Política
Manoel: o gar�om das autoridades que j� serviu at� ao papa
ARNALDO FERREIRA ?Seu? Manoel José dos Santos - ou ?Manoel Garçom?, há 35 anos ouve os segredos e conhece de perto as manias de ex-presidentes da República, ex-governadores de Alagoas, senadores, deputados federais e estaduais. Pois é, o garçom que serviu até ao papa João Paulo II, ao completar 69 anos, no último dia cinco de maio, revelou qual é o segredo de um bom profissional que serve à classe política: ?é saber ouvir e ser paciente. Nunca falar nada sobre o que ouviu nos bastidores do Palácio ou da Assembléia Legislativa, estar sempre de bem como a vida e nunca fazer cara feia na hora de servir. Ser discreto e amável, são deveres fundamentais do garçom?. Sempre bem-humorado e com o sorriso fácil, hoje ?seu? Manoel trabalha na Assembléia Legislativa, onde habitualmente serve café e água gelada aos deputados, diretores e jornalistas que cobrem o poder. ?Percebo que todos gostam muito de mim. Conheço as manias e o jeito de cada deputado, de certos servidores e respeito todos. Mas tudo que sei e que ouço não conto nem para minha família?, garantiu. Filho de uma família de baixa renda, começou a trabalhar em 1953, como ?banqueiro? da fábrica de tecidos Alexandria, que funcionava no bairro da Cambona, onde hoje está instalada a Secretaria de Educação do Município de Maceió. ?Banqueiro era um setor intermediário da tecelagem, que ficava responsável pela preparação dos fios para o tear?, explicou. Depois, com o fechamento da fábrica foi trabalhar no Banco de Minas Gerais. O primeiro emprego de garçom aconteceu por necessidade de trabalhar e foi no Clube Fênix Alagoana. Lá, durante dois anos, aprendeu os segredos da profissão e saiu para trabalhar em um buffet particular que prestava serviços ao Palácio do Governo. Assim, em 1980, conheceu o então governador Guilherme Palmeira (hoje ministro do Tribunal de Contas da União ? TCU), que gostou do seu jeito simples e discreto de trabalhar e o convidou para ficar lotado no Palácio Floriano Peixoto. Presidentes ?A partir de 1980 conheci alguns dos presidente da República, porque servia no Palácio e era sempre chamado para atendê-los?, afirmou ?seu? Manoel, ao contar com orgulho que serviu aos presidentes general Garastazu Médici, o general João Batista Figueiredo, o então candidato a presidente da República Tancredo Neves, o presidente José Sarney. ?O último presidente ao qual servi foi Fernando Collor de Mello, que gostava muito do meu trabalho de garçom?, lembrou, sorridente. Dos presidentes também ganhou o respeito. Porém, salientou que só não gostou de trabalhar para os presidentes do final da ditadura militar, os generais Médici e Figueiredo. ?Os presidentes, em si, eram boa gente. Mas a assessoria militar deles era neurótica, vivia sempre com medo de atentados. A coisa era assustadora. Naquela época eu ficava responsável pela arrumação do Palácio, quando a comitiva do presidente chegava desarrumava tudo, tirava as flores do lugar e descobria a mesa. Tinha sempre confusão entre o cerimonial do Palácio e os seguranças do presidente?, afirmou ?seu? Manoel, que não revelou nenhum detalhe sobre as manias dos presidentes, apesar da insistência da reportagem. Governadores Entre os governadores, serviu Guilherme Palmeira, a quem demonstrou sua gratidão. ?Foi graças ao governador Guilherme Palmeira que fiquei lotado no Palácio?. Depois o governador Geraldo Melo, em seguida Divaldo Suruagy e o governo de JoséTavares, que era vice de Suruagy. Em seguida, trabalhou novamente com Divaldo Suruagy e o governo- tampão de Theobaldo Barbosa, vice de Suruagy. Serviu no Palácio ao governador Fernando Collor de Mello e ao governo de Moacir Andrade, que era vice- de Collor. Por fim, participou dos quatro anos do governo Geraldo Bulhões. ?As primeiras-damas gostavam muito do meu jeito de trabalhar, assim, ia ficando de um governo para outro. Como disse no início da nossa conversa, o segredo da atividade profissional de garçom é saber ouvir e nunca estar de mau humor. Acho que é por isso que trabalhei durante 35 anos como garçom e mais de 20 anos servindo aos presidentes e aos governadores de Alagoas. Não tenho queixa e nada para falar de nenhuma autoridade?, ressaltou este garçom, estimado pela maioria dos políticos alagoanos e que não revelou as manias ou esquisitices de governadores e suas primeiras-damas. Papa ?Seu? Manoel afirmou que o momento mais importante de sua auto-afirmação na atividade profissional de garçom aconteceu em outubro de 1991, quando foi designado pelo então governador Geraldo Bulhões e pela então primeira- dama do Estado, Denilma Bulhões, para servir ao papa João Paulo II. ?Era garçom do Palácio, mas não dava muito valor à profissão. Mas, a partir do momento em que estive servindo a uma pessoa como o papa João Paulo II percebi quanto a minha profissão é importante e passei a dar o valor que ela merece?, admitiu. O dia 19 de outubro de 1991 teve uma manhã e uma tarde quente de sábado em Maceió. Caravanas de vários estados e de todos os municípios alagoanos se aglomeravam em diversos pontos das avenidas que contornam a Lagoa Mundaú, o Estádio Rei Pelé e as proximidades da Igreja Virgem dos Pobres e do Papódromo, no trajeto por onde passou o papa João Paulo II, recordou ?seu? Manoel, que estava no seu posto, no Papódromo, junto com outro colega garçom, Manoel Barros da Rocha, que também trabalha no Palácio Floriano Peixoto. ?Milhares de pessoas, autoridades disputavam a oportunidade de ficar apenas um minuto perto do santo padre e eu fiquei perto dele durante boa parte do tempo em que esteve no Papódromo, pronto para servi-lo?, lembrou, emocionado, ?seu? Manoel. ?Naquele momento só via os fotógrafos e não me lembrei de pedir para tirarem minha foto com o papa, é a única coisa de que me arrependo daquela data?. ?Seu? Manoel ficou impressionado com a força do papa. ?Ofereci ao papa João Paulo II água de coco, água mineral, sucos. Mas ele não queria nada. Agradecia tudo e não consumia nada. Sempre sorria para mim e acenava com as mãos em sinal de agradecimento?. O que mais lhe chamou a atenção foi a sensibilidade do papa. ?Antes de João Paulo II entrar no Papamóvel para ir embora, ele me chamou num canto e meu deu uma moeda do Vaticano que tem seu rosto, ando sempre com esta moeda na minha carteira. Depois que ganhei esta moeda, nunca mais passei dificuldades profissionais. Na verdade, numa mais me faltou nada?, disse Manoel mostrando a moeda de prata, que em uma das faces tem o brasão do Vaticano e na outra a imagem de João Paulo II. ?Antes era um católico sem muita convicção. Mas, hoje, sinto que sou uma pessoa abençoada pelo papa João Paulo II e por Nossa Senhora, isto é o que eu sinto e basta?. Com a profissão, ?seu? Manoel gaba-se de ter conseguido ajudar a filha a se formar no curso de Letras, no Cesmac, e os dois filhos a terminar o Ensino Médio. ?Com a profissão de garçom criei meus três filhos e, hoje, quando um deles fica desempregado dou uma mãozinha. Tenho minha casa, meu carrinho. Portanto, tudo que sou e tenho devo a minha profissão?, disse, acrescentando, ainda, que ser garçom é uma boa profissão. Mas a gente tem de saber exercê-la. Um profissional não pode gostar de beber, de fumar, deve se manter limpo, ser sempre educado, ter o sorriso fácil e nunca dizer não ao cliente, mesmo que não possa atendê-lo?, concluiu ?seu? Manoel Garçom.