Política
Só não há impeachment por causa de um conluio
| ODILON RIOS Repórter O deputado federal Roberto Freire (PPS-PE) foi da base de apoio do governo Lula, está na oposição, reclama da política econômica e tenta explicar por que o PPS, herdeiro do extinto PCB, é coligado em Maceió com o PFL, representante da direita, e com partidos envolvidos no escândalo do mensalão, como PTB e PP. *** Gazeta - O Brasil vai hoje às urnas decidir pela proibição ou não da comercialização de armas de fogo no Brasil. Qual o seu voto? Roberto Freire- Vou votar sim, por não querermos o retrocesso, ou seja, a barbárie. O Estado moderno é criação recente e foi precedido por processos revolucionários que visavam construir sociedades que respeitassem os direitos das pessoas. Talvez a principal destas revoluções tenha sido a francesa (1789), a caminhada para impedir que questões de segurança, da vida, da garantia da propriedade fossem algo exclusivo de manutenção dos indivíduos. Cada um cuidava de si. Não acontece um pouco disso hoje? Não é verdade. Nossa propriedade está garantida. Claro que tem problemas de violência, mas não há uma violência indiscriminada, a lei da selva. Porém, o Estado parece não controlar mais o avanço da violência... O Estado consegue, claro que tem problemas, e tanto é verdade que uma lei como o Estatuto do Desarmamento diminuiu o número de homícídios por armas de fogo. Os dados de 1990 a 2003 eram de tendência de crescimento absurdo de mortes por armas de fogo. Tudo isso é comprovado. Esses governos, inclusive o de Lula, falham de forma clara nas suas atribuições, pouco é feito para ser melhorado, mas o que foi feito já melhora. Não falo do momento atual, mas de uma conquista da civilização humana.O monopólio da coação e, portanto, o uso de armas, deve estar com o Estado e não com indivíduos. Essa tese de que é um direito ter armas é esdrúxula. A arma não serve para outra coisa senão para matar. O fim do comércio de armas de fogo acaba automaticamente com a violência? Não, nunca se disse isso. Mas não tenha dúvida de que diminui. No contexto político, denúncias de corrupção, deputados na mira da cassação. Para o senhor, o PT era um partido corrupto e conseguiu corromper o Congresso Nacional? Avalio que o crime de corrupção sempre tem a participação de um ativo e de um passivo. Portanto, quando se fala em partidos do mensalão, tem que se começar com o PT. Até porque quando se fala em legendas de aluguel, tem que se admitir que nessa relação tem o locador e o locatário. O PL foi comprado no atacado para apoiar Lula, inclusive indicando o vice-presidente, por R$ 10 milhões, denúncia feita pelo presidente do PL [Valdemar da Costa Neto] e nunca desmentida. Para o senhor, então, é claro que o presidente Lula sabia de tudo isso? Esta semana tivemos o relatório do deputado Júlio Delgado e se mostra a responsabilidade do ex-ministro José Dirceu, responsabilidade de que não poderia não saber e alegar que tudo é culpa do doutor satânico, Delúbio Soares [ex-tesoureiro do PT]. Evidente que não é verdade. Isso pode ser aplicado ao primeiro escalão. É o Lula. Quem foi o beneficiado com tudo isso? A compra do PL e indicação do vice-presidente José Alencar, Lula não sabia? Lula não sabia quando loteou ministérios para alguns partidos que precisavam de diretorias de estatais? Ele exonerou ministros, pediu desculpas, interviu no PT. Não sabia o quê? Deve-se acabar com esse cinismo. Ele já praticou crime de responsabilidade, só não teve impeachment porque há um certo conluio de uma certa oposição, para não apurar tudo, um certo esfriamento. Espero que se apure tudo. Lula não pode ser considerado alguém que participava de tudo como um pateta. O PT era corrupto antes de assumir o poder? Aí é uma discussão para procurar saber quando é que o ovo da serpente surgiu. Se surgiu lá atrás, nas prefeituras do PT, se no rastro macabro da morte de Celso Daniel ou se começou quando eles assumiram o poder quando aparelharam o Estado, na base da compra de tropas mercenárias do que um processo de discussão política. O PT desfraldou a bandeira da ética, da seriedade. Foi quase uma continuidade de um terceiro governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O PPS era da base aliada do presidente Lula, depois foi para a oposição. Onde o diálogo se partiu? Nunca foi bom porque não integramos o governo de forma séria. Havia da parte do PT uma perspectiva de, por meio de assédio, inchar o PPS, tomar conta do PPS. Infelizmente, o ministro [Ciro Gomes, da Integração Nacional, hoje no PSB] que tínhamos era muito mais ministro do governo, se declarou favorável à reeleição de Lula sem ter conversado com o partido. A partir dali, o PPS foi vítima de um assédio. Não aceitamos, reagimos começamos a discutir questões políticas. Um governo dividido, que fez um ministério para atender às tendências do PT, os derrotados e ainda uma partezinha do loteamento para os partidos de sua base de sustentação. Nesse sentido, começávamos a discutir o que estávamos fazendo ali. Era um partido que começava a votar com seu processo de independência. Foi feito o afastamento. Estamos na oposição e bem, exigindo a apuração e não envolvidos nessa bandidagem. Ciro Gomes é visto como traidor no PPS? Não, ele apenas fez uma opção. Opção errada? Não, isso é um problema dele. Para nós, evidentemente, consideramos que ele estava errado. Ciro Gomes, por intermédio do governo federal, briga na Justiça pela transposição do Rio São Francisco. O projeto beneficiaria o Nordeste exatamente em quê? Esse é um assunto polêmico e não pode ser discutido apenas como uma briga entre estados ribeirinhos e os que iriam se beneficiar com a transposição. Acho que tem de analisar os custos e benefícios da obra. Se olharmos o que temos de potencial de irrigação às margens do São Francisco, sem nenhum grande custo de transposição, esse projeto não é o mais condizente agora. Se levarmos em consideração que temos populações às margens do São Francisco que não foram atendidas nas suas necessidades humanas por água, então, vamos ver que muito precisava ser feito sem este custo. Deve-se levar em consideração que alguns desses estados têm um volume de água já acumulado que talvez tornasse necessário melhor uso destas águas. Poderia ser uma solução muito mais racional e com custos menos elevados. PDT e PPS estão de namoro político no campo nacional, mas em Alagoas estão em lados opostos... Mas isso é em vários estados. Em Pernambuco não estamos no mesmo lado. Mas na maioria dos estados há bom diálogo, tal como em nível nacional. Em Alagoas, como o senhor acompanha essa divergência? Não é fácil para ambos os lados. Não tenha dúvida de que se tiver possibilidade de diálogo, que se busque. Não vamos dizer nunca que vamos aprofundar divergências. Vamos ter a capacidade de respeitar quando, em algum Estado, não se tiver nenhuma condição de ter unidade ou uma coligação ou uma aliança. Somos contra a verticalização por causa dessas diversidades. Quem tem que decidir são os companheiros de Alagoas. O PPS vai lançar candidato próprio em Alagoas ao governo estadual? Não sei, tem que se conversar com Régis [Cavalcante, presidente do PPS], o Anivaldo [Miranda, membro do partido], com o Rogério [Teófilo, deputado federal]. Mas, em nível nacional teremos. O Ibope nos deu 5%. O PDT e o PV já declararam apoio ao senhor ? Não. O que posso dizer é que o primeiro a estar bem próximo do PPS nesse projeto é o PHS. Estamos com uma relação próxima com o PDT e o PV. Vai resultar em apoio ou não? Vamos analisar tudo isso. Temos um projeto político, discutindo o papel do Estado, com capacidade de discutir prioridades de uma agenda de desenvolvimento e não um Estado que fique ausente e quem define são os agentes dos mercados, essa insensata taxa de juros, o problema da meta inflacionária. Acabar com essas políticas públicas sociais compensatórias, infelizmente criadas pelo PT, verdadeiras esmolas, dar vários vales. Isso é política de perpetuação da miséria. O PPS se coloca como um dos herdeiros políticos do PCB, mas no governo em Maceió participa do mesmo governo com PFL e partidos envolvidos no mensalão, como PTB e PP. Como entender isso? Talvez aí no Estado ninguém tenha sido envolvido diretamente, o que é uma coisa boa, não posso dizer a mesma coisa de Pernambuco, mas o Estado não é responsável por isso. O fato é que nos estados há problemas nos partidos. Avisei que ficar nos partidos envolvidos no mensalão não era uma coisa boa. Vai ter que ficar sempre explicando. Não é bom, mas temos que tomar um certo cuidado que, depois da passagem do PT pela presidência, não podemos ter a mesma lógica de alianças. Quem trouxe para o governo Paulo Maluf, José Sarney, Jáder Barbalho, todos esses processos de corrupção, foi o governo do PT. O que é ser esquerda hoje no Brasil? A esquerda no Brasil e no mundo nunca se envolveu com corrupção. Pode ter corruptos em seu seio, individualmente, mas a esquerda nunca, nem no Brasil, se aliou tão estreitamente à corrupção como o PT está fazendo. Precisamos mudar tudo isso. O PT demonstrou a fraude que é. Que mudança fez? Nenhuma. O governo de Lula não é governo de esquerda, associou-se às forças de direita para dar continuidade a uma política neoliberal. Esse governo é de direita e, ainda por cima, corrupto. ### QUEM É Nome: Roberto João Ferreira Freire Idade: 63 anos Cargo: Presidente nacional do PPS e deputado federal (PE) Formação: Direito, pela antiga Faculdade de Direito de Pernambuco. Hobby: Assistir a futebol