loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Pagaram a aliados e não precisavam

Ouvir
Compartilhar

| PLÍNIO LINS Editor de Política Nos últimos 12 dias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esteve em férias em Alagoas com a esposa, dona Ruth, a filha Beatriz e dois netos, a convite do senador Teotônio Vilela Filho (PSDB). Em Viçosa, conheceu a casa onde viveu a avó materna. O resto do tempo, FHC passou na casa de praia da advogada Fernanda Vilela, na Barra de São Miguel. Ontem, antes de embarcar de volta para São Paulo, o ex-presidente recebeu a Gazeta para a entrevista a seguir. Gazeta - Na segunda-feira saiu o resultado da balança comercial brasileira em 2005: quase 45 bilhões de dólares de superávit, o maior da história. Isso é resultado do atual momento do Brasil ou do atual momento do mundo? FHC - As duas coisas. Houve condições internas muito favoráveis, que já haviam sido criadas antes, e um impulso muito forte no comércio internacional. O Brasil se beneficiou disso. O presidente Lula, na entrevista de domingo ao Fantástico, disse que outra vitória do governo dele é que nunca se distribuiu tanta renda no Brasil como agora. Aí eu tenho que discordar, e não sei se essa coisa de dizer nunca se fez tanto isso, nunca se fez tanto aquilo é exagero ou desconhecimento mesmo. O Plano Real distribuiu mais renda, os dados comprovam. Antes, o Plano Cruzado distribuiu renda. O presidente afirmou também que o governo dele investiu mais no social que o seu governo. Isso é fato? Mas é claro que cada governo tem que investir mais no social que o outro. A população cresce, as demandas são contínuas e crescentes, não há como escapar dessa realidade. O que se fez foi continuar o que vinha sendo feito. O governo Lula pegou os programas sociais do meu governo e transformou em um só. Mas o gasto social tem que crescer mesmo. O senhor tem ido muito ao exterior. Nas suas conferências, em entrevistas e conversas, o que o senhor percebe nas pessoas em relação ao que acontece no Brasil de Lula: curiosidade, interesse, perplexidade ou indiferença? Em relação à economia não chega a haver surpresa, porque as coisas eram mais ou menos previsíveis. Quanto ao problema político que está ocorrendo nos últimos meses, há bastante preocupação. O governo tem contabilizado como uma vitória a abertura de novos mercados no comércio exterior... A questão é que o governo do PT tem a mania de achar que inventou o mundo. O Brasil se preparou muito para competir no mercado externo. No nosso governo a agricultura se modernizou, a indústria adquiriu equipamentos e máquinas, em todos os setores industriais houve avanço tecnológico, o parque gráfico passou por uma transformação imensa, o parque têxtil também. Eu tenho a serenidade de dizer que nós fizemos uma grande abertura para o Brasil no comércio exterior, mas não a inventamos, como o governo do PT pretende se proclamar inventor. Isso veio de antes. No governo Collor foi dada a largada para a abertura comercial brasileira, depois ela prosseguiu no governo Itamar, avançou no meu governo, e tem que avançar sempre. Líderes do PSDB falam em acabar com a reeleição. O senhor acha que a população vai entender essa proposta vinda do seu partido, depois de o senhor ter sido reeleito? Não, e eu sou a favor da reeleição. Um governo de quatro anos, sem reeleição, realmente é um período muito curto. Eu mesmo experimentei o que é isso. Em 1996, no segundo ano do governo, já havia pessoas se lançando à sucessão dentro da nossa aliança. Com mandato de quatro anos e sem reeleição, no período final não se pode governar porque o pólo de poder político muda de direção, já está lá com o candidato. Bom, a sucessão já está deflagrada. O senhor pensa em ser candidato? Eu estou fora. Estou fora por razões pessoais e políticas. Tenho muita coisa para fazer. E até por causa da idade na época da eleição estarei com 75 anos. Estou terminando um livro... Sobre o seu governo? Também sobre o governo. E quando sai? Sai agora em março. Voltando à sucessão, o senhor é o grande eleitor do PSDB. Se não será candidato, qual vai ser seu papel na campanha? A minha contribuição eu vou definir com o senador Tasso Jereissati, presidente do partido. E quanto à definição entre os três nomes mais fortes o prefeito José Serra e os governadores Geraldo Alckmin e Aécio Neves? Há tempo para isso. São três excelentes nomes, todos com muita possibilidade de vencer a eleição. Um dos temas fortes na campanha será, com certeza, a questão ética, por causa dessa crise que afeta o PT, o governo e partidos aliados. O PSDB vai para a campanha com esse discurso? O PSDB nunca se apresentou como vestal da virtude, como o PT reivindicou o monopólio da ética. Não se pode cair nesse discurso udenista. Vamos falar de eficiência na administração, de crescimento econômico, da necessidade de poupança e de investimento. É preciso criar condições para investimento no País. As denúncias de caixa dois atingiram o presidente do seu partido, senador Eduardo Azeredo (MG), no período da sua presidência, e o senhor foi criticado por ter dito o que aconteceu no meu governo é passado, a crise é agora... Mas eu não disse isso. Publicaram errado o que eu falei e foi preciso que corrigissem depois. Eu disse que fatos acontecidos antes não podem servir de pretexto para encobrir o que está acontecendo agora no governo. Sobre o mensalão: o governo alega que as reformas foram aprovadas no Congresso com votos da oposição PSDB e PFL e portanto não houve mensalão. Mas aí é que está: não precisava. Pagaram para aliados e nem precisava! Além da questão da ética, qual seria outro grande tema na próxima campanha eleitoral, a seu ver? A violência, sem dúvida. A insegurança das pessoas, sobretudo nos grandes centros, o tráfico, os crimes em geral. A população está assustada, insegura, não se sente em segurança nem dentro de casa. Acho que vamos ter que discutir a violência durante a campanha. E a política aqui em Alagoas, presidente, o senhor tem acompanhado? Tenho, sim, e olha: acho que está na hora de o Téo Vilela disputar o governo de Alagoas. Ele diz que topa ser candidato se o senador Renan Calheiros não quiser disputar o governo. Não sei se o senador Renan vai ou não ser candidato, mas acho que o Téo tem tudo para disputar e vencer a eleição. O senhor está em Alagoas desde antes do Natal. Há quanto tempo o senhor não tirava um período assim de férias? Realmente, faz tempo. Quando era presidente, às vezes conseguia esticar um fim de semana, um feriado, mas não com essa liberdade nem com todo esse tempo. E nem em um local tão agradável. Nós em Alagoas somos meio vaidosos das nossas águas as salgadas e as doces. E têm todos os motivos para essa vaidade. A cor do mar, a temperatura da água... Olha, eu estive no Caribe, em muitos lugares do mundo, e em poucos deles vi um mar tão bonito como o de Alagoas. Estive em Bali, e não é tão bonito. Certos pontos do litoral do Rio e de Santa Catarina também são dos mais belos do País, mas lá a água do mar é fria. Aqui ela tem a temperatura certa, não dá vontade de sair. E tem outra coisa diferente, talvez única: essa brisa. Em toda parte tem a brisa refrescante, nunca faz calor demais. E, além disso, as pessoas são agradáveis. Os alagoanos não são muito expansivos... Mas têm calor humano, a gente percebe. E eu confesso que prefiro mesmo as pessoas mais contidas, porque eu também não sou expansivo. ### QUEM É Nome: Fernando Henrique Cardoso Idade: 74 anos Cargos: Ex-senador, ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda (governo Itamar) e ex-presidente da República. Partido: PSDB Formação: Sociólogo e professor

Relacionadas