Política
Históricos falam sobre a crise do PT
| ODILON RIOS Repórter Os depoimentos na CPI dos Correios e as revelações sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo membros da cúpula do PT e do governo federal geraram um sentimento de decepção em praticamente todas as tendências petistas. Em Alagoas, a expectativa maior é quanto ao resultado das eleições que vão escolher o novo presidente do PT, especificamente na instância estadual e nacional. O advogado Tutmés Airan, por exemplo, é um dos que esperam o resultado: Se o Campo Majoritário for continuar no comando do partido, é complicado. É um sinal de complacência absurda, e aí não tem mais jeito, disse o advogado, um dos fundadores do PT alagoano, em 1980. Entrei no PT quando o PT era pobre. Eu dava dinheiro para o partido, lembrou Airan. Ainda no PT, porém, o advogado, que chegou a brigar com a direção estadual do partido e se afastar da legenda para assumir a Secretaria de Justiça e Cidadania no primeiro mandato do governador Ronaldo Lessa (PDT), não poupa críticas: O PT caiu em uma armadilha. Uma dessas armadilhas, diz ele, foi fazer alianças com o PTB e o PL como o caminho mais fácil, conforme sua classificação: O governo Lula deliberou pelo caminho mais fácil: ?eu preciso governar, tenho que ter o Congresso na mão, preciso fazer aliança?. O erro começou com as alianças. Não era preferível ter feito aliança com o PMDB desde o começo? Errou também na política econômica Para ele, o PT mudou, no sentido de amadurecer, aprendeu com seus erros, mas precisa conservar sua rebeldia, sua capacidade de mobilização. O PT foi uma freira que foi a um prostíbulo. Ainda está na hora de a freira não virar prostituta, analisou. Como um dos membros históricos e ainda no PT, Airan reclama da demora do partido em se posicionar sobre as denúncias do publicitário Marcos Valério. Semana passada, o PT divulgou uma carta, pedindo desculpas à nação pelos erros. No começo, negavam-se as histórias do Marcos Valério, mas depois foi surgindo. Contudo, mesmo diante do atraso em divulgar o que chamou de eventuais erros, Tutmés Airan pondera: Acho que Lula não sabia de nada. Eu tiro por mim: quando era secretário, só soube de ?coisas? depois que saí do cargo. Apesar de ainda ter esperança de mudança, ele diz olhar para a situação do PT como um advogado. Ou o PT se reencontra com a sua história ou ele se acaba. Para Airan, este princípio de mudança estaria a cargo do Campo Majoritário, tendência que domina o PT e que tem membros envolvidos em suposta corrupção. O Campo tem que olhar para si, se envergonhar. Se fez alguma coisa, fazer autocrítica e entregar a direção do partido. Se o Campo Majoritário continuar mandando, o corporativismo vai se manter, sentenciou. ### Aliomar: O PT não existe mais. Para mim, acabou Um ex-vereador que desistiu de ser candidato a prefeito da capital. Esse é o perfil do médico-cardiologista Aliomar Lins, que deixou o PT há dois anos. Entrou no partido em 1985. Hoje, porém, o sentimento é outro: O PT não existe mais. Para mim, acabou, conta. Para ele, muitos ãos podem resumir o motivo de ter saído do PT: Talvez muitos ãos: depressão, desilusão. Como pensa o advogado Tutmés Airan, ele percebe que um dos problemas enfrentados pelo PT foi o leque de alianças nas eleições presidenciais. Ampliou demais. Naquele momento, saí do partido. Só que não imaginava os supostos casos de corrupção: Essa onda de corrupção não estava na expectativa. Todavia, também identifica que o Campo Majoritário não era democrático. No Campo Majoritário havia diferença. Não havia democracia, era o lado ruim. Sempre defendemos o lado democrático, mas eles não respeitavam, explicou, referindo-se ao ex-presidente nacional do PT, José Genoíno, e ao ex-ministro José Dirceu, pertencentes ao Campo Majoritário, única tendência petista citada na enxurrada de denúncias contra o PT. No começo do PT, porém, havia, descreveu Lins, uma seleção rigorosa para a filiação de membros. Não se entrava ao acaso. Passei por uma seleção, mas hoje isso não existe mais. Basta o interesse e automaticamente se filia, lembra. Para o futuro, ele prevê o fim do PT: Por essas questões de caixa dois, o PT deve ser extinto, até pelo ponto de vista jurídico, analisou. |OR ### Foi uma fratura, não um abalo. Só falta enterrá-lo A professora de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Alice Anabuki Blancherel, outra fundadora que saiu do PT em 1995, identifica uma fratura no partido: Foi uma fratura, não um abalo. Só falta enterrá-lo. Ela participou da primeira reunião do movimento pela fundação do PT em Alagoas, em 1980. Para mim, o PT é uma página virada. Na opinião da professora, além de dificilmente resgatar as origens do PT, a legenda terá uma sobrevida, como qualquer partido. Eu nunca fui muito favorável à corrente majoritária, apontou, classificando a tendência como rolo compressor: Eles não tinham circunstâncias completas para eliminar os adversários internos. Quando assumiram o poder, fizeram isso. No fundo, não tiveram circunstâncias reais e se manifestou essa truculência [no poder]. Inquirida sobre o depoimento dos petistas na CPI, apontou: É de uma hipocrisia deslavada, e lembrou que o Campo Majoritário tinha uma tendência social democrata, mas refletiu ao conversar com a Gazeta: No sentido clássico, eles não têm nada de social-democratas e esclareceu: Acho que o caminho mais cômodo é deixar o partido. A imagem do PT foi maculada definitivamente. Mais adiante, explicou: A minha linha de raciocínio é que dificilmente vão resgatar a linha do partido. Não é partido de esquerda, mas eleitoreiro. Ela acredita que não haverá processo de impeachment de Lula. O PSDB não vai levar às últimas conseqüências. |OR