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Acho que o Brasil precisa de uma grande reforma

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ODILON RIOS Repórter A situação de tensão social e política vivida pela Bolívia nos últimos dias causou preocupação em todo o mundo. Para o deputado nacional boliviano, Andres Guzman, do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), a crise consolidou a democracia no país. Guzman estava em Alagoas quando o novo presidente da Bolívia, Eduardo Rodriguez, tomou posse no lugar do ex-presidente Carlos Mesa, que renunciou após 20 meses à frente do país. Guzman veio a Alagoas na última semana conversar com o governador Ronaldo Lessa (PDT) sobre projetos de integração na área de energia e cana-de-açúcar. Na oportunidade, o deputado boliviano concedeu a seguinte entrevista à Gazeta. *** Gazeta - Essa é a pior crise que a Bolívia enfrenta? Andres guzman- A Bolívia vivencia os momentos mais dramáticos da sua história. A Bolívia é um país de uma longa tradição revolucionária que há 500 anos vive procurando uma alternativa de solução aos gravíssimos problemas sociais que envolvem também a questão dos povos indígenas. A Bolívia é um país que teve sua origem nos incas, quechuas e aimarás e que foram, na colonização, esmagados pelos brancos. Há uma disputa de grupos étnicos na Bolívia? Acho que esse foi o pior feito do ex-presidente Carlos Mesa [que renunciou semana passada]. O grande erro dele foi dividir de maneira definida as diferenças étnicas: o branco contra o índio, o burguês contra o pobre, a classe média contra a miserável, ao invés de ter, nessa oportunidade, feito um grande consenso nacional de responsabilidade. Ele, por não ser filiado a um partido político, acabou cometendo esse erro crasso, que foi dividir a Bolívia de maneira radical. Foi um feito terrível que causou todos os problemas, pelos quais vivenciamos nas últimas horas pela televisão. O novo presidente da Bolívia, Eduardo Rodriguez, vai conseguir colocar um ponto final nesta crise? Esse é o quinto presidente que assumiu a Bolívia em quatro anos... Em verdade, elegemos em 2001, democraticamente, Gonzalo Sanchez de Lozada; em 2003, no mês de outubro, fruto também do desmando do país, pressionado pela sociedade, mandou uma carta ao Congresso, como o Carlos Mesa, e nós aceitamos a renúncia do presidente, e demos a Carlos Mesa o mando constitucional do país. E agora, vem para a administração desta nação tão dividida, Eduardo Rodriguez, que é o ex-presidente da Corte Suprema, seguindo o feito constitucional. O único feito que a gente pode resgatar disso, de toda baderna, de toda desgraça que ocorreu na Bolívia é que a democracia seguiu consolidada e sobreviveu a todas as crises. A Bolívia nunca viveu uma situação tão fácil para um golpe de Estado. E porque ele não existiu? Não existiu uma organização no Exército que pudesse levar isso ao país. O semblante mundial e continental fizeram com que a Bolívia não fosse induzida a uma situação caótica, que seria um golpe de Estado. A democracia se fez soberana, constitucionalmente nós demos o cargo a Eduardo Rodriguez. Isso foi feito ontem [quinta] porque nem todos os parlamentares estavam e não conseguiram chegar, como é o meu caso: eu não tinha avião para chegar nestes cinco dias a La Paz. A posse resolve o problema da Bolívia? Não acredito que ele venha a solucionar o problema imediatamente, tanto que ele, no próprio discurso, disse que seguirá a constituição, terá que convocar eleições nos próximos seis meses. Ele é um presidente temporário, neste momento político grave que a Bolívia vive, e vamos deixar que o povo eleja seus novos mandatários: o novo presidente e vice-presidente, os senadores e deputados para que possam tentar resolver o problema boliviano. Mas, o problema mesmo é que a democracia não chegou ao bolso do pobre. Esse quadro de pobreza é diferente do enfrentado pela América Latina? Não. A Bolívia é um país de pouca mistura étnica, não é feito o Brasil que a gente vê um leque genético de civilizações. Na Bolívia, 78% são índios. E os índios são os mais pobres, os mais excluídos, marginalizados, sem direitos, sem escolas, sem oportunidades, nem políticas nem sociais nem econômicas. Isso se acentuou na Bolívia até pela questão genética e hoje boa parte do povo boliviano tem saudades da ditadura porque pelo menos tinha ordem, regras. Hoje, é uma bandalheira. Veja o caso do Equador, que logo, logo vai se tornar um outro problema. Veja o caso da Venezuela, de um populismo falso. O Kuwait [pequeno país na península Arábica, entre o Iraque e a Arábia Saudita] da América do Sul poderia estar nadando em petróleo e em dinheiro, mas nada em petróleo e não transforma isso em dinheiro para o povo. Existe uma polarização profunda entre os ricos e os pobres. Não existe meio termo na Venezuela: ou se ama ou se odeia o presidente. Como o senhor analisa o posicionamento do governo do Brasil ? Acredito que o Brasil, fruto de sua dimensão continental e de sua musculatura econômica, tem a responsabilidade de consolidar o continente sul-americano como um bloco indivisível, para poder competir com outros blocos: o Nafta [Acordo de Livre Comércio da América do Norte], o bloco asiático e o próprio bloco europeu. O presidente Lula tem uma oportunidade histórica porque o Brasil pode e deve fazer com que este continente prospere no mando natural que o Brasil tem. Liderança não é uma coisa que se força e o Brasil tem isso. Agora, o presidente Lula tem que ser mais pragmático porque nas retóricas a integração funciona, mas na prática não. O discurso do presidente brasileiro então é para inglês ver? Exatamente. Vejamos a Argentina, por exemplo. O país vive uma miséria estampada. O Estado de São Paulo tem um PIB [Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas] que é quase duas vezes maior do que o PIB da Argentina. Além disso, o país tem condições de vender uma série de insumos, como o trigo, que o Brasil prefere comprar dos Estados Unidos. Para o senhor, o Mercosul acabou? Acho que anda a deriva. É muito provável que neste ritmo o Mercosul possa ter um gravíssimo problema de diluição. Mas, ainda existe oportunidade de que, por vontade política destas lideranças políticas continentais, onde estão o Brasil, a Argentina, o Chile. O Chile tem uma outra realidade, tem uma lei moderna de investimentos, um povo culto e está se espelhando na Ásia, porque hoje no mundo não se mede os países pelo subsolo, ou seja, o petróleo, o gás, o ferro, pelos territórios aráveis que o Brasil tem, de plantio magnífico. Hoje no mundo se mede a riqueza pelo povo, que pisa neste solo. Haja vista o Japão, a China. Estive na semana passada [duas semanas] na China e fiquei pasmo. O que os governos precisam é investir em educação e isso às vezes tarda uma geração. Os políticos às vezes são imediatistas porque os mandatos são curtos. É preferível você maquiar a cidade, fazer pontes, ruas, colocando iluminação, estradas do que investir em educação. E no caso da corrupção? É um assunto de preocupação profunda no continente, porque passa no poder uma série de possibilidades econômicas e às vezes os indivíduos se apossam destes recursos que não são dos políticos, são da sociedade. O senhor falou que a democracia está consolidade na Bolívia. Os presidentes que deixaram o posto até hoje em seu país foi por causa da corrupção? Não. O problema boliviano não é a corrupção. O problema boliviano é a falta de um líder agregador, um líder que tenha uma mensagem nacional e que leve este país a uma integração continental. Muitos políticos bolivianos acham que o grande nexo da integração deverá ser feito com os Estados Unidos, que é o maior mercado, a maior potência econômica do mundo. Mas, nós não achamos. Achamos que a Bolívia deveria ver com bons olhos o Brasil. Acho que a Bolívia deveria ter um projeto de integração sólida com o Brasil, que os presidentes andassem em um trilho de um projeto de integração com o Brasil. A Bolívia é um país riquíssimo que tem em seu subsolo, por exemplo, 60% do gás natural que é consumido aqui no Brasil. Temos petróleo, zinco, minerais, a maior reserva de sal do mundo, temos terras na fronteira do Brasil (3.200 quilômetros), altamente produtivas de soja e algodão, há territórios quilométricos, com mais de dez metros de profundidade humus que não foram plantados. Não queremos caridade, ninguém quer caridade. Queremos uma troca aberta entre os países. Por que, então, a pobreza é um dos principais problemas da Bolívia? Porque não há educação, fundamentalmente, tecnologia, não há vontade política destes governantes temporários. Esse é o drama que vive a Bolívia e o continente como um todo. Acho que o Brasil deveria ter um projeto mais sólido na educação e na criação de postos de trabalho. Este é um país que nós torcemos para que continue na velocidade que vinha vindo. Agora, parece que existe um freio estabelecido que nos preocupa muito, porque o Brasil indo mal, conseqüentemente a América do Sul vai mal. Como o senhor avalia esse momento político no Brasil e as denúncias de corrupção? Isso pode desestabilizar o país. O Brasil vinha em velocidade de desenvolvimento econômico, chegando a 4,5% ao ano e este ano duvido que chegue a isso. Isso vai afetando a economia deste país e isso se reflete em todo continente. E estas denúncias também nos preocupam. Acho que o Brasil precisa de uma grande reforma política, acho que a fidelidade partidária é uma coisa que deveria existir urgentemente, para evitar esse tipo de ação. Trinta e três por cento do PIB boliviano depende do Brasil. Os norte-americanos têm responsabilidade nesse clima social e econômico na América Latina? Total, eles são os donos dos cofres. São culpados? De alguma maneira sim. O político sul-americano tem responsabilidade sobre isso, mas cabe aos Estados Unidos uma responsabilidade porque todos os golpes de Estado que tivemos em nosso continente foram financiados pelos Estados Unidos. QUEM É Nome: Andres Guzman Idade: 51 anos Cargo: Deputado Nacional Partido: Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Formação: Economista. Atualmente é presidente do Grupo Interparlamentos Bolívia-Brasil

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