Política
Lessa quer discutir ocupação com Lula
Luiza Barreiros Repórter O governador Ronaldo Lessa (PDT) quer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajude o Estado a resolver a crise criada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde o dia 2 eles estão acampados em Maceió, ocupando a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Praça Sinimbu, de onde prometem só sair após a exoneração do superintendente do órgão, Gino César Menezes. Ligarei hoje para o presidente Lula para marcar uma audiência, avisou ontem o governador, na primeira entrevista após reassumir o governo. Ele passou mais de um mês afastado do cargo para tratamento de saúde. Ao ser questionado sobre as críticas feitas ao governo durante sua ausência, de que estaria faltando autoridade na condução do impasse com os sem-terra, Lessa elogiou a serenidade do vice-governador Luis Abílio (PSB), mas admitiu que, se estivesse no Estado, poderia ter tomado uma posição um pouco mais forte. Não seria de maneira nenhuma como seria feito pelo ex-governador Manoel Gomes de Barros. Entre um e o outro, o bom senso e a serenidade do Luis Abílio são muito melhores. Não há comparação, afirmou. Mano tem sido um dos críticos mais incisivos do governo durante a crise com o MST. Lessa disse não ter dúvida de que o que Abílio fez durante sua ausência é o recomendável. A violência e a arbitrariedade não conduzem a nada. Tem que ser tolerante, sim, disse. O governador disse, ainda, que todos podem ficar certos de que o governo não irá perder a autoridade. Quando foi preciso endurecer, já endureci. Se for preciso, eu endureço em nome da maioria, do bem-estar comum. Mas não vou usar a força para agradar meia dúzia de pessoas que são intolerantes e gostam de ver sangue e de patrocinar a violência. reajustes Ainda durante a coletiva, o governador avisou que não pretende modificar a posição do governo em relação ao percentual de reajuste salarial a ser dado aos policiais militares. O governo anunciou reajuste de 10%, mas os militares, que reivindicam 16%, prometem para a próxima sexta-feira, dia 1º, fazer uma passeata de protesto e um panelaço em frente ao Palácio dos Martírios, sem descartar a possibilidade de aquartelamento das tropas. Antes de viajar, tive uma reunião com o Abílio lá em casa, deliberando aumento de professores e policiais militares e civis. A gente estourou mais de R$ 20 milhões do que era previsto, mas achava que eu não poderia dar menos que 10% de aumento. Era uma necessidade social, afirmou. Só fiz isso porque acredito que a economia vai reagir. Lessa disse que considerava uma pena acontecer a manifestação, e adiantou que não há a menor possibilidade de mudar isso [o percentual ]. Estamos dando aumento acima da inflação, argumentou. O governador também descartou a possibilidade de haver uma suplementação de R$ 400 mil no Orçamento do Judiciário, para garantir o reajuste de 10% aprovado na semana passada para os servidores e funcionários. THEREZA COLLOR Sobre a posse da empresária Thereza Collor como secretária de Estado Lessa garantiu que não representou acordo político com o pai dela, o deputado João Lyra (PTB). Ela veio por seus méritos, disse. Lessa disse crer que, estando engajada no governo, Thereza poderá melhorar a opinião do pai sobre seu governo. Pode ser que ele diminua as críticas ou possa fazer uma reflexão. Se isso puder contribuir para diminuir a guerra, melhor. ### Corintho pode não ir para Algás Durante a coletiva de ontem, o governador Ronaldo Lessa admitiu existir um impasse em torno da indicação do ex-secretário do Trabalho e dirigente pedetista Corintho Campelo para a presidência da Algás. A indicação foi feita no final de fevereiro pelo próprio Lessa, mas depende de aprovação do Conselho Administrativo da empresa, que pediu adiamento da reunião de acionistas por haver possibilidade de veto ao nome. Lessa disse que foi informado do problema no domingo à noite pelo vice-governador Luis Abílio. Ele disse que tinha me poupado até agora, mas queria avisar que estava havendo um impasse e que até quarta-feira eu teria que tomar uma decisão, contou. Além dos representantes do Estado, o Conselho da Algás tem representantes da Petrobras e da Gaspart, sócias do governo. Vou conversar com os conselheiros para saber do impasse e saber se eu devo manter o nome ou se é melhor a gente mudar, disse. Segundo Lessa, é preciso ver o grau do problema. A indicação política foi rejeitada pelo setor produtivo. Se for um problema fácil de resolver, eu vou manter. Se não, a gente muda, admitiu. PDT Em relação ao PDT nacional, Lessa afirmou que o cargo de vice-presidente para o Nordeste, para o qual foi eleito, terá a função de fazer articulação política regional. Sua primeira missão, segundo ele, será ir à Paraíba para conseguir a filiação do governador Cássio Cunha Lima (PSDB). Lessa disse também que pretende defender a reaproximação do PDT com o governo Lula. É lógico que depende dos movimentos que o Planalto vai fazer na política econômica, ressaltou. Não quero ir para a oposição nem romper com o governo Lula. Acho que a gente tem de puxar o governo Lula mais para a esquerda, disse. Para ele, o PDT poderia fechar uma parceria e indicar o vice do Lula em 2006. Acho que o PMDB está um pouco à direita para dar o vice do Lula, disse, referindo-se ao partido do senador Renan Calheiros. Apesar disso, o governador negou que esteja pleiteando para si a indicação de vice, como chegou a ser especulado pela imprensa. LB ### Cheguei a pensar que era um câncer Ao falar sobre o abcesso no septo nasal que o levou a fazer duas cirurgias - a última delas no Hospital Albert Eisntein, em São Paulo - e a ficar mais de 30 dias fora do governo, o governador deixou claro a gravidade do problema. Nunca passei na vida o que passei agora, comentou, durante a coletiva de ontem pela manhã no Palácio dos Martírios. Chegou a um ponto que chegou-se a pensar que poderia ser um câncer ou até levar à morte, admitiu. Segundo o governador, apesar de inicialmente o problema em seu nariz ter sido simples (um pêlo teria encravado), houve complicação por conta da vida desregrada que ele admitiu levar, o que atrapalharia o trabalho dos médicos que o atendem. Por isso, segundo ele, foi acertada a decisão de sair de Alagoas e fazer o tratamento em São Paulo, distante dos problemas do dia-a-dia. Dessa vez a doença foi braba, complementou. O governador fez questão de elogiar os médicos que o atenderam em Alagoas e em São Paulo e afirmou que não seria justo culpar ninguém pelo que aconteceu. Saí daqui para ter sossego, afirmou. O afastamento teria sido tanto, que o governador disse ter ficado sabendo da crise dos sem-terra pela mãe, Noélia Lessa. Ela reclamou que a Fátima [secretária Fátima Borges] a impedia de falar comigo, enquanto os sem-terra estavam aprontando aqui. Apático Apesar de, após a alta, ter passado uma semana repousando em Campos do Jordão (SP) e depois no Rio de Janeiro, o governador ainda estava apático na manhã de ontem. Sua fala estava lenta e ele falou muito menos do que costuma em entrevistas coletivas. Pensava muito antes de dar as respostas. Ele chegou ao Estado na sexta-feira, mas disse só ter aparecido ontem, por ter ficado descansando durante o final de semana. A agenda do governador estava em aberto ontem pela manhã e no período da tarde Lessa começaria a chamar os secretários para reuniões, mas não havia previsão de reunião geral com os secretários. LB