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Um memorial para as v�timas da ditadura

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VALMIR CALHEIROS O próximo monumento a ser construído em Maceió deve ser um memorial às vítimas alagoanas do último regime ditatorial no País. A idéia começa a ser defendida pelos familiares, amigos dos mortos e desaparecidos e sobreviventes da ditadura instalada com a tomada do Poder pelo golpe militar de 1964 justamente em meio aos preparativos para a Semana Manoel Lisboa de Moura, um dos fundadores do Partido Comunista revolucionário (PCR). As atividades da Semana começam, nesta segunda-feira, às 15 horas, com a primeira sessão especial na Assembléia Legislativa. Além de homenagear um dos maiores líderes socialistas nascidos em Alagoas, elas servirão para a sociedade conhecer melhor a verdadeira face do socialismo, como informa o engenheiro de pesca Lauro Bandeira, contemporâneo, amigo, desde os tempos de estudante do Liceu Alagoano, ex-cunhado de Lisboa, e um dos dirigentes do Centro Cultural Manoel Lisboa. A programação prevê encenação teatral, palestra e exposição sobre a vida de Manoel Lisboa, a partir das 9 horas, de terça-feira e quarta-feira, no Colégio Liceu Alagoano, onde Lisboa estudou. Também no Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa) e no Cefet (antiga Escola Técnica Federal). Ainda na quarta-feira, haverá, a partir das 10 horas, sessão especial na Câmara de Vereadores. Elas serão encerradas, na quinta-feira, com a chegada, às 7 horas, no Aeroporto Zumbi dos Palmares, dos restos mortais do líder revolucionário, trasladados de São Paulo, seguindo-se o cortejo até ao prédio da antiga Faculdade de Medicina, no Prado, onde ocorrerá a vigília. Daí, os restos mortais serão conduzidos em cortejo ao Cemitério Parque das Flores, às 16 horas, para as últimas homenagens. Elas também acontecerão, antes de Maceió, em São Paulo e Recife. Quem foi Lisboa O PCR já tinha grande força entre os camponeses, as juventudes universitária e secundarista. Sua influência crescia na classe operária. Estava implantado em quase todo o Nordeste, além de ter realizado com êxito dezenas de ações revolucionárias, quando Manoel Lisboa foi preso pela segunda e última vez, pela repressão que decidiu seqüestrá-lo e assassiná-lo. Sua morte ocorreu aos 29 anos, nos porões do DOI-CODI, no Recife. Nascido em Maceió, de família de classe média alta, Manoel - conforme recorda o veterinário Valmir Costa, seu amigo, da infância aos últimos dias, e também ex-preso político - teve, até a adolescência, os recursos materiais para viver os privilégios garantidos pela sua origem social. ?Honesto, estudioso, inteligente, ele nunca se conformou com a miséria e as desigualdades imperantes no Brasil e no mundo?. Há, na Praça Manoel Duarte (antiga Praça da Liberdade), de Jaraguá, - uma das áreas mais movimentadas da cidade, por turistas, inclusive, uma construção, de cerca de dez anos, conhecida apenas por algumas pessoas como símbolo das lutas de Manoel Lisboa e outros alagoanos, muitos dos quais ainda anônimos, que estiveram entre os heróis e mártires brasileiros naquele que foi um dos mais sangrentos períodos da nossa História. Nem os moradores das imediações e jardineiros que cuidam da praça sabem o que ele representa. Até porque, além do abandono, não há sequer uma simples placa nesse ?monumento? com as indispensáveis indicações. E não consta de nenhuma das obras que tratam das praças e monumentos da cidade. Até l992, encontrava-se, na mesma praça, construída ainda em 1918, um dos mais belos e antigos monumentos do Estado: a réplica, com seis metros e em bronze, da estátua da liberdade de Nova Iorque, feita em Paris, na mesma fundição que produziu esta última. Essa nossa ? a única em todo o País, segundo o pesquisador Miguel Vassalo Filho -, voltou para o seu pedestal de origem, no mesmo bairro. Primeiramente, ela foi retirada para ser erguida na Praça do Centenário, no Farol. O memorial Para a autora da proposta do memorial, economista Maria Yvone Loureiro Ribeiro, ?um monumento e tudo que se fizer para lembrar nossos heróis e mártires, nossos bravos, devem ser marcantes e duradouros.? Em relação ao memorial, por exemplo, se depender dela, ele deve ser dotado de todas as condições necessárias para eternizar o exemplo de coragem, de resistência, de lutas pela liberdade, pela nossa soberania, com livros, fotos e outros tipos de materiais relacionados a todos os acontecimentos dos chamados anos de chumbo. Incluindo os poucos conhecidos até agora, bem como os inéditos. E de guardar os restos mortais já identificados e a serem identificados, dos que tombaram em defesa desses ideais. Yvone é viúva de Odijas Carvalho de Souza, jovem estudante de Agronomia da Universidade Federal de Pernambuco (UFRPE), morto em 1971, aos 25 anos, em conseqüência de brutais torturas sofridas nas dependências da Delegacia de Segurança Pública do Departamento de Ordem Política e Social de Pernambuco (Dopse). Alagoano de Atalaia, Odijas estudou no Colégio Estadual de Alagoas entre 1962 e 1963. Em 64, foi para Recife, onde concluiu o curso secundário e ingressou na Universidade Rural Federal de Pernambuco. Militou no movimento estudantil e, ao mesmo tempo, no Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCRB), do qual foi um dos dirigentes, em virtude das perseguições agravadas com a decretação do Ato Institucional 5 (AI5). Maria Jvone é ex-prisioneira política, passou a conhecer Odijas, em Viçosa, quando ele tinha 14 anos. Reencontrou-o na UFRPE, cujo diretório acadêmico leva seu nome. Ivone era então estudante de Economia Rural Doméstica e vinculada também ao PCRB. Namoraram e causaram em Fortaleza, onde passaram a viver clandestinos. A sua idéia do memorial tem tudo para prosperar. Um de seus defensores é o vereador por Maceió, Thomaz Beltrão. Ele também faz parte da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e tem, na família, uma das mais conhecidas vítimas das crueldades da mais recente ditadura brasileira: a própria irmã, Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão. Gastone nasceu, em 1950, em Coruripe. Thomaz lembra que ela costumava lhe pagar para que libertasse os pássaros que ele prendia em suas brincadeiras de criança. Estudou nos colégios Imaculada Conceição e Moreira e Silva, em Maceió. Concluiu o segundo grau no Rio de Janeiro, onde começou sua militância política, através do movimento estudantil secundarista. Voltou para Maceió, em 1968. Prestou vestibular de Economia, na Universidade Federal de Alagoas. Casou-se, em 1969, e logo viajou para a Europa. Esteve em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha durante alguns meses. Esteve no Chile e retornou clandestinamente ao Brasil. Atuou através da Ação Libertadora Nacional (ALN). Em 1972, em São Paulo, foi sumariamente metralhada, ao reagir à voz de prisão do delegado Sérgio Fleuri e equipe. Só daí a cinco anos, a família conseguiu a autorização para trazer os restos mortais para Maceió. O sepultamento foi realizado no mesmo lugar dos avós, no Cemitério de São José. Ali também estão os restos mortais de Odijas Carvalho, desde dois anos após a sua morte. A mesma sugestão de Maria Yvone conta com o apoio de um outro participante dos movimentos em defesa dos direitos humanos. Trata-se de Yuri Miranda que, desde 64, não tem notícia do pai, jornalista e advogado Jaime Amorim de Miranda, que continua na lista de dezenas de brasileiros desaparecidos. Ele foi um dos mais influentes líderes de toda a história do PCB, uma vez que integrava seu comitê central.

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