Política
Muita promessa, poucas obras de peso
Luiza Barreiros Repórter O prefeito Cícero Almeida (sem partido) completa hoje 100 dias de seu governo em Maceió. Apesar de ser pouco ? a data equivale a apenas 6,8% de todo o mandato ou aos seis primeiros minutos de um jogo de futebol ? o período costuma ser considerado um marco para os governantes, já que eles ainda estão em lua-de-mel com os eleitores, mas as cobranças começam a pesar. Serve principalmente para mostrar o estilo da administração e a disposição para o trabalho do prefeito e de sua equipe. Também é nesse período que a população espera ações de impacto, relacionadas às promessas feitas durante a campanha eleitoral. No caso do prefeito Cícero Almeida, o primeiro trimestre de administração foi marcado menos por ações e obras de impacto - as ruas estão mais limpinhas, mas os grandes problemas ainda estão sem projetos para solução - e mais por fatos relacionados à composição de sua equipe de trabalho. Em 100 dias, Almeida mudou três vezes de secretário de Comunicação e exonerou outros dois integrantes do primeiro escalão. A falta de ações é justificada pelo que o prefeito chama de arrumação da casa: várias vezes, ele disse ter encontrado o caos deixado pela gestão de sua antecessora, a prefeita Kátia Born (PSB) e prometeu revelar escândalos que até agora não são de conhecimento público. O próprio estilo do prefeito variou muito nesse período de tempo: começou no espetáculo, passou um longo período adotando a lei do silêncio e, mais recentemente, voltou a aparecer, mas de um modo diferente, parecendo estar orientado a pensar mais antes de falar, principalmente no que diz respeito a denúncias sem provas e fixação de prazos. ### Sem reforma administrativa, prefeito larga estilo Fidel Na fase espetáculo, logo no primeiro dia útil de trabalho após a posse, Cícero Almeida manteve o clima de campanha e garantiu as primeiras páginas de todos os jornais com um factóide: convocou a imprensa, subiu numa escada - sob os olhares da vice Lourdinha Lyra (PTB) e do pai dela, o deputado federal João Lyra (PTB) - e desativou os chamados pardais que eram utilizados pela Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) para multar motoristas incautos. A medida não agradou a todos, principalmente os pedestres, que a consideraram temerária por aumentar os riscos de acidentes e atropelamentos. A SMTT jura que isso não aconteceu e, três meses depois, mantém cruzamentos vigiados por guardas municipais. Cícero Almeida costuma dizer que acabou com a máfia da indústria de arrecadação com multas, mas até agora, 100 dias depois, ainda não explicou a que máfia se referiu nem quais eram os supostos beneficiários dos milhões de reais que ele disse que teriam sido desviados. Pelo menos até agora. Na primeira semana ele também visitou - e cantou forró - no Mercado da Produção e percorreu a periferia prometendo que não iria ficar trancado no gabinete. Era o estilo Fidel anunciado pelo então secretário de Comunicação, o publicitário Luiz Dantas. Ele assumiu o cargo depois que o ex-secretário Nelson Ferreira pediu para sair da equipe. Mas não deu muito certo: no dia 14 de março foi substituído pelo atual secretário, jornalista Marcelo Firmino, o terceiro a ocupar a pasta em 100 dias. A fase mais reclusa começou após o ensaio de crise com a Câmara de Vereadores pelo corte das 152 emendas ao Orçamento e coincidiu com os constantes adiamentos da realização da reforma administrativa prometida na campanha, que deveria promover o corte de 60% dos cargos comissionados e reduzir pela metade do número de secretarias municipais da administração Kátia Born. A principal dificuldade para fechar a reforma teria sido o chute dado pela equipe de Almeida em relação aos números: segundo o novo prefeito, seriam 2.600 cargos, mas a ex-prefeita Kátia Born, ao deixar o cargo exonerou exatos 1.097 comissionados, o que após o corte deixaria pouco mais de 400 cargos a serem preenchidos pela equipe de Almeida. Os cargos de primeiro escalão existentes na estrutura de Kátia Born - 34 - também continuam existindo e pelo menos 30 deles estão ocupados por integrantes da equipe de Almeida. O governo argumentou que precisava conhecer a estrutura antes de fazer a redução. Mas a dificuldade real teria sido mesmo arranjar lugar para colocar os secretários e cumprir os compromissos políticos e partidários fechados com os aliados de campanha, beneficiados pelo loteamento da máquina. Cem dias depois, a reforma ainda não saiu. Custou a cabeça do idealizador do texto, o cientista político Aellison Batista, que teria sido exonerado por falar demais sobre o assunto. Depois de vários prazos estabelecidos e não cumpridos, a reforma está novamente prometida para chegar à Câmara na próxima terça-feira, sob a batuta do secretário de Planejamento, Elionaldo Magalhães, e com a aprovação do secretário-geral de governo, Max Trindade. |LB ### Max Trindade: o José Dirceu de Almeida Max Trindade tem dado a palavra final em tudo que é feito no governo. Por sua grande influência junto ao prefeito Cícero Almeida, tem sido comparado ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o todo-poderoso do governo Lula. Trindade foi assessor de Régis Cavalcante no Congresso Nacional e depois atuou com assessor parlamentar de Almeida na Câmara e na Assembléia Legislativa. Durante a campanha era o responsável pela agenda política do prefeito e depois da eleição coordenou a equipe de transição de governo. Durante a escolha da equipe de governo era a Max Trindade que os futuros secretários se reportavam. Seria de responsabilidade dele o fato de o prefeito estar fazendo uma espécie de virada de jogo para não perder espaço de poder para a vice Lourdinha Lyra e para o pai dela, deputado João Lyra. Trindade colocou o sogro, Fernando Dacal, na Secretaria de Finanças e tem afinidade com secretários como Régis Cavalcante, da Educação, e Marcelo Firmino, da Comunicação. Além disso, o grupo mais ligado ao prefeito teria conquistado outro importante espaço na semana passada, após a exoneração de Leonardo Loureiro da SMTT. Ex-diretor financeiro das empresas do grupo João Lyra, Loureiro estava no cargo interinamente porque uma lei municipal não permite que pessoas que, como ele, não têm formação em engenharia ou arquitetura ocupem a função de superintendente. O prefeito pretendia retirar a exigência da lei - mas não o fez em 100 dias - e o Ministério Público recomendou a mudança, sob pena de haver denúncia por crime de responsabilidade. |LB