Política
Eu queria sair de um extremo para o outro
| PETRÔNIO VIANA Repórter Em seu primeiro mandato de vereador por Maceió, o estudante de Direito Diogo Amorim Gaia Duarte (PFL) provocou descontentamento na cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se elegeu, ao tirar o mandato do atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas (Fapeal), Thomaz Beltrão, um dos mais conhecidos membros do PT alagoano. No mês de julho deste ano, depois de ter sido apontado como um câncer dentro do PT por pertencer a uma família de tradição política em partidos de direita dizendo-se boicotado e alijado das decisões do partido, ao qual estava filiado desde 2003, Gaia anunciou sua desfiliação. No último dia 23, o vereador assinou sua filiação ao Partido da Frente Liberal (PFL), sigla que chegou a defender o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para esclarecer os motivos de sua saída do PT e explicar uma mudança tão radical, Diogo Gaia concedeu à Gazeta a entrevista a seguir. Gazeta - As razões da sua saída do PT até hoje não ficaram bem esclarecidas. O que de fato aconteceu? Diogo Gaia - A minha questão com o Partido dos Trabalhadores é meio complexa. Alegaram, anteriormente, que eu vinha de uma família tradicional. Ora, não é o meu pai [Raimundo Gaia, ex-vereador] que está aqui, nem meu avô [Jota Duarte, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Palmeira dos Índios] ou meu tio [Fernando Duarte, PMN, deputado estadual]. Quem está aqui é o Diogo. Eu já deixei mais do que claro que tenho uma maneira de pensar. Indo agora às questões: eu tive alguns problemas no PT. Fui discriminado por algumas pessoas. Recebi o apoio de outras, quero deixar isso claro. Passei por turbulências, e até fui chamado por uma liderança de câncer do partido. Quem era essa liderança? Eu prefiro não polemizar quanto a isso. Digamos assim: foi um integrante do diretório municipal na época. Mas eu prefiro não revelar o nome, até porque eu não ando fazendo política com o intuito de arrumar intriga ou inimizade. Eu sofri com esse problema. No fim, algumas pessoas conversavam comigo uma coisa e depois, na prática, faziam outra. Então, foi uma série de coisas que foram desgastando. Então, o senhor atribui uma parte dessa resistência dentro do PT ao histórico político da sua família? Claro, mas agora eu me dirijo a todos que me criticaram. O deputado Jota Duarte, meu avô, faz política há mais de 40 anos. Suas ações deram respaldo para a eleição de um filho seu, vereador de Maceió, de outro, deputado estadual e, hoje, ajudaram na eleição de seu neto, no meu caso, vereador de Maceió. Eu desafio qualquer um a mostrar um escândalo sequer em que alguém dessa família tenha sido envolvido. Nunca. Eu não entendo também, por exemplo: o PT tem o Thomaz [Beltrão]. O Thomaz é primo do deputado João Beltrão [PMN], que, de qualquer maneira, é de uma corrente diferente, e nem por isso havia essa crítica toda. São pontos que precisam ser observados. Como é que poderiam fazer um prejulgamento quanto à minha pessoa? Eu tinha acabado de entrar no partido, meu primeiro partido. Eu acho que a coisa não caminha por aí. Mas o fato de o senhor ter participado de reuniões da bancada governista na Câmara ajudaram a piorar a situação? Eu não participei de reuniões nem de encontros da bancada governista. O que aconteceu foi um convite do prefeito Cícero Almeida [PTB] para uma reunião no Clube dos Dirigentes Lojistas. Comuniquei aos membros da oposição e disseram que eu poderia ir, que não havia nenhum problema, uma vez que eu fui convidado. Tudo o que eu fiz foi combinado com a oposição. Um ponto que gerou polêmica foi o da eleição da Mesa, por eu ter votado no vereador Arnaldo Fontan [PFL]. Eu votei numa composição que tinha uma pluralidade partidária, de pensamento. Ser contra por ser contra, nunca serei. Por isso, o partido soltou uma nota me recriminando, uma advertência. Eu fiquei calado. Meu pensamento hoje, como não sou mais militante, posso falar: eu acho que o partido agiu errado, porque não travou discussão caso nós não tivéssemos candidato. Como podem me punir se não houve uma determinação do partido? Votei com a minha consciência e não me arrependo. O senhor sentia que existia uma certa desconfiança dos dirigentes do partido em relação ao senhor? Não só dos dirigentes, mas de certa parte da militância também. Durante o processo eletivo, começaram a espalhar boatos de que eu sairia do partido no dia seguinte à eleição. Eu não saí. Então, você passa por uma série de situações, vai mostrando que está ali com uma meta, mas encontra tanta dificuldade que isso desmotiva qualquer um. E outros viraram para mim e falavam: Não, Diogo, eu acho que você está aqui querendo contribuir. Também existiam esses, mas ficava esse fogo cruzado, eu no meio, tentando fazer um trabalho... E depois veio aquela situação de Brasília [as denúncias de corrupção contra o governo federal] que, se eu já estava desestimulado, acabou com o meu ânimo. O presidente estadual do PT, deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão, manifestou-se em algum momento? O deputado Paulão se manifestou a meu favor através do companheiro Adelmo [dos Santos, dirigente do PT] quando houve impasse quanto à minha candidatura, se ela iria ter prosseguimento ou não. Nas demais discussões do processo, ele foi neutro. Agora, eu quero esclarecer um fato que rendeu muitos boatos. Dizem por aí que eu entrei no partido às escuras, da noite para o dia. Queria deixar público que a maneira como eu entrei no partido foi normal, sem traumas, conversando com o secretário-geral do partido no Estado, na época, Marcelo Nascimento. Tivemos uma discussão, um pequeno debate ideológico, ele viu que eu me enquadrava no perfil e abonou a minha filiação. Após isso, existe um rito burocrático no partido, que o estatuto estabelece, para que você possa ser candidato. E eu segui esse rito, procurei algumas pessoas que eram da executiva municipal e consegui a assinatura dessas pessoas para colocar meu nome como pré-candidato a vereador do partido. Fui aprovado na convenção, lançamos a candidatura. Quando começamos a sair nas pesquisas e incomodar algumas pessoas, começaram a surgir os boatos. Foi essa a maneira como entramos e participamos de todo o processo no PT. O que o senhor responde hoje a quem o acusava de ser um membro da direita infiltrado no PT, um espião? Aconteceram comentários piores, na realidade. Eu acho que essas pessoas, antes de tecer qualquer comentário hoje, têm que ver a situação nacional [do partido] para poderem falar de mim. Eu estou fazendo a minha parte, trabalhando com os estudantes, com os segmentos da sociedade que me procuram, tentando sempre ajudá-los. E nada consta contra a minha pessoa. Isso é uma coisa que fala por si só. Houve resistência do PT à sua entrada na chapa da União dos Vereadores de Alagoas (Uveal)? Como foi isso? O processo foi muito corrido, eu recebi o convite muito em cima da hora, entrei em contato com a então presidente municipal do partido [Cláudia Amaral] e ela me apoiou. Disse que era muito importante para o partido, que o caminho era esse. Mas depois do processo, do qual a composição saiu vitoriosa, estávamos travando uma discussão no Partido dos Trabalhadores e me fizeram o seguinte comentário: Você não deveria nem ter participado do processo da Uveal. Você deveria se preocupar com Maceió, que já é uma coisa muito grande que você ainda não tem conhecimento e deve se ater mais a isso. Quer dizer que eu, como militante do partido, tento levar o partido a uma expansão maior, mostrar que era um partido de diálogo, disposto a ajudar independentemente de corrente partidária, sofro uma discriminação porque queria mostrar isso para a sociedade. Talvez essa pessoa tenha ficado um pouco enciumada por, em tão pouco tempo, termos logrado êxito. O autor da crítica, digamos, foi um dos grandes caciques do partido. Como o senhor explica ter saído de um partido de esquerda, que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para um partido de oposição, que chegou a pedir o impeachment de Lula? Como todo jovem, concordo com a ideologia que o partido adotava, que era de mudança, de combate à corrupção, era o partido da ética, da moral, que todo jovem via como o partido ideal. Nesse momento, o então estudante Diogo Gaia se filiou ao Partido dos Trabalhadores. Em outro momento, começaram a ocorrer esses problemas internos. Até então, eu ainda resistia em sair do partido e pensava: Se eu sair, deve ser para um partido da base aliada. Mas daí, veio a crise em Brasília, estourou esse mar de lama. Então, isso já matou minha esperança. Ainda acredito que existem homens de bem no partido, que tentarão fazer com que os 25 anos do PT não sejam jogados fora em três. Acreditava nessas pessoas, mas não acreditava mais no partido. A minha posição hoje é de que o governo está errado, de que existem coisas macabras em Brasília, que devem ser apuradas, inclusive o presidente Lula, se estiver envolvido, deve arcar com as conseqüências. Podemos considerar que essa mudança de partido representa também uma mudança ideológica e não somente por critérios eleitorais? Sim. Eu me filiei e não disse nada. Queria hoje admitir publicamente minha filiação ao PFL como uma forma de homenagear o deputado José Thomaz Nonô. Queria hoje sair de um extremo para outro, assumir essa conseqüência perante o público, como uma maneira de prestigiar esse grande parlamentar, o espírito democrático dele. Eu não digo nem 15, foram oito votos que o governo tirou dele e deu ao outro candidato [na eleição para presidente da Câmara Federal]. Eu conversei com quase todos os líderes partidários de hoje, os quais me fizeram convites. Digamos que eu achei que, dentre eles, o que mais se destacava, sem menosprezar os outros, com mais experiência, ética e seriedade, era José Thomaz Nonô. Isso me fez decidir: ?Eu acho que o caminho é esse?. Passamos um longo período conversando e tenho certeza de que é o caminho verdadeiro que, creio eu, deverá ser o meu daqui por diante. O deputado [Nonô] respeita minha maneira de pensar. Houve realmente uma mudança de pensamento, uma mudança de direção. O jovem é isso. Vive aprendendo, passando por situações difíceis para adquirir experiência, mudar seu ponto de vista para assim evoluir e chegar aonde ele almeja. ### QUEM É Nome: Diogo Amorim Gaia Duarte Idade: 22 anos Cargo: Vereador por Maceió Partido: PFL Formação: Estudante de Direito Hobby: Ir para a balada com os amigos no fim de semana