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Política

QUERO GOVERNAR MACEIÓ COM O APOIO DO POVO

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Professor, ativista, militante estudantil, presidente interino do PSOL em Maceió, Gustavo Pessoa é o terceiro candidato à prefeitura da capital a participar da série de entrevistas que a Gazeta traz a seus leitores com os postulantes ao cargo de chefe do Executivo municipal. Ele fala sobre suas propostas para o município, faz críticas aos adversários, diz que o quadro apresentado pela atual e por gestões anteriores é de uma cidade fictícia, e pontua como destaque de seu programa de governo a participação popular na gestão, inclusive com a criação de uma plataforma digital onde o povo poderá elaborar projetos. Afirma que ser considerado um candidato desconhecido não o incomoda. Responde também a perguntas dos eleitores, ouvidos pelo estudante de jornalismo Thiago Tarelli. Gazeta. O senhor é um educador, pouco conhecido no cenário político. O que o levou a se candidatar ao um cargo disputadíssimo, como o de prefeito de Maceió? Gustavo Pessoa. Acho que a gente tem uma visão um tanto quanto estereotipada e distorcida da política. Embora eu nunca tenha exercido mandato de forma institucional, sempre fiz política, sempre respirei política na minha vida, desde muito cedo, desde os 15 anos, ainda como secundarista começa a minha militância. Tenho uma passagem pelo PCdoB. Depois, já na Universidade, eu me filio ao PSTU, fui dirigente do partido aqui em Alagoas, saio do PSTU, vou para o PSOL. Toda minha militância no movimento estudantil foi em defesa de uma universidade pública, gratuita, de qualidade. Sempre me considerei um político. Nunca tinha vivido o desafio de disputar uma eleição para um cargo institucional, mas a política sempre fez parte da minha vida. Talvez esse seja o desafio de grande parte da nossa população. É se entender como ator político. Spinoza, que é um grande pensador, dizia que a política é uma atividade para a qual a gente não precisa ter especialização. Precisa ter especialização para operar uma cirurgia cardíaca. Mas política a gente faz o tempo todo, porque política é a arte de defender ideias, interesses, de persuadir pessoas, de forma legítima e honesta, para que elas possam concordar com as nossas ideias e nós entendemos que elas são justas e legítimas. Então o fato de o senhor não ter ocupado nenhum cargo público não o descredencia? Não descredencia nem retira de mim a atividade política que eu exerci. É uma afirmação da minha atividade política, agora numa esfera mais desafiadora, perigosa porque eu estou disputando com gigantes da política alagoana, mas é uma coisa que eu já faço há muito tempo: dialogar e buscar de certa forma defender ideais no campo que eu acredito que seja mais honesto, o da esquerda, onde estou. E essa falta de experiência, o senhor acredita que pode trazer consequências futuras? Sabemos que a administração de uma prefeitura como Maceió, a capital do Estado, não é fácil. Isso lhe assusta? Não, não me assusta. É um desafio. Sempre fui uma pessoa muito forte e muito sonhadora. Eu acho que gerenciar, administrar uma prefeitura é diferente de administrar uma empresa. Porque uma empresa tem como fim obtenção de lucro, então os homens são meios para que você possa obter lucro. Ninguém abre uma farmácia pensando em salvar vidas. Pensa em ganhar dinheiro, por isso acaba salvando vidas, mas aí o homem aparece como meio. O Estado, não. O Estado se a gente for tentar encontrar uma definição clássica, ele tem por natureza promover o bem-estar social. Acho que o grande problema dos nossos gestores é justamente esse tecnicismo exagerado, essa falta de sensibilidade. Eu tenho acompanhado com atenção o Guia Eleitoral dos meus adversários, até porque possuem muito mais tempo do que eu. O atual prefeito Rui Palmeira e o ex-prefeito Cícero Almeida, eles falam muito em obras, obras, obras. Parece que essa cidade não tem seres humanos. Que esses seres humanos não vivem os problemas, não sofrem aqui, não vivem aqui as suas eventuais alegrias, tristezas. Eu sou muito experiente na relação com seres humanos. Não sou um administrador de empresas e acho que na verdade nós não estaremos escolhendo aqui um administrador de empresas, mas alguém que tenha sensibilidade para compreender, sobretudo nesse momento difícil que nós estamos, que o Estado tem que redirecionar suas prioridades, num momento de orçamento baixo, de receita caindo, para aqueles que mais precisam. E isso a gente não tem que escolher aqui um administrador de empresas. Se esse fosse o critério, pelo currículo que é vendido, Maceió não estaria apresentando os indicadores sociais que apresenta. Até porque, na verdade, nós temos dois nomes que já governaram e um está governando. E ainda que eles tentem, façam um esforço enorme de marketing para apresentar uma cidade que não existe, a realidade nós conhecemos. E ela se apresenta friamente nos números. Que números são esses? Os números falam mais do que eu. Ainda que tentem apresentar uma cidade fictícia, de sonhos, no mundo real, Maceió é essa cidade que nós conhecemos, que amamos, mas que na realidade é desconhecida para grande parte de seus moradores. É a cidade que ostenta mais de 10% de analfabetos, que apresenta uma taxa de mortalidade infantil equivalente ao dobro da média nacional, que quase 70% das pessoas não têm cobertura de saneamento básico, que os postos de saúde não funcionam, que medicamentos acabaram se tornando instrumento de barganha para vereadores e líderes comunitários, a cidade onde o atual secretário de Saúde está sendo processado, porque na verdade mais de 30 exames não estão sendo oferecidos para a população. Onde as pessoas acordam três horas da manhã para pegar uma ficha. Então essa cidade está longe de ser a cidade apresentada por marqueteiros e eu me sinto muito à vontade porque se nós fôssemos julgar experiência como gestor, ou pelo fato de termos exercido mandato, não estaríamos na cidade onde estamos. O senhor considera que é possível mudar esse quadro de cidade fictícia, como fala, de injustiças sociais, em quatro anos? Acho que não. Eu estaria vendendo terreno na Lua para meus eleitores. Não quero fazer isso. Minha campanha é uma campanha de engajamento. Ela tem objetivos e um deles é comemorar, sim, uma eventual vitória no dia 2 de outubro, mas se porventura ela não vier, a gente está cumprindo um papel. Pode ser que a partir daqui eu não dispute mais nenhum cargo público. Que eu resolva me refugiar no meu lar, com minha família, mas eu estou cumprindo um papel histórico e um desafio que eu não poderia deixar de cumprir. Quero elevar o nível de consciência das pessoas. Quero que elas saibam que podem e devem ser protagonistas do jogo. O banquete da política não pode ser dividido entre meia dúzia de famílias ou daquilo que eu tenho chamado ultimamente de coronéis urbanos. É o neocoronelismo que se instala aqui. A minha virtude como historiador é compreender a história desse lugar. Tem um caudilhismo aqui que impede, na verdade, o aparecimento do novo. Minha candidatura tem muito a dialogar sobre esses problemas, sobre essa cidade que mata tantos negros, tantos homossexuais. Minha candidatura tem muito a dialogar com a terra que a gente tem a vergonha do pioneirismo de ter aprovado a censura para professores, o tal Projeto Escola Livre, que para a minha surpresa acaba sendo abraçada por um adversário com quem eu tenho uma relação histórica, o deputado Paulão, o partido dele. É por isso que candidaturas como a minha são importantes. Eu não sou um candidato nanico na acepção pejorativo do termo. Minha legenda não é uma legenda de aluguel. Eu sou um candidato que tem algo a dizer, que vai ser importante. Quero colocar minha candidatura à disposição de setores da sociedade de Maceió que historicamente são maltratados e que por decisão própria, das nossas elites políticas, não podem ser emancipados, porque emancipar esse povo significa emancipar projetos de poder. A decisão consciente de não emancipar parte da população vai ser enfrentada por minha candidatura, eventualmente com denúncias, eventualmente com impasses mais duros. Isso tudo no discurso, mas na prática como o senhor pretende implementar políticas para as minorias que tanto fala? Tem um aspecto aqui que tem que ser enfrentado urgentemente. Isso não só para Maceió, Alagoas, mas para o Brasil. De nada adianta eleger um prefeito comprometido com demandas progressistas e com ideias emancipadoras se você me der uma Câmara de Vereadores conservadora, porque nenhum projeto avança. A gente está vendo o que está acontecendo no Brasil. Elegeu-se uma presidente com um projeto de governo que estava sintonizado com setores mais à esquerda da sociedade, mas em compensação se elegeu o Congresso mais conservador da história. É o Congresso da bala, do latifúndio, o Congresso evangélico. E deu no que deu. ? *** PERGUNTA DA COORDENAÇÃO DE CAMPANHA Quais os destaques do plano de governo do PSOL? Eu já esperava conviver com isso durante campanha: a sua ausência de experiência como gestor e a alegação da minha condição de político pelo fato de não ter exercido um mandato. Sempre falei muito que a gente ia fazer uma campanha de mobilização, que pressupõe a valorização dos conselhos e conferências municipais, criados após a redemocratização do País e a criação de uma plataforma digital popular, que consiste basicamente em uma plataforma pela qual todo cidadão tem o direito de criar projetos, que vão ser avaliados pela prefeitura e passam a ser objeto de consulta da população. Se tiver no mínimo 2%, partem para uma espécie de referendo ou plebiscito. Isso é um instrumento de democracia direta que vem sendo usado com muito sucesso em algumas sociedades e que a gente queria desenvolver aqui em Maceió. Uma plataforma para que as pessoas possam elaborar projetos. E além disso para me relacionar com coisas que já existem, o fortalecimento dos conselhos e das conferências municipais que foram esquecidos nos últimos anos. Fortalecer a gestão comunitária das escolas, chamar as famílias para que elas possam participar da gestão democrática. Ou seja, esse compromisso de dividir a gestão e usar as verbas que nós temos para propaganda para mobilizar as pessoas a participarem efetivamente desses espaços. Isso seria um avanço enorme e teria uma sociedade muito mais educativa e participativa. *** A VEZ DO ELEITOR MARCOS DA SILVA SANTOS - Auxiliar de escritório Na área de saúde, o que ele pretende fazer? Moro em Bebedouro e o posto de lá está para ser transferido. Qual o investimento, principalmente Bebedouro, porque aquele prédio é alugado. A saúde é, talvez, um dos mais graves problemas de nossa cidade. É lamentável a situação do PAM Salgadinho, referência para diversos atendimentos. Hoje está praticamente fechado. O que prejudica milhares de pessoas que não têm a possibilidade de encontrar esse atendimento em outros lugares. As pessoas mais carentes ficam à mercê dessa situação. Além disso, esse processo de privatização se expressa muito claramente com as Organizações Sociais que a Prefeitura tem adotado, nas Upas [Unidades de Pronto Atendimento], quando na verdade a solução passa por outros aspectos, pela garantia que os servidores públicos tenham uma condição de trabalho digna, possam ter uma remuneração adequada ano a ano. Um processo de estruturação dos postos de saúde, com o acompanhamento direto da população para que impeça os desvios que tanto causam transtornos. *** ZÉLIA VITAL DA SILVA - desempregada Gostaria de saber do candidato o que ele tem para melhorar o transporte do Benedito Bentes, porque a mudança não melhorou em nada. Piorou. O terminal do Benedito Bentes I parece um curral. A Zélia está sendo duplamente punida, ela perdeu o emprego e dificilmente vai encontrar outro se não consegue sequer se deslocar na cidade. Tenho visto, na propaganda do atual prefeito, ele conversando com rodoviários e falando sobre a situação paradisíaca dos terminais. Você vê que não corresponde à realidade. Os nossos terminais estão totalmente desestruturados e aquilo que se vende como uma revolução na mobilidade urbana de Maceió, se limitou a uma tinta em avenidas. Isso é muito pouco diante do que a gente pode fazer. Temos que rediscutir a situação de transporte aqui em Maceió. Uma gestão educativa que se comprometa a desestimular o uso do transporte individual, priorizando de fato o transporte público, significa abrir a caixa-preta dessas licitações, reestruturar os nossos terminais, qualificá-los de modo a transformá-los em espaços humanos.

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