Política
Janeiro dá largada no jogo eleitoral
PETRÔNIO VIANA ODILON RIOS Repórteres O xadrez eleitoral para 2006 em Alagoas começou a movimentar suas pedras e aguarda para depois do carnaval a definição do presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros (PMDB), de ser ou não candidato ao governo estadual. Enquanto não define seu futuro, a senadora Heloísa Helena (P-Sol) já lançou suas cartas neste fim de semana. Em entrevista publicada hoje na Gazeta, ela confessa sua vontade de disputar o governo alagoano ou a reeleição ao Senado, com chances de vitória. Admite ter chances minúsculas com uma eventual candidatura à Presidência da República só iria para o sacrifício por causa do seu partido. A decisão do P-Sol sairá em março ou maio. Veja a entrevista de Heloísa na página A9 Já o vice-presidente da Câmara Federal, deputado José Thomaz Nonô (PFL), espera ter um trabalho intenso neste começo de ano eleitoral. O parlamentar se diz satisfeito com a composição de seu partido em Alagoas e acredita em um bom resultado nas eleições gerais. Somente na última semana de 2005, o deputado percorreu 14 municípios do interior do Estado. O PFL é o partido que mais cresceu em 2005. Temos a maior bancada da Câmara Municipal, inclusive o presidente da Casa [vereador Arnaldo Fontan], e a segunda maior na Assembléia Legislativa, observa Nonô. Na opinião do deputado, o crescimento do PFL se deve principalmente à sua atuação como vice-presidente da Câmara e à disputa pela presidência da Casa depois da renúncia do deputado Severino Cavalcante (PP-PE). Tivemos uma repercussão positiva durante a campanha e isso atraiu muita gente. Foram dois meses sem nenhuma notícia negativa, avalia. O deputado confirma sua intenção de disputar a vaga no Senado Federal em 2006, independentemente da candidatura do governador Ronaldo Lessa [PDT]. Lessa pretende disputar o Senado, mas sua eleição vai depender do posicionamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) que o tornou inelegível por três anos. A decisão só é válida se for confirmada pelo TSE. Mistério sobre nomes Sobre os nomes do partido que disputarão as vagas na Assembléia Legislativa do Estado (ALE) e na Câmara Federal, Nonô informa que somente haverá uma definição quando as eleições estiverem mais perto. O que está mais ou menos acertado é que, se eu disputar o Senado, o deputado Antônio Albuquerque vai sair para federal, conta. A política de alianças do PFL também só terá uma definição quando a novela da verticalização estiver concluída. O palpite de Nonô é que a questão deverá ser resolvida perto do carnaval, entre fevereiro e março. Se a conjuntura ajudar, devemos fazer duas coligações. Vamos aguardar a verticalização para ver o que os outros partidos vão fazer, diz. Nonô defende uma aliança com o PSDB já no primeiro turno das eleições, mas não descarta a possibilidade de o PFL lançar uma candidatura própria para a Presidência da República ou mesmo, no caso da verticalização ser mantida, não fazer coligação nacional para ter liberdade nos estados. Renan não entra em fria Em relação à disputa pelo governo alagoano, Nonô afirma não acreditar em uma candidatura do presidente do Senado. Eu acho que o senador Renan, hoje, já desempenha uma função muito importante para o Estado. Tudo leva a crer que Renan vai preferir permanecer como presidente, onde está. Ele trabalhava para ser o vice de Lula em 2006, mas eu nunca vi Renan entrar em barca furada, e essa seria uma eleição muito arriscada, aponta. A convenção nacional do PMDB será em abril. Para Nonô, Renan só deverá tomar uma decisão depois das prévias do PMDB, marcadas para março. Um dos mais fortes pré-candidatos do PMDB é o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho. ### Lyra diz que não desiste da candidatura a governador As convenções dos partidos, marcadas para junho, podem confirmar aquilo de que poucos duvidam no PTB: o deputado federal e empresário João Lyra será o escolhido para concorrer ao governo em 2006. Na sexta-feira, o deputado disse à Gazeta que não abrirá mão, em hipótese nenhuma, de concorrer ao governo este ano. Porém, a dúvida é se Lyra vai repetir a manobra de 2004, quando se colocava como candidato a prefeito e retirou-se para apoiar o então deputado estadual Cícero Almeida (PTB). Olha, na candidatura a prefeito, aquilo foi resultado de uma análise fria que fiz de um aspecto: chegar para toda essa população de Maceió, me eleger prefeito e depois, com dois anos, abandonar. Acho muito errado isso. Comecei a pensar, no princípio, em ser candidato a prefeito, mas aí fiquei pensando: em dois anos vou ter pretensões de ser candidato a governador, explicou Lyra. Renan Indagado se o principal concorrente dele ao cargo seria o senador Renan Calheiros, Lyra argumentou: Vou dizer, não sei qual o meu principal concorrente. Se for o Renan, ótimo. Não desisto em hipótese nenhuma de ser candidato a candidato, mas se for o Renan, maravilhoso, porque é um grande amigo meu e o povo de Alagoas é quem vai ganhar com isso, porque vai ter uma disputa em um nível completamente diferente de tudo que já existiu em Alagoas. Quando o assunto é o atrito político que surgiu entre o governador Ronaldo Lessa (PDT) e o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Celso Luiz (PMN) e diante da pergunta se Celso seria seu vice ao governo, João Lyra desconversa: Celso tem um grande futuro. Abílio O vice-governador Luis Abílio (PDT) pode ou não ser lançado ao governo estadual no ano que vem. Depende de Renan. No dia 15 de janeiro, PSB, PT e PCdoB vão conversar com o senador para tentar antecipar a resposta. Isso atrapalha o processo político, disse a presidente estadual do PSB, Kátia Born, sobre a indefinição de Renan. Na semana passada, o presidente regional do PT, deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão, não descartou a possibilidade de os petistas alagoanos lançarem candidato ao governo estadual. Isso aconteceria como reação à possibilidade de Renan apoiar o senador Teotonio Vilela Filho (PSDB) ao governo. Verticalização O ponto mais delicado mesmo é a verticalização que, se continuar a valer este ano, poderá colocar em palanques opostos, por ironia, Kátia Born e o governador Ronaldo Lessa. Mas, no PSB, não se descarta nem uma aliança branca, como aconteceu em 2002, quando Lessa foi apoiado pelos senadores Téo e Renan. Quem não se lembra do Ronaldo em 2002? Foi uma aliança branca. Não seríamos os ?brancos? porque a nossa definição política é nacional e a questão nacional não interfere na local, apontou Kátia, pré-candidata declarada a deputada federal. Por causa da possibilidade de permanência da verticalização, Abílio abandonou o PSB para se filiar ao PDT. No campo nacional, o PSB pode lançar candidato a presidente o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. O PDT ainda tenta uma ampla composição de oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com outros partidos. |PV e OR ### PSDB quer Renan, mas pode lançar Téo O senador Teotonio Vilela Filho (PSDB) adiantou, na semana passada, que pode disputar o governo do Estado se o senador Renan Calheiros (PMDB) não concorrer à vaga. A única decisão é que, se Renan for candidato, terá meu apoio, apontou o tucano. Nas discussões, segundo Téo, não se cogita a vaga de vice-governador nem a do Senado: apenas apontam-se nomes fortes, como classifica o senador, no partido: o dele próprio e o da ex-prefeita de Arapiraca, Célia Rocha. Ela concorreria ao Senado? Vamos ver, diz Téo. Conversas O senador tucano conversou com o governador Ronaldo Lessa (PDT) há duas semanas. Segundo Lessa informou à Gazeta, poderia sair dali a resposta sobre a candidatura ou não de Renan. Téo apontou o resultado da conversa: Foi um bate-papo em clima de fim de ano. Trocamos idéias, não houve definição sobre nada. Não pretendia ter uma decisão nessa conversa. Foi um balanço sobre a política local e nacional, afirmou o tucano. Ele chegou a se lançar candidato ao governo municipal em 2004, mas desistiu da disputa alegando problemas de saúde. Força A estratégia dos tucanos é robustecer Célia Rocha até março, segundo informou o secretário regional da legenda, Claudionor Araújo. Nas possibilidades cogitadas pela sigla, Célia seria candidata ao Senado ou uma possível vice-governadora não se sabe ainda de quem. Nosso trabalho é para ela ser senadora, diz Araújo. Nos últimos 30 dias, informou ainda Claudionor Araújo, a ex-prefeita de Arapiraca percorreu 35 municípios ouvindo as lideranças, a população e analisando os problemas das regiões. João Tenório Quem não deve entrar na disputa pela sucessão neste ano é o empresário João Tenório, suplente do senador Téo. Não está a princípio nos planos. Ele continua como suplente de Téo, confirmou Araújo. Fora dos planos, uma pretensa pré-candidata ao Senado começa a se insinuar: a presidente da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), Rosiana Beltrão (PMDB). Propostas existem, diz. Porém, o PMDB alagoano só movimenta seu pessoal sob as ordens de Renan. PV / OR ### Chapão do PMN só tem um para federal O PMN, partido comandado pelo presidente da Assembléia Legislativa do Estado (ALE), deputado Celso Luiz, tem a perspectiva de eleger em torno de 16 parlamentares na Casa de Tavares Bastos este ano. Durante boa parte do ano de 2005, Celso Luiz empenhou-se na formação do chapão, um grupo amplo de deputados que, disputando a eleição em conjunto, teria uma soma de votos capaz de eleger o maior número de deputados. O chapão, concluído em setembro, levou 15 deputados estaduais com mandato para o PMN, além de suplentes como Junior Leão e Antônio Holanda, e outras personalidades políticas que não estão ocupando cadeiras na administração pública, como o ex-deputado federal Luiz Dantas, Kathia Freitas, esposa do prefeito de Piranhas Inácio Loyola (PSDB), e Hélio Brandão, marido da prefeita de Joaquim Gomes, Amara Cristina (PTB). Ao todo, o PMN deverá lançar cerca de 25 candidatos à ALE em 2006. Liberdade O único candidato do PMN a uma vaga na Câmara Federal é o deputado Francisco Tenório. Mas, dependendo das coligações que o partido fizer, poderá apoiar outros candidatos a deputado federal. Na opinião de Tenório, o PMN terá a vantagem de não lançar candidato à Presidência da República, o que confere mais liberdade na hora de firmar alianças com outros partidos, uma vez que não terá que se preocupar com a manutenção ou o fim da verticalização. Tenório prefere manter a cautela em relação à candidatura do presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros (PMDB), ao governo do Estado. Para o deputado, Renan terá que medir de que forma poderá ajudar mais o Estado. Se ele [Renan] entender que ser governador será bom para Alagoas, ele vem. Se tiver a possibilidade de eleger um aliado, vai preferir ficar no Senado e assim teria duas vezes mais força, avalia. Para ocupar seu lugar na ALE, Tenório pretende deixar seu irmão, o advogado José Maria Tenório, também do PMN. Tenório observa que Renan, hoje, é um ponto de equilíbrio nas questões nacionais em que está envolvido. Renan deve pensar no Brasil. Ele tem capacidade até para disputar a Presidência. Alagoas se tornou pequena para ele. As questões nacionais precisam muito da sua atenção, comentou. |PV e OR ### Olho vivo no calendário eleitoral 2006 Um novo calendário vai estar na cabeceira dos candidatos a algum cargo eletivo este ano: é o calendário eleitoral, que já começa a determinar, a partir de hoje, primeiro dia do ano, que as empresas que realizam pesquisas de opinião relativas às eleições ficam obrigadas a registrar, na Justiça Eleitoral, as informações previstas em lei e em instruções expedidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme o calendário, disponibilizado no site do TSE. Juízes Em 20 de março termina o prazo para os tribunais eleitorais designarem os juízes auxiliares que vão participar das eleições, verificando a aplicação da lei. No dia 4 de abril, 180 dias antes da eleição, será o último dia para a direção nacional do partido publicar as normas para a escolha e substituição de candidatos e para formação de coligações. É também o prazo final para a desincompatibilização de cargos executivos. Neste mesmo dia, os agentes públicos, neste caso, o governador ou o presidente da República, não poderão dar aumentos ou fazer revisão geral de remuneração de servidores públicos que exceda à recomposição da perda de seu poder aquisitivo ao longo do ano da eleição. Convenções No dia 10 de junho, os partidos poderão realizar as convenções para a escolha dos candidatos que vão concorrer aos cargos eletivos. O prazo para as convenções partidárias vai até o dia 30 de junho, segundo o calendário. A partir de 1º de julho, não será permitida a propaganda eleitoral, muito menos governantes participarem da inauguração de obras públicas. PV / OR ### Primeiro turno será em 1º de outubro; segundo será dia 29 Apesar das convenções em junho, será no dia 5 de julho o último dia para a entrega ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do requerimento do registro de candidatura. Um dia depois, dia 6, será permitida a propaganda eleitoral nas ruas. Mas na TV e no rádio o guia eleitoral será veiculado a partir do dia 15 de agosto. Os comícios deverão ocorrer das 20h até meia-noite. Prisão A partir de 16 de setembro, nenhum candidato poderá ser preso ou detido, salvo no caso de flagrante delito, descreve a lei eleitoral. No dia 26 de setembro será a vez dos eleitores: nenhum poderá ser preso ou detido, salvo flagrante, até 48 horas depois da eleição. Ainda no dia 16 de setembro, será o último para a requisição de funcionários e instalações destinados aos serviços de transporte e alimentação de eleitores no primeiro e no eventual segundo turnos de votação, conforme a lei. O percurso dos eleitores nos transportes e os horários também se incluem nesta regra. Propaganda eleitoral O dia 28 de setembro, três dias antes das eleições, será o último dia para a divulgação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, para comícios e reuniões públicas eleitorais e também o último dia do prazo para realização de debates públicos entre os candidatos. No dia 30 de setembro, um dia antes da eleição, será o último dia para propaganda eleitoral mediante alto-falantes e amplificadores de som ou para a promoção de carreata e para distribuição de material de propaganda política, inclusive volantes e outros impressos, expõe a lei eleitoral. Em 1º de outubro de 2006, domingo, às 8 da manhã, serão abertas as sessões eleitorais, iniciando a votação. Às 17 horas, será encerrada. Até o dia 14 de outubro, a Justiça Eleitoral deverá divulgar o resultado da eleição. Segundo turno Dois dias depois, 16 de outubro, começa a propaganda eleitoral gratuita, no rádio e na TV, relativo ao segundo turno, onde ele houver. No dia 27, será o último dia para o guia eleitoral. O segundo turno, pela programação, será no domingo, dia 29 de outubro. Até o dia 19 de dezembro, os eleitos deverão ser diplomados. |PV e OR ### Eu adoraria disputar a eleição de Alagoas PLÍNIO LINS Editor de Política Dilema, diz o Aurélio, é uma situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas. Se é isso, a senadora alagoana Heloísa Helena (P-Sol) está hoje diante de um trilema. Ela tem poucos meses para decidir seu futuro político por um entre três caminhos: ser candidata à reeleição para o Senado, disputar o governo de Alagoas nos dois casos, ela garante ter chances reais ou obedecer ao projeto nacional do partido que criou, o P-Sol, e disputar a Presidência da República, uma empreitada em que ela própria reconhece ter minúscula chance de êxito. Na última quinta-feira, Heloísa deu à Gazeta a entrevista a seguir, para responder a essa e outras questões. Gazeta - Senadora, a senhora entra em 2006 mais como candidata à Presidência da República ou a um cargo majoritário em Alagoas? Heloísa Helena - Decidiremos entre março e maio. Se meus passos nos caminhos da política fossem marcados pelo carreirismo e oportunismo, eu jamais aceitaria a tarefa de disputar a Presidência. Nós, do P-Sol, reconhecemos humildemente a minúscula chance de vitória. Sei que tenho reais possibilidades de vitória na disputa pelo governo de Alagoas ou na reeleição ao Senado. Mas sei também que em 2006 não temos o direito de fingir estarrecimento diante do falso dilema entre neoliberais corruptos do passado e neoliberais corruptos do presente. Nas pesquisas mais recentes sobre a sucessão de Lula, seus índices variam entre 3% e 7%. Na sua opinião, é um bom ponto de largada? Claro que fico feliz com a generosidade do povo brasileiro. Mas tenho clareza do significado de uma disputa presidencial enfrentando adversários que são capazes de matar, roubar, caluniar, liquidar quem passe pela frente ameaçando seus projetos de poder. Sei como somos pequenininhos eleitoralmente. E minha vivência em Brasília me auxiliou a compreender as dolorosas tarefas que terei que enfrentar. Aprendi muito, especialmente no processo de expulsão do PT e neste mandato de senadora, e sei o que é de fato o mundo sórdido da política com seus rituais cínicos e esnobes, com suas punhaladas covardes pelas costas, com suas orgias luxuosas e casamentos de mentira, com seus porcos excelências chafurdando nas pocilgas do poder. Mas senti orgulho de mim mesma, porque posso olhar nos olhos dos meus filhos e do povo alagoano com a consciência tranqüila: não tenho preço, não me vendo e não me acovardo. E se as pesquisas em Alagoas mostrarem, a curto prazo, números bem mais expressivos para uma candidatura sua ao governo ou à reeleição para o Senado? A nossa definição se dará com base na necessidade de uma candidatura que represente a esquerda socialista e democrática para o Brasil. Eu adoraria mesmo disputar a eleição em Alagoas, para o governo ou o Senado. Mas se houver necessidade, terei que ir e farei a campanha nacional com alegria e combatividade. Se ganhar a Presidência, será maravilhoso para o Brasil e Alagoas. Se perder, ganharei muitos beijinhos sinceros, flores e bolo de chocolate na Universidade Federal de Alagoas. Imaginemos que a senhora, candidata a presidente, chegue ao segundo turno. Quem preferia enfrentar: Lula, Serra ou algum outro? Caso eu seja candidata e tenha a honra de estar no segundo turno, pode vir qualquer um, e (rindo muito) venha fervendo, porque eu estou em fase vulcânica! O P-Sol prefere que a senhora seja candidata a quê? Existe mesmo uma carinhosa polêmica sobre a decisão a ser tomada. Muitos militantes e simpatizantes preferem que eu participe da disputa estadual, onde há mais chance de vitória. Isso é fato. Como estão suas relações políticas com o governador Ronaldo Lessa? Dentro dos limites da civilidade e dos interesses de Alagoas. Superamos a fase entre tapas e beijos, e como eu gosto muito da mãe dele e do irmão, Reinaldo, tento me conter para as vezes não dar uma esculhambação bem grande. Tenho também uma relação muito respeitosa com velhos aliados de tempos difíceis, como Luis Abílio, Gonzaga, Marcos Vieira, Arnon Chagas e outros que não foram contaminados pelas nossas desavenças políticas. É curiosa essa relação política entre a senhora e o governador: aliados em 1992 na prefeitura, rompidos em 1996, aliados novamente em 1998 para o governo, outra vez rompidos em seguida, e no ano que passou a senhora ganhou até homenagem dele no Palácio. Explique essa relação política. Nem Freud explica! Em entrevista recente à Gazeta, o governador disse que, se a Justiça Eleitoral o mantiver inelegível, ele cogita apoiar a senhora para o Senado ou mesmo para o governo. Como a senhora reage a essa declaração? Aqui pra nós (rindo), já guardei o jornal, para gritar nos palanques o que ele disse, caso seja candidata contra ele para o Senado... Acho que foi uma demonstração de delicadeza política, ou para fazer ciúme a quem ele ama mesmo, para trocar alianças, a dupla Renan-Téo! Falando sério, tenho realmente conversado bastante com o governador sobre os graves problemas do Estado. Uma eventual derrota de Ronaldo Lessa no TSE pode provocar mudanças de planos em relação à sua candidatura? Melhor será lembrar o livro de Eclesiastes: Tudo tem seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Nas últimas semanas, a bancada federal de Alagoas tem conseguido ganhos em Brasília que aliviam o sufoco financeiro do Estado. O governador tem citado o senador Renan Calheiros e o deputado Aldo Rebelo que é alagoano mas não tem mandato em Alagoas como valiosos na ajuda ao Estado. E o seu nome, senadora, não aparece. A senhora está sendo boicotada ou se afasta das negociações? Diz a lenda que só os dois citados, e outros também ungidos pelo governismo crônico, trabalham por Alagoas. Mas eu já sofri tanto com essas maledicências que sempre lembro do poeta Mário Quintana: Da primeira vez que me assassinaram, eu perdi um jeito de sorrir que eu tinha.... Fico triste, mas nada suficiente para me seduzir a trocar minha liberdade de defender e lutar pelo que acredito pelo lambuzar do convescote do poder. Como a bancada alagoana está se saindo com as emendas ao Orçamento? Em relação à execução do Orçamento 2005, alguns, da base bajulatória, muitíssimo bem! Eu, pobre mortal, frita no óleo quente sob o sol africano! E no Orçamento de 2006? Na construção do Orçamento 2006, a bancada federal definiu programas essenciais para Alagoas em áreas importantes como irrigação, saneamento básico e abastecimento, educação, habitação e outras. O problema mesmo está sempre relacionado à velha metodologia balcão-de-negócios-sujos para execução orçamentária, a carcomida gestão pública pautada pelo fisiologismo, clientelismo, patrimonialismo e muito cinismo, para rimar. O P-Sol já tem uma posição oficial quanto ao recebimento ou devolução dos salários extras para a convocação extraordinária do Congresso? Se confiássemos nos tesoureiros que administrarão o dinheiro devolvido, faríamos com tranqüilidade. Há parlamentares do P-Sol que vão devolver os salários extras. Outros, como a senhora, falam em receber e doar a instituições. Optando pelas doações, o P-Sol não corre o risco de ser interpretado como mais um partido que sustenta financeiramente instituições filantrópicas, igual a outros que se beneficiam eleitoralmente disso? Com certeza, falarão! Mas nem Jesus Cristo agradou a todo mundo ao mesmo tempo: foi condenado e crucificado pela traição e covardia dos que estavam do lado do poder. Se nascesse hoje, com certeza, pobrezinho, ou estava jogado num hospício ou numa cela imunda, condenado por defender a luta e a libertação do povo de Deus. Imagine nós! Morar em Brasília durante sete anos e virar personalidade nacional mexeu com sua cabeça, com sua família? Meus amores maiores, que são meus filhos, nunca se deixaram impressionar por cargos e poder, porque sabem que são passagens nas nossas vidas. A dor maior sempre vem de compartilhar humilhações, tristezas, ameaças covardes, e tantos lamentos mais. Mas tenho orgulho das cicatrizes. Não me acovardei para servir ou ser servida no banquete farto dos palácios, e soube lutar pelo que acredito. Caminhei nos dolorosos caminhos da política, fazendo nascer um Davi por dia no meu coração, para derrubar os gigantes homenzinhos de alma pusilânime, suas vigarices políticas e o banditismo eleitoral. A senhora ainda bebe inspiração na água de sua fonte natural, que é Alagoas? Exatamente! Olha, na essência eu sou a mesma menina de tranças que corria livre na caatinga do sertão de Alagoas. Sempre compreendi que o meu mandato parlamentar é passageiro e não me fará uma pessoa melhor se eu me comportar como escrava do luxo e dos rituais esnobes do Senado. A gente deve, ao sair de casa todos os dias, esmagar a vaidade e cuspir no poder! Eu sou apenas uma trincheira de resistência e luta a serviço da classe trabalhadora. Sou uma mulher simples como qualquer outra, apenas com mais visibilidade provisória em função do meu trabalho. Mas às vezes também é bastante agressiva... Reconheço que às vezes sou exagerada e agressiva diante da vigarice política e das suas línguas ferinas e maldosas. Mas (rindo) sou um poço de ternura para quem é do bem! Sou como todas as mulheres que são educadas mas não domesticadas, que não aceitam a injustiça social e olham para os filhos da humanidade como gostariam que outros acalentassem seus próprios filhos. A senhora parece colocar as mulheres como sempre justas e os homens como sempre opressores e injustos. Reconheço que existem algumas mulheres que reproduzem a maldade e a injustiça, especialmente contra outras mulheres. Mas não tenho dúvida de que os componentes e a vivência do mundo feminino possibilitam o exercício da liderança com mais responsabilidade, honestidade, eficácia, disciplina. Com todo respeito a homens dignos com os quais aprendi e convivo hoje, inclusive meus dois filhos e muitos amigos, mulher é mesmo muito especial e genial! *** QUEM É Nome: Heloísa Helena de Moraes Carvalho Idade: 42 anos Cargo: Senadora (1º mandato) Partido: P-Sol Formação: Enfermeira e professora da Ufal Hobbies: Ficar em casa com os dois filhos, ler, costurar, cuidar de flores e de animais. (*) Colaborou Petrônio Viana.