Política
Caciques procuram tribos em Alagoas
| PETRÔNIO VIANA Repórter O prazo para os pretensos candidatos nas eleições de 2006 oficializarem, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), alterações em relação a novas legendas e domicílios eleitorais encerra-se no dia 30 de setembro. Até lá, articulam-se as mudanças de partido, sempre voltadas a garantir maior visibilidade e espaço político aos futuros candidatos. Nos últimos meses, uma tendência tem se apresentado claramente: a dos partidos políticos com menor expressão nacional e regional os nanicos tentando atrair políticos com maior representatividade nos estados, na busca por um melhor desempenho na disputa de 2006. A principal estratégia de sedução desses partidos é a oferta de cargos de liderança dentro dos diretórios regionais dos nanicos. Políticos de destaque são seduzidos pela possibilidade de comandar, em seus estados, toda uma legenda partidária. Em Alagoas, o caso mais recente foi o do deputado federal Jorge VI, suplente do deputado Helenildo Ribeiro (PSDB), licenciado. Na semana passada, Jorge VI anunciou sua saída do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) para ingressar no Partido Social Cristão (PSC), legenda inexpressiva em Alagoas. Pelo PSDB, onde ficou por 13 anos, Jorge VI foi vereador de Maceió por quatro mandatos. O PSC é área de influência do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PMDB). O deputado Jorge VI confirma que sua filiação faz parte de um projeto nacional visando fortalecer o partido para as próximas eleições. Eu estou inserido dentro de um projeto nacional com o ex-governador Garotinho, conta. No Rio de Janeiro, o PSC conta com 15 deputados estaduais. No momento, o partido tem representação em cerca de 40 municípios alagoanos. O deputado aponta como principal vantagem em ingressar em um partido nanico o fato de ter mais espaço de negociação com as lideranças. No PSDB, como já existem candidatos fortes, os outros candidatos que querem ter igualdade na disputa não ganham, argumenta. Jorge VI confirma que a oferta de comandar o partido no Estado pesou na hora de decidir mudar de legenda. O deputado é o presidente da comissão provisória do PSC em Alagoas. Serei presidente de um partido que tem a tendência de crescer. Também há possibilidade de comandar um grupo que não teria chances de se eleger em partidos onde a concorrência é injusta, explica. Jorge VI avalia que a pequena representação dos partidos nanicos no Congresso Nacional não cria dificuldades para os políticos que estão ingressando. A dificuldade é com o tempo de televisão, mas, com a soma do tempo dos outros partidos coligados, dá para mostrar o programa, diz. O PSC dispõe somente de 39 segundos no horário eleitoral gratuito de rádio e TV. ### Almeida no PTB, Lira no PP, Holanda no PSC O prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PTB), também mudou recentemente de partido. Logo após as eleições, Almeida recebeu um ultimato do presidente de seu antigo partido, o PDT, Geraldo Sampaio, para que deixasse a legenda. O motivo alegado por Sampaio seria a postura de Almeida depois de eleito, tendo se afastado das lideranças do PDT para se aproximar do seu principal aliado durante a campanha eleitoral, o deputado federal João Lyra (PTB), pai da vice-prefeita Lourdinha Lyra (PTB). Com a vitória nas eleições, Almeida teria deixando de negociar cargos com o PDT e passado a dar prioridade aos interesses de João Lyra. Isso levou os líderes do PDT a pedir a cabeça do prefeito. Depois de quase dois meses sem estar ligado a partido nenhum, Almeida cedeu ao assédio de Lyra e filiou-se ao PTB e também já entrou por cima, como presidente municipal do partido. De acordo com a assessoria do prefeito, as negociações para a filiação de Almeida ao PTB só teriam chegado ao fim quando ficou acertada a questão da presidência municipal da legenda. Ele [Almeida] foi para o PTB para assumir a presidência municipal do partido. Isso ficou acertado nas negociações com o deputado João Lyra, revela um assessor da prefeitura. LIRA E HOLANDA O deputado federal Benedito de Lira, em 2003, também resolveu deixar o partido que o elegeu, o PTB, pelo PP, por considerar que, na legenda, não havia espaço para dois deputados federais o partido havia eleito também o deputado João Lyra. Não houve atrito com Lyra, apenas o espaço era estreito para os dois. Não havia como conciliar os interesses dos dois, explica Lira. João Lyra teria estendido sua força política pelo interior do Estado, inclusive nos municípios onde Benedito teria maior número de votos. O deputado do PP conta que a orientação da executiva nacional do PTB, assim como do PP, é de que os presidentes regionais dos partidos devem ser deputados federais, no caso de não haver prefeitos ou governadores do partido no Estado. Eu já entrei no PP como presidente da comissão estadual provisória, por indicação da própria comissão e por ser o único deputado federal do partido em Alagoas, conta Lira. O deputado João Lyra também é o responsável pela filiação do suplente de deputado estadual, hoje em exercício, Antônio Holanda, ao Partido Social Liberal (PSL). De acordo com Holanda, assumir a presidência do PSL em Alagoas foi uma missão delegada por Lyra. Holanda agora quer ingressar no PMN para participar da aliança montada pelo presidente da Assembléia Legislativa, deputado Celso Luiz (PMN) o chapão. |PV ### No PDT, Lessa ganha cargo nacional No mês de fevereiro deste ano, o governador Ronaldo Lessa trocou, depois de 20 anos de militância, a sigla que ajudou a fundar no Estado, o PSB, por um partido de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PDT. As razões apontadas por Lessa para a mudança foram muitas, desde o descontentamento com a administração nacional do PSB, sob o comando do ex-governandor de Pernambuco Miguel Arraes, falecido neste mês, no Recife, até a tentativa de aproximar o PDT da base aliada do presidente Lula. O confronto direto com Arraes deixou o governador alagoano sem nenhum cargo de destaque no PSB nacional, causando-lhe insatisfação. Com a morte de Arraes, assumiu o controle nacional do partido o neto do ex-governador, o deputado federal Eduardo Campos (PE). Ronaldo Lessa chegou a comparecer ao enterro de Arraes. Na volta, teceu elogios ao poder de liderança e à força política do ex-rival, declarando que foi ao enterro para levar a homenagem do povo alagoano ao político com o qual, segundo Lessa, discordava apenas da política interna e do caráter centralizador com o qual Arraes dirigia o PSB. Com a filiação de Lessa, o PDT não modificou sua postura em relação ao governo federal. Entretanto, o governador foi agraciado com a vice-presidência da regional Nordeste, dentro da Executiva Nacional, e tornou-se membro do Diretório Nacional e do Conselho Político do PDT. Além disso, o governador foi apontado pelas lideranças do PDT como sendo um possível candidato do partido à Presidência da República em 2006. Com a saída de sua figura mais imponente, o PSB alagoano sofreu com a revoada de membros importantes. O primeiro a deixar a legenda, antes mesmo da saída de Lessa, foi o deputado federal e secretário estadual de Educação, Maurício Quintella. Em seguida, foi a vez da secretária de Articulação Política, Fátima Borges, do gestor de Articulação Colegiada, Pedro Alves, além do secretário de Comunicação, Joaldo Cavalcante e de prefeitos do interior do Estado. Dos membros da Assembléia, o governador levou para o PDT os deputados Alves Correia, Adalberto Cavalcante, Zé Pedro da Aravel, Jota Cavalcante e Isnaldo Bulhões. Para continuar controlando o PSB, Lessa ordenou a permanência no partido da secretária de Saúde, Kátia Born, do vice-governandor Luís Abílio de Sousa e dos deputados Sérgio Toledo, Maria José Viana e Dudu Albuquerque. |PV ### Celso já entra no PMN como general Outro caso recente de mudança de um político influente para um partido de menor expressão é o do presidente da Assembléia Leislativa do Estado (ALE), deputado Celso Luiz (PMN). Celso deixou o PSB, para onde foi depois das eleições de 2002, deixando o PL a convite do governador Ronaldo Lessa, e ingressou no PMN no mês de julho, depois de alguns meses de negociação com várias legendas. O motivo de sua saída do PSB, de acordo com o que Celso Luiz declarou na época, foi falta de espaço dentro do partido para a discussão dos nomes que disputarão o governo do Estado no ano que vem. O PSB apresentava como pré-candidatos a secretária estadual de Saúde e ex-prefeita de Maceió, Kátia Born, e o vice-governador Luis Abílio de Sousa. O deputado acreditava ter chances de disputar o cargo e, ao perceber que ficaria de fora na disputa interna do partido, decidiu procurar uma legenda que o deixasse à vontade para colocar seus planos em prática. A saída de Celso do PSB foi articulada com o aval do governador Ronaldo Lessa, que também já havia trocado o partido pelo PDT. O deputado prometeu manter o apoio à candidatura de Lessa ao Senado, em 2006. Chapão Com sua filiação ao PMN, Celso passou a negociar com o restante dos parlamentares a formação de uma aliança capaz de eleger cerca de quinze deputados estaduais no ano que vem. O chapão, como ficou conhecida a aliança, é uma estratégia política para atingir o coeficiente de votos necessários para arrastar vários candidatos da aliança, a partir da soma dos votos destinados aos componentes da aliança. Celso Luiz ingressou no PMN já como presidente estadual do partido, no lugar de Ildo Rafael. O próprio Rafael explicou, na época da filiação de Celso, que o convite para ingressar no partido já no comando da legenda foi uma orientação da Executiva Nacional do PMN, de que alguns presidentes regionais do partido deveriam abrir mão de seus cargos em favor de políticos mais expressivos para, dessa forma, fortalecer o partido nos estados. Isso aconteceu em Alagoas, no Rio Grande do Norte, no Amapá, no Acre e em Pernambuco. Antes da filiação de Celso Luiz, o PMN tinha apenas 1m17s de tempo no horário eleitoral gratuito de rádio e TV. O partido está presente em 72 municípios alagoanos. PV ### Analista condena apelação eleitoral O cientista político e professor da Universidade Federal de Alagoas Paulo Décio de Arruda Mello avalia com pesar a corrida de pré-candidatos às eleições de 2006 em busca de partidos que atendam a seus interesses, no que considera o surrealismo político brasileiro. Isso é um absurdo, comenta ele. Justamente na época em que os partidos estão sob investigação acontece essa movimentação. Os políticos estão brincando com fogo, alerta Mello. O estudioso avalia que as manobras feitas pelos futuros candidatos são arriscadas e podem trazer prejuízos a médio prazo. Estamos às vésperas de uma reforma política que vai tratar da fidelidade partidária. Essas manobras não estão em sintonia com o que a sociedade deseja desses políticos, argumenta. O professor criticou a recente mudança de partido do deputado federal Jorge VI, que trocou o PSDB pelo PSC. O Jorge agora diz que é o ?agente político de Garotinho? em Alagoas. Isso é ridículo! A orientação do PSC é totalmente oposta ao que prega o PSDB, diz. Na opinião de Mello, os interesses por trás dessas mudanças de partido são inteiramente pessoais. Não existe uma preocupação com a economia, com a política macro, com a democracia. Esses políticos só estão pensando em seus projetos pessoais. Com que moral eles podem interpelar alguém em uma CPI, por exemplo?, questiona. Outros motivos apontados por Mello para as mudanças de legenda são as conveniências eleitorais, como o tempo de propaganda na TV e o volume de recursos financeiros. Isso é apelação eleitoral. A reforma eleitoral deve ser rigorosa. Partido tem que ter base programática, diz. Esses partidos não têm ideologia nem programas. Só servem para fazer negociatas. São legendas de aluguel, acusa Mello. O professor é pessimista quanto à possibilidade de uma mudança de postura dos políticos nas próximas eleições. As velhas práticas continuam: com o clientelismo e a hipocrisia nas bases políticas, alega. |PV