Política
Três deputados de AL para uma cadeira
| ODILON RIOS Repórter A disputa pela principal cadeira da Câmara dos Deputados envolvia, até sexta-feira, nove nomes. Três deles são deputados alagoanos: o presidente em exercício da Casa, José Thomaz Nonô (PFL), o quarto-secretário, João Caldas (PL), e o ex-ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). A eleição ocorre na quarta-feira, e todos terão até exatamente às 18 horas da terça-feira para registrar seus nomes para concorrerem ao cargo. O destino de Nonô poderá mudar amanhã, quando PDT, PPS e PV se reúnem e decidirão se apóiam ou não o deputado pefelista. Nonô não tem o apoio do presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros (PMDB), que pende para Rebelo. Nonô ameniza: Com certeza vou ampliar com uma parcela do PMDB, que não segue a orientação governamental, que não segue a orientação do Renan. Outra parcela da Câmara me admira. Tenho 23 anos na Casa, analisou Nonô. Tenho hoje boas chances de ganhar a eleição. É dura. O ponto X é quarta-feira. Até lá, vão aparecer candidaturas, outras serão retiradas. Tem muitos fatos ainda no meio, analisou, na última sexta-feira, depois de receber a bênção do ex-presidente Fernando Henrique, em evento promovido pelos tucanos em Maceió. Os governistas temem Nonô na presidência da Câmara, já que o PFL namora a proposta do impeachment do presidente Lula. Ao falar do assunto com a Gazeta, semana passada, Nonô se esquivou: Isso se verá no momento. ### Nonô: carreira estancada e força nas urnas do interior José Thomaz da Silva Nonô Neto tem 58 anos. É o deputado federal alagoano recordista em mandato: seis, desde 1983, quando entrou na Câmara pelo extinto PDS. Passou pelo PMDB e PSDB. Está no PFL desde 1999. É também empresário (um dos sócios da TV Pajuçara) e plantador de cana. Em 2000, concorreu à prefeitura da capital, pintou os cabelos de preto, tentou se identificar com os eleitores jovens e, inclusive, aparecia no Guia Eleitoral com um computador. Perdeu a eleição no primeiro turno. Nonô possui uma carreira política vista como estancada (muito tempo em uma única função). Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que seu peso político está no interior, que contribuiu, em 67 municípios, com mais de 50% dos votos do seu partido. Sua situação política pode mudar este ano com a vitória do prefeito da capital, Cícero Almeida (PTB). Indicou o secretário de Saúde e articula sua própria candidatura ao Senado. |OR ### Aldo passa a ser a aposta do governo: PT retira candidato A substituição saiu na noite de quinta-feira. O petista Arlindo Chinaglia (SP) deixou a disputa para a presidência da Câmara, depois de conversas no Palácio do Planalto, e o governo e partidos aliados convergiram para o nome do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Até a noite de sexta-feira, Aldo não havia registrado seu nome na disputa, mas pediu à sua assessoria o levantamento de todos os telefones celulares e fixos, inclusive das bases eleitorais de todos os deputados, para tocar a campanha no fim de semana. Viria a Alagoas participar de um evento do PCdoB, mas, com as passagens de avião na mão, foi chamado pelo Palácio do Planalto. APOIO DA BASE ALIADA Até sexta-feira, Aldo Rebelo tinha o apoio fechado do PT, PSB e PCdoB e buscava o PMDB pelo menos a banda comandada pelo presidente do Congresso, senador Renan Calheiros e outros partidos próximos ao governo, além de dissidentes da oposição. Através de sua assessoria, Aldo não quis avaliar qual candidato mais forte e foi cuidadoso ao se referir ao ex-presidente Severino Cavalcanti (PP-PE). Prefiro falar da compreensão que ele teve ao renunciar à presidência para preservar a instituição. quatro mandatos Nascido em Viçosa onde recentemente comprou uma pequena propriedade Aldo Rebelo é jornalista, tem 47 anos e nunca trocou de partido. Filho de um administrador da fazenda do velho senador Teotônio Vilela, Aldo teve seus estudos pagos pelo próprio senador quando seu pai morreu, até entrar na Universidade Federal de Alagoas. O estatuto da reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi escrito numa casa em Cruz das Almas, por Aldo e outros militantes do movimento estudantil. Ele foi eleito secretário-geral da entidade, na reconstrução, em 1978, e depois presidente, de 1979 a 1980. Mudou-se para São Paulo e foi eleito vereador, pelo PCdoB, em 1988. Em 1990, elegeu-se deputado federal pela primeira vez. Está no quarto mandato consecutivo. Foi ministro da Coordenação Política, e deixou o cargo este ano, após atritos com o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Aldo surge como uma estratégia para o governo tentar acalmar os ânimos da base governista. É amigo do presidente do Congresso, Renan Calheiros, e em 1999 apresentou um projeto de lei que protegia e defendia, além de promover, a língua portuguesa, contra os estrangeirismos. O projeto está na Comissão de Constituição e Justiça. |OR ### Seis partidos, OVNIs e TVs no interior O deputado federal João Caldas (PL), talvez tentando acabar com os boatos de que desistiria da disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, foi o primeiro a registrar seu nome na disputa, na última sexta-feira. Em conversa com a Gazeta, na quinta-feira, disse que o PL apóia sua candidatura. Prometeu conduzir a Câmara com independência e apontou as características para o futuro dirigente do Legislativo Federal: Ter bom senso e ser um bom negociador com os parlamentares. Todavia, no quesito negociação, até quinta, não havia conversado com nenhum parlamentar. Não poderia solicitar o voto porque é uma estratégia macro, esclareceu. Nos bastidores, naquele dia, ele poderia apoiar outro nome. Amizade Tenho amizade com todos os deputados. Ganhei a eleição na Câmara contra a máquina do governo, explicou. Ele foi eleito 4º secretário. Durante a campanha para a presidência da Casa, o PL não apoiava Caldas. O argumento que, segundo ele, sustenta sua candidatura, é: Ninguém tem medo de mim. Amigo do ex-presidente Severino Cavalcanti (PP-PE), que renunciou semana passada para evitar a cassação do mandato, Caldas preferiu não comentar os supostos erros do ex-parlamentar: Ele renunciou e agora vai responder por seus atos. Não entro no mérito. O deputado ganhou destaque nacional com a eleição do ex-presidente, representante do baixo clero na Câmara Federal, parlamentares que apóiam o aumento de salário dos deputados, por exemplo. João Caldas, porém, se coloca como o candidato das bases: Quero construir a harmonia, proclamou, afirmando que as negociações para a presidência da Casa serão limpas: Não há candidato mais forte, apontou, referindo-se aos nove nomes que disputam a vaga. João Caldas da Silva tem 45 anos. É o deputado federal alagoano com mais passagens por partidos diferentes: o extinto MDB, PMDB, PMN, PST, PTB e PL, sigla que o abriga desde 2001. As urnas do interior alagoano elegem o deputado e, em 82 municípios, contribuíram com mais de 50% dos votos do seu partido, conforme levantamento realizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O deputado é empresário e seu vigor finaceiro chegou a ser reconhecido pela imprensa. Em 2002, comprou, por R$ 50,4 milhões, algumas TVs no interior paulista. Fato pitoresco foi um projeto de lei apresentado em 2000, com o objetivo de criar um mecanismo para que o Congresso Nacional se mantivesse informado sobre Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs). O projeto de lei foi rejeitado, depois de virar motivo de chacota em Brasília. OR ### Cargo não traz mudanças ao Estado, diz cientista político O cientista político Alberto Saldanha, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), apesar de crer no poder e prestígio de um presidente da Câmara, não acredita que o cargo trará mudanças políticas ou econômicas ao Estado. Esse mesmo discurso veio com o Renan [Calheiros, presidente do Congresso]. Isso na realidade alimenta uma política personalista, afirmou Saldanha. Esquece-se da conjuntura econômica, reflete o professor da Ufal. Os problemas de Alagoas não serão resolvidos por grandes líderes. Já os tivemos em cargos importantes no País, atestou. Para ele, a política econômica adotada pelo governo federal, mesmo que um alagoano assuma a presidência da Câmara, não puxa recursos para o Estado. Esse quadro depende das decisões do governo, de uma visão macro, esclareceu. Para Saldanha, a importância do cargo pode ser decisiva para o impeachment ou não do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Quem for indicado terá o papel de conduzir um possível processo de cassação. Analisando os candidatos: Nonô tem uma trajetória como o líder implacável da minoria; João Caldas é mais ligado à imagem de Severino; Aldo Rebelo é o alagoano fictício, surge para acalmar os ânimos e é amigo de Renan. |OR ### Nove candidatos para uma campanha sem propaganda Além dos três alagoanos, mais seis candidatos querem a presidência da Câmara: Jair Bolsonaro (PP-RJ), Luiz Antônio Fleury (PTB-SP) e Alceu Collares (PDT-RS), registrados na sexta. Ciro Nogueira (PP-PI), 2º vice-presidente e corregedor da Câmara; Francisco Dornelles (PP-RJ), vice-líder do partido; e Michel Temer (PMDB-SP), presidente do partido ainda não oficializaram suas candidaturas. O escolhido comandará a Casa até o dia 2 de fevereiro de 2007, data prevista para a escolha da próxima Mesa Diretora. A eleição está prevista para quarta-feira e, em caso de segundo turno, a decisão sai no mesmo dia. Sem propaganda Uma decisão dos líderes foi proibir a propaganda dos candidatos por meio do uso de cartazes e da atuação de cabos eleitorais nas dependências da Câmara. É permitida a distribuição de folhetos. |OR Com informações da Agência Câmara