litorâneas as denúncias contra os criminosos infiltrados no MST se multiplicam. Nas áreas do movimento, o clima de medo é flagrante e semelhante à situação da periferia de Maceió, por exemplo. As lideranças estaduais tentam manter o problema longe da imprensa. Mas, a direção do Incra já está investigando tudo, sigilosamente. Durante duas semanas, a GAZETA DE ALAGOAS conversou com lideranças, trabalhadores simples e ouviu histórias como a do trabalhador rural que se identificou como Juvêncio dos Santos de Andrade. Ele vive com a mulher e quatro filhos adolescentes no assentamento Nova Esperança II, entre os municípios de Delmiro Gouveia e Olho D?água do Casado (distante cerca de 220 quilômetros de Maceió). ?Como se não bastasse a situação de miséria, fome, a falta de projetos, de sementes para as nossas famílias nos assentamentos, agora pessoas estranhas se infiltram nas áreas para distribuir maconha aos nossos filhos?, lamentou seu Juvenal. Por trás de tudo estaria um suposto sem-terra conhecido naquela área do sertão como ?Baianinho?, considerado como um homem violento que circula nas comunidades cercado de pistoleiros. Na região do agreste, nos assentamentos localizados entre os municípios de Arapiraca, Girau do Ponciano e Traipú (distantes 150 quilômetros), as denúncias das famílias que estão em assentamentos e acampamentos dão conta da infiltração de criminosos do ramo de clonagem de celular em outros Estados, de traficantes de drogas e de pessoas envolvidas com a venda ilegal de áreas em assentamentos do Incra. As denúncias recaem sobre quatro antigas lideranças dos assentamentos ?Padre Cícero? que ficam entre Girau do Ponciano e Traipú e ?Rendeira?, localizado entre Girau e Arapiraca. A maioria dos assentados chegou a pedir ?pelo amor de Deus? para não divulgar seus nomes mas foi unânime em implorar: ?Os técnicos do Incra precisam visitar as nossas áreas imediatamente. A juventude está se viciando em consumo de maconha e a venda de lotes cresce de forma preocupante. Isto pode comprometer o projeto de reforma agrária no agreste alagoano?, disse um trabalhador rural do assentamento que fica próximo ao município de Traipú. A liderança do acampamento ?Rendeira?, que se identifica como João da ?Lica? ao ser informado sobre as quatro lideranças acusadas em vários crimes que comprometem a reforma agrária do Incra no agreste alagoano, afirmou que ?as lideranças acusadas há mais de três meses não são vistas na nossa região?. No assentamento ?Rendeira? existem 114 famílias estabelecidas. João da Lica disse desconhecer a existência do comércio de lotes e do tráfico de drogas na sua área. ?Em nosso acampamento só existem homens e mulheres de bem. Acho que pode ter alguém no meio de nós querendo tumultuar as coisas?. Sobre a proposta feita por duas trabalhadoras rurais que querem a polícia e os técnicos do Incra investigando a situação dos assentamentos, João da Lica concordou com a proposta. Na zona da mata, o clima é muito tenso no município de Atalaia. Nos assentamentos Boa Fé, Timbozinho, Ouricuri, o clima é de total insegurança. Os fazendeiros contrataram pistoleiros é há seis anos aterrorizam os assentados. Entre os assentados há grupos rivais fortemente armados e que trocaram juras de morte. Nas áreas são registradas várias denúncias. As mais graves são: aliciamento de adolescentes pobres para atuarem na prostituição infantil, vendas de lote, tráfico escancarado de droga, suspeita de plantio. Qualquer assentamento indica como encontrar o agenciador da venda de lotes e alguns supostos militantes do MST têm passagem pela polícia porque foram presos como traficantes ou usuários de drogas em Caruaru (PE). Um dos depoimentos mais chocantes foi o do presidente da Associação dos Assentados Nova Serrano, em Joaquim Gomes, Cícero Macário Campo, que denunciou: ?65 famílias foram jogadas numa área sem nada. Hoje sofremos com as ameaças dos pistoleiros de União dos Palmares, tivemos a nossa plantação destruída. Tudo isso para nos obrigar a vender nossos lotes?, disse, denunciando outros sem-terra e confirmando que a situação é idêntica em todo o Estado. Nas áreas litorâneas, os assentamentos entre Maragogi, Porto Calvo, os assentamentos de Samba, São Pedro, Espírito Santo, Massangana entre outros, mais de duas mil pessoas vivem com medo dos traficantes que aliciam os jovens e atraem as garotas para a prostituição infantil. As lideranças confirmam que suas áreas têm sido abrigo para criminosos e temem denunciá-los à polícia.