Política
Satuba e Rio Largo: romance, traição e ingerência política
Odilon Rios As prefeitas de Rio Largo e Satuba, apesar de terem assumido o cargo há três meses, já estão com contas a acertar na Justiça, em um roteiro que envolve assassinatos, um incêndio criminoso, traição e a interferência política da Assembléia Legislativa de Alagoas (ALE) na vida municipal. Em Satuba, a 21 quilômetros de Maceió, Cícera Pereira da Silva, a Cícera do Bar (PL), está hoje à espera de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela foi julgada ano passado analfabeta funcional pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE/AL). Recorreu da decisão e aguarda, no cargo, a posição do TSE. O tribunal vai dar esse mandato a ela, disse o advogado da prefeita, José Costa. Para ele, a Constituição não fala do analfabeto funcional e relativiza: Se eu fosse construir prédios, eu seria um analfabeto funcional, porque não entendo nada disso. O advogado do ex-prefeito do município, Zezito Costa, Marcos Porto, pensa diferente. Acredito que até junho a situação estará resolvida. Segundo o advogado, a decisão já foi tomada em Alagoas e isso não deixaria mais espaço para a defesa de Cícera do Bar. Mesmo à frente da Prefeitura, segundo o presidente da Câmara de Vereadores do município, que administra a cidade não é Cícera do Bar e sim a ex-mulher do prefeito Adalberon de Moraes, que hoje está preso acusado em dois assassinatos: o do professor Paulo Bandeira, queimado vivo em seu próprio carro em junho de 2003, e do assessor parlamentar, Jeams Alves, morto em dezembro de 2002. A dona Cícera não tem capacidade de administrar. A Fátima [Pedrosa] vive lá, afirma o presidente da Câmara, Adalberon Clemente (PSDB). Fátima Pedrosa foi candidata a prefeita ano passado, mas teve o registro cassado pelo TRE/AL porque teria tido um relacionamento com o ex-prefeito, Adalberon, o que configura um terceiro mandato, proibido por lei. Para evitar a derrota do grupo político, Pedrosa lançou o nome de Cícera do Bar, até então candidata a vereadora, na véspera da eleição. Só que atualmente a Câmara de Vereadores de Satuba está dividida em dois blocos: quatro vereadores apóiam Cícera. A oposição, porém, elegeu o presidente da Câmara e tem hoje a maioria: cinco parlamentares. Houve mudanças na cidade. Dizem que ela está mais bonita. Só que a prefeita se excede. Ela contratou mais de 50% de serviços prestados para a Prefeitura, acusa Clemente. Na cidade que tem festa e animação o dia inteiro, dois novos funcionários são contratados por dia, contabiliza Clemente. Política e fumo A pujança de empregos públicos contrasta com as bocas de fumo que se espalham em Satuba. Duas são bastante frequentadas e conhecidas na cidade: a da praça Central e a da Estação, ambas próximas da Prefeitura. Porém, além da ex-mulher do ex-prefeito Adalberon, outro personagem sussurra nas alcovas políticas de Satuba. É Ciro da Vera Cruz, secretário de Administração, ex-chefe de gabinete do deputado estadual Antônio Albuquerque (PFL), que ajudou a eleger Cícera no município. A cidade hoje tem três prefeitos. Uma é a doutora Fátima, outra a dona Cícera e o terceiro é o Ciro, diz o ex-vice-prefeito, Zezito Costa. ### Panela que muitos mexem, estraga Em Satuba, a Câmara tem nove vereadores com regalias invejáveis. As sessões ocorrem um único dia na semana e ele recebem pouco mais de R$ 2 mil. Mas todos são reféns de um mesmo problema: a violência. Até o carro da prefeita foi levado por assaltantes. Mas isso não muda o tom da administração municipal. Com seis secretários, Cícera do Bar tem uma relação, pelo menos indireta, com Adalberon de Moraes. Segundo o presidente da Câmara, Adalberon Clemente, dizem que a Fátima visita com freqüência Adalberon no presídio, completou. Eles são amigos, atestou. A relação do ex-prefeito com a Câmara era considerada tão poderosa que o próprio Adalberon acabou o mandato ano passado em Satuba recebendo em dia seu salário, sem prestar um dia de trabalho na Prefeitura. Em todo esse caldeirão político, o presidente da Câmara diz que prefere não colocar a mão no fogo pela administração da Prefeitura ou na folha de pagamento do Legislativo. Não coloco a mão no fogo pelo balanço que eles me passam. Panela que muitos mexem ou fica boa ou estragada, diz acrescentando que pediu, por diversas vezes, os balanços à Prefeitura. Não tive resposta, destacou. O secretário de Administração, Ciro da Vera Cruz, por sua vez, disse à Gazeta que o presidente da Câmara pode pedir os balanços à Prefeitura quando quisesse. Eu estranho as declarações dele porque todos os funcionários que entraram pela Prefeitura tiveram a aprovação da Câmara, afirmou. Sobre a idéia de que seria o Sombra da administração de Satuba, ele negou: Posso ser exonerado a qualquer momento, avaliou. A prefeita montou todo o secretariado. Ela manda, ordena e faz, garantiu, revelando que a dona Cícera conversa com a dona Fátima, mas nada que passasse por indicações no secretariado ou ações da Prefeitura do município. Questionado se Cícera do Bar tinha condições de administrar a cidade, já que é considerada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE/AL) analfabeta funcional, Vera Cruz foi taxativo. A prefeita não resolve todas as situações. Ela costuma pedir que os secretários façam, contou. Ele ainda alfinetou o ex-prefeito, Zezito Costa. As contas do Zezito serão encaminhadas ao Ministério Público, disse, sem entrar em detalhes. A Gazeta tentou mas não conseguiu conversar com a prefeita Cícera do Bar. A justificativa de sua assessoria é a de que ela estaria muito ocupada com o pagamento salarial de funcionários município. OR ### Paiva tenta a sorte em Rio Largo Em Rio Largo, a 27 quilômetros de Maceió, a prefeita Vânia Paiva (PMDB), vice da ex-prefeita, Maria Eliza, ganhou as eleições com o apoio do deputado federal Olavo Calheiros (PMDB). Apesar de o lançamento da candidatura ter sido encarado como traição por parte dos grupos políticos na cidade, a situação de Vânia Paiva é bem mais confortável que a de Cícera do Bar em Satuba. Com dez vereadores, Rio Largo não possui oposição. A prefeita faz um trabalho que ninguém discorda, argumenta o vice-presidente da Câmara, Cícero Inácio. Os vereadores em Rio Largo não têm mesmo do que discordar. As sessões no Legislativo ocorrem uma única vez por semana, à noite, e cada vereador ganha R$ 2.400. Mas nem bem sentou na cadeira do Executivo, a prefeita tem dois pepinos a descascar: um incêndio que aconteceu ano passado, no setor de contabilidade da Prefeitura, considerado criminoso, e supostas irregularidades que estão sendo apuradas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-AL), quando Paiva assumiu o cargo, depois de uma longa disputa judicial com a ex-prefeita. Nas investigações do TCE-AL, estão cheques sem fundo, empresas contratadas sem licitação e outras iguarias. O cardápio, porém, não agradou o conselheiro do TCE-AL, Otávio Lessa, que é relator do processo contra Vânia Paiva. Ele determinou a entrega da defesa em 15 dias, mas os advogados dela pediram mais tempo. Eles me pediram 120 dias e eu dei apenas 90. É mais do que suficiente, disse o conselheiro à Gazeta. Se a polícia investiga o autor material ou intelectual do incêndio que aconteceu ano passado, ele não teria menos prestígio político que Vânia Paiva, descendente de rica família da Zona da Mata. Morando em imponente casarão às margens do rio Mundaú, ela tenta recuperar o status da família que um dia governou a cidade e teve descendentes na Assembléia Legislativa. Hoje, porém, a realidade decadente contrasta com os títulos pregados nas paredes do casarão e com os retratos de Arnaldo Paiva, pai da prefeita e ex-deputado estadual, ao lado da família. Os bens dos Paiva estão deteriorados, inclusive uma antiga casa de saúde vizinha ao casarão da família. O marido de Vânia Paiva, Ricardo Scavuzzi e Suzana Paiva, irmã de Vânia, tocam os negócios tanto familiares quanto na Prefeitura. Scavuzzi é bem solicitado, aprova e desaprova aqueles que trabalham com a prefeita e as grandes decisões passam por suas mãos; Suzana é a modelo de Vânia, espécie de sósia que desfila nas festas da alta sociedade rio larguense, enquanto os bolsões de miséria, ironicamente, crescem nos entornos de uma cidade cujo nome é de um engenho de açúcar que existia no começo do século XIX e um dia trouxe prosperidade à região. OR