Política
MPF queria pegar peixes mais graúdos
LUIZA BARREIROS Repórter A Polícia Federal afirma que as investigações da Operação Gabiru consumiram 10 meses de trabalho. Mas os fatos que levaram a Controladoria Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal em Alagoas (MPF-AL) a desconfiar da existência de um esquema de licitações viciadas na compra da merenda escolar chegaram a esses órgãos em 2003. Naquele ano, audiências públicas foram realizadas em vários municípios de Alagoas, entre eles Rio Largo, cidade natal de Rafael Torres, e São Luiz do Quitunde, no Litoral Norte do Estado, região de cinco dos onze prefeitos e ex-prefeitos presos pela Operação Gabiru. Nas audiências - que tiveram apoio do Ministério Público Estadual e de técnicos dos ministérios da Educação e Saúde -, a população recebia instruções sobre a forma de repasse de verbas federais e era convidada a fazer denúncias sobre o seu emprego pelo município, principalmente no que diz respeito à qualidade do alimento servido na merenda escolar. As reclamações iam desde a péssima qualidade da merenda (sem os componentes nutricionais recomendados) até a total inexistência de lanche nas escolas públicas municipais. Fiscalizações da CGU - rotineiras e por meio do sistema de sorteio - apontaram irregularidades, entre elas que o nome das empresas de Rafael Torres ou ligadas a ele, sempre apareciam como vencedoras de licitações para compra de merenda escolar. Em 2004 o Ministério Público Federal em Alagoas deu início às apurações e com autorização do juiz da 2ª Vara Federal em Alagoas a Polícia Federal no Estado promoveu as escutas telefônicas. Como houve interceptação telefônica de alguns prefeitos - que têm prerrogativa de foro -, as investigações passaram para a jurisdição da Procuradoria Regional Federal, em Recife, com acompanhamento do procurador da República Francisco Rodrigues dos Santos Sobrinho. Foi dele o pedido para que houvesse a decretação da prisão temporária dos investigados e a expedição de mandados de busca e apreensão em prefeituras, residências e empresas. EXTENSÃO A decisão de certa forma contrariou o Ministério Público Federal em Alagoas, que anteriormente havia opinado pela ampliação das investigações - com renovações dos prazos de escuta telefônica e monitoramento dos suspeitos -, por acreditar que dessa forma poderia ampliar a extensão dos envolvidos na rede de corrupção. Na opinião do Ministério Público, efetuar prisões e operações de busca naquele primeiro momento tornaria a operação pública e poderia prejudicar a apuração do envolvimento de peixes mais graúdos ligados ao esquema. A idéia era dar mais tempo para que as investigações descobrissem todos os desdobramentos do caso, até onde fosse possível. O desembargador federal do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, Marcelo Navarro, negou o pedido de decretação das prisões da primeira vez. Na última sexta-feira, dia 13, no entanto ao analisar um novo pedido feito pela Polícia Federal, alegando que as prisões e buscas eram essenciais para continuidade das investigações, ele acabou decretando as prisões de 31 pessoas e autorizando buscas e apreensões de documentos em 61 locais. Em três dias, a Polícia Federal deslocou para Alagoas 300 homens - entre agentes e delegados - que simultaneamente deram cumprimento às 92 ordens judiciais, trabalho que foi concluído na noite de quinta-feira, com a apresentação à polícia do ex-prefeito de Japaratinga, José Aderson da Rocha Rodrigues (PTdoB).