Política
Incra volta a funcionar precariamente
Odilon Rios A Polícia Federal fez uma inspeção ontem na sede da superintendência do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), na praça Sinimbú, um dia depois da desocupação do prédio pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Os primeiros dados levantados foram o arrombamento de três portas e algumas salas sujas, com documentos espalhados pelo chão. Constatamos alguns pequenos danos no prédio, mas será difícil fazer a associação disso a alguma pessoa, disse o perito Celso Machado. Segundo ele, o resultado sai em 10 dias. Para a análise do prédio, a PF disponibilizou dois peritos criminais, dois agentes de polícia e dois papilocopistas (que fazem a análise das impressões digitais). Não se sabe ainda se documentos sumiram do prédio. Não tiveram maiores danos no prédio, mas iremos fazer uma análise em cada setor para saber se foram perdidos documentos, afirmou o chefe de gabinete Duda Calado. retorno Ainda em clima de indecisão, funcionários do Incra alagoano retornaram as atividades na manhã de ontem com uma reunião no 11º andar do edifício Walmap, que abriga escritórios do Incra. Na pauta, reclamação e medo. A volta ao trabalho no campo, em assentamentos do interior do Estado, e as condições de trabalho foram os assuntos mais abordados. Queremos retirar os entraves do trabalho, analisou a presidenta da Associação dos Servidores do Incra (Assincra), Donília Pinheiro. Os entraves a que se referia eram as condições, segundo ela precárias, de parte das 18 viaturas do instituto. Elas estão sucateadas, resumiu. De acordo com a conselheira da Assincra, Roseane Simões, a reunião também serviu para avaliar as condições físicas e psicológias dos funcionários: Em nenhum momento fomos ameaçados pelos movimentos, até porque a luta deles é justa. Mas, queremos voltar com melhores condições de trabalho, até porque todo esse processo foi desgastante, completou, lembrando que os funcionários consideraram o impasse entre MST e Incra o pior em toda a história do instituto. Força-tarefa No final da reunião, as reclamações foram entregues ao superintendente do Incra, Gino César Menezes, que previu a necessidade de uma força-tarefa para colocar casa em ordem. Gino César viaja na segunda-feira para conversar com o presidente nacional do Incra, Rolf Hackbart. A discussão será sobre o orçamento e mais investimentos para Alagoas, afirmou. Ele negou que a reunião vá tratar sobre a sua possível exoneração ou transferência. Isso não existe, garantiu. Na terça-feira, está prevista a vinda de dois técnicos do Incra nacional para Alagoas. Vou pedir mais, pelo menos uns seis técnicos, que servirão para contribuir com o processo de reforma agrária no Estado. Houve um desgaste nestes 33 dias em que o MST esteve aqui na capital, mas estes técnicos não irão conversar apenas com o MST, justificou. Os dois técnicos, segundo o MST, tem a proposta de dialogar com o movimento, funcionando como interlocutores entre os trabalhadores rurais e a direção do Incra alagoano. De acordo com o superintendente do Incra, foram garantidos três veículos novos para o instituto e outros irão à leilão nos próximos dias. Reunião com parceiros No final da tarde de ontem, as atividades na sede do Incra foram retomadas com uma reunião com membros do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL). Esse movimento defende a permanência de Gino César no Incra. Tratamos de quatro áreas que serão desapropriadas e sobre assistência técnica para assentamentos, lembrou o coordenador estadual do MTL, Rafael Simão, citando as áreas Buenos Aires (Maragogi), Bom União (Porto Calvo), Belo Horizonte (Novo Lino) e Agrisa (Joaquim Gomes). Não queremos que o Gino saia do instituto porque isso vai atrasar ainda mais a reforma agrária em Alagoas, acrescentou Simão. ### Abílio: convivência pacífica demais Marcos Rodrigues A estada dos trabalhadores ligados ao Movimento Sem Terra (MST) em Maceió voltou a ser lembrada, ontem, pelo vice-governador Luis Abílio de Sousa (PSB). Dos 40 dias em que ficou no exercício do cargo, ele conviveu pacificamente com o grupo por 33 dias. Para Abílio, esse foi o seu maior trunfo no exercício do governo. Não fomos irresponsáveis em ordenar a retirada forçada porque queríamos evitar derramamento de sangue. Com quinze dias as pessoas vão esquecer da presença deles. Mas se tivesse ocorrido uma morte ela seria lembrada por 15 anos, justificou Luis Abílio. O vice-governador reconheceu que o governador Ronaldo Lessa (PDT) é uma liderança política respeitada pelo movimento. Mas não depositou todo o crédito pela desocupação do MST apenas a Lessa. Para ele, a vinda a Maceió do presidente do Incra nacional, Rolf Hasckbart, foi decisiva para o fim do impasse entre o movimento e o Incra alagoano. Um outro detalhe lembrado por Abílio foi a reunião do Conselho Estadual de Justiça e Segurança Pública, que defendeu a ausência da força policial contra as famílias dos agricultores. Ainda assim coube a Lessa colher os dividendos políticos. Isso porque enquanto o governador se reunia na última quinta-feira com uma comissão de sem-terras, os demais integrantes já deixavam a Praça Sinimbu e a sede do Incra, ocupadas durante 33 dias. Dificuldades Abílio reconheceu que seu período à frente do governo foi tumultuado, mas acrescentou não existir momento bom para assumir o cargo. Ainda assim como o governo tem objetivos claros fica mais fácil administrar, observou. As revelações do vice governador foram feitas durante entrevista ao programa Ministério do Povo, apresentado pelo radialista Waldemir Rodrigues, na Rádio Gazeta. Durante a conversa Abílio também falou do desejo de continuar atuando dentro do PSB. Ele aproveitou para mandar um recado para os militantes que estão no partido apenas para se manterem nos cargos. Segundo Abílio o envolvimento com o partido deve ocorrer pela certeza em sua atuação. Gostaria que quem decidir em ficar no partido tenha esse compromisso, alertou.