Política
Políticos e líderes comandam periferia
| ODILON RIOS Repórter Madrugada em uma grota do Benedito Bentes. A mando de políticos, um líder comunitário cobre o rosto com um capuz e, com a ajuda de policiais, desce as ladeiras de barro. Aponta para um casebre. Seguindo a orientação do dedo-duro, os policiais invadem o local e executam um suposto traficante da região. A cena é comum na periferia da capital e mostra, até certo ponto, as ligações perigosas entre líderes comunitários, policiais e parlamentares, mandando e desmandando em regiões onde a lei do mais forte transforma garantias individuais em peça de ficção. Parte dessas ligações com políticos veio à tona na semana passada, com o assassinato do líder comunitário Edvaldo Guilherme da Silva, 44, conhecido como Baré-Cola. Cabo eleitoral de vários políticos, recebeu oito tiros no dia 14. Apesar do Departamento Metropolitano de Polícia (Demep) investigar várias hipóteses para o crime, a suspeita mais forte vai para um político. Se confirmada a hipótese de crime político, a morte teria sido encomendada através de um consórcio, ou um parlamentar teria se sentido prejudicado com as ações de Baré-Cola, seu antigo aliado, em seu reduto eleitoral. Preço da execução: R$ 5 mil. A Gazeta constatou, em comunidades pobres de Maceió, que a existência de um vereador, deputado federal ou estadual em determinado local, é praticamente obrigatória para se calçar uma rua, conseguir um médico para o posto de saúde ou construir um terminal de ônibus. Em troca, o político recebe votos, perpetuando sua influência política e eleitoral. Para garantir o comando em determinada região, o parlamentar paga caro: alguns líderes comunitários recebem entre R$ 5.000 e R$ 20.000. Eles têm a função de arrebanhar eleitores ou agir como alcagüetes, apontando pessoas incômodas na comunidade. Maioria O inquérito sobre o caso Baré-Cola não está concluído pela polícia, mas no velório do líder comunitário, segundo o deputado estadual Dudu Albuquerque (PSB), a maioria das pessoas já sabia quem teria sido o mandante do crime, e o próprio deputado acreditava na idéia da maioria. Várias vezes indicavam os possíveis mandantes, disse Albuquerque, na semana passada, quando acompanhava a viúva do líder assassinado, Ana Adélia, à Secretaria de Defesa Social. Tenho uma visão parecida com a da maioria sobre aquilo que vi naquele momento. Segundo o deputado, é totalmente comum a aliança entre líderes comunitários e políticos no Estado. Eu, particularmente, tenho trabalhado desde o primeiro mandato com lideranças comunitárias. Em Arapiraca, temos uma entidade chamada Unamar, que comanda 76 associações comunitárias. A associação é o instrumento legal para que possamos, por meio do Estado, do município, do governo federal, levar ações para o desenvolvimento daquelas comunidades. Em Maceió, Dudu diz que realiza o mesmo trabalho. ### Querem ser donos da área à força No território de Baré-Cola estão bairros próximos como Joaquim Leão, Vergel do Lago, Trapiche da Barra e Ponta Grossa, reduto político do deputado Marcos Barbosa (PTB), do vereador Walter Pitombo Laranjeiras, o Toroca (PTB) e, mais recentemente, de Dudu Albuquerque. Interessante é que Barbosa e Toroca são do grupo político do deputado federal João Lyra (PTB), pré-candidato ao governo. Albuquerque é apoiado pelo governador Ronaldo Lessa (PDT) facções rivais na política alagoana. A viúva de Baré, Ana Adélia, diz que as relações entre seu marido e políticos eram antigas. O primeiro candidato com quem ele começou a trabalhar foi o deputado Temóteo Correia, nas quatro eleições. Depois, só com o Toroca. Depois, em comum acordo com o Toroca, ele passou a trabalhar para o Dudu, disse. Questionada se Baré-Cola errou ao ter relações com políticos, ela nega. Só através de políticos a gente consegue as coisas. Não tem outro caminho. Acho arriscado ser líder comunitário por causa da maneira que a política está trabalhando. Eles querem ser donos de uma área à força. |OR ### Uma mão lava a outra e dá votos a político Na periferia de Maceió, os líderes entrevistados pela Gazeta negam a interferência de políticos nas entidades, mas não negam que parlamentares são os responsáveis pela maioria das obras ou benefícios levadospara suas áreas. Há até líderes que estão à procura de um político. No Clima Bom, a prefeita comunitária, Eliane Lima, mostra a sede, alugada por R$ 250, da associação. Moradora do bairro há 29 anos e tentando evitar a venda do prédio pelo dono, Eliane fala da sua amizade, como classifica, com o vereador Galba Novaes (PL). Garante não misturar política com ações na comunidade, mas fala que foi indicada para a direção do Posto de Saúde Djalma Loureiro, no mesmo bairro, graças à amizade com o vereador. Aqui na prefeitura comunitária não existem sócios. Todo o trabalho é realizado voluntariamente, contou. Na prefeitura distribuem-se sopas e são organizados cursos de corte e costura e oratória. Outros dois vereadores também ajudam a comunidade, como ela destaca: Marcos Alves (PDT) e Dudu Holanda (PTB). É difícil trazer melhorias para a comunidade sem os vereadores. Falta muita coisa aqui e o primeiro item é segurança, conta a prefeita comunitária, reforçando: Não sou cabo eleitoral de nenhum político. Como prova da separação entre o trabalho político e as ações da Prefeitura Comunitária, ela diz que as reuniões com os políticos são feitas no miniauditório da Escola Estadual Maria Salete de Gusmão, no bairro. A diretora, Zilma Ferreira, garante não envolver a escola nas questões eleitorais. Já fizemos reuniões com o deputado federal Maurício Quintella (PDT), os vereadores Marcos Alves, Dudu Holanda, Galba Novaes e José Márcio (PTB). Segundo ela, até a Igreja Católica se reúne com a comunidade. |OR ### Procura-se político. Tratar no Village II Nas comunidades que se dizem beneficiadas por políticos, existe uma relação de troca: o parlamentar consegue levar algumas melhorias para a região e, como pagamento inicial, se transforma em paraninfo de turmas de segundo grau de escolas estaduais ou municipais. Ou aparece em inauguração de obras, como símbolo da luta incansável por benfeitorias. As expressões foram ouvidas pela reportagem na semana passada, em visita às regiões pobres da capital. Mas não é em todo lugar que isso acontece. No Village Campestre II, o presidente da Associação Comunitária, José Domingos, o Zé Galego, procura um político para adotar o local. Ruas sem asfalto, lixo apodrecendo no calçamento e falta de segurança são os principais problemas. A gente quer mesmo é melhorar o atendimento no posto de saúde. Nós temos 50 mil pessoas morando aqui, mas só duas mil famílias têm o cadastro para ir ao posto, conta. O cadastro a que Zé Galego se refere é o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). Só conseguimos as coisas com políticos. Estamos na luta por um corredor de transporte. O prefeito disse que entregaria em setembro. A gente espera até o dia 25 de janeiro. Se não vier, vamos fechar o terminal do Graciliano Ramos, ameaça o líder. O prefeito Cícero Almeida reagiu à declaração. Dinheiro O político que ajudava, como dizia Zé Galego, a comunidade era o então vereador Carlos Ronalsa, hoje secretário municipal de governo. Ele disse que voltaria aqui para nos ajudar, afirma. Pelo visto, até sexta-feira, não se tinha notícia da ajuda de Ronalsa à comunidade. Não trabalhamos como cabo eleitoral, até porque ninguém nos apóia, queixa-se Galego. Próximo dali, no Conjunto Graciliano Ramos, o presidente da Associação Comunitária, Edivaldo Aurélio dos Santos, garante não ser cabo eleitoral de políticos, mas diz que a associação foi procurada por dois deputados federais: Benedito de Lira (PP) e Givaldo Carimbão (PSB). Os cabos eleitorais deles vieram aqui. Mas só queremos projetos para nossa região. Antes, vinha gente me oferecendo R$ 5 mil a R$ 20 mil. Não queremos. De acordo com Edivaldo Santos, as experiências do passado com políticos, quando a associação era comandada por pessoas ligadas ao deputado estadual Francisco Tenório (PMN), não trouxeram benefícios ao Graciliano Ramos. Quando mistura com política, acaba com a paróquia. Um presidente da associação, conhecido como Geraldo, foi assassinado há oito anos. Ele tinha problemas lá em Anadia. Não tinha nada a ver com a associação, garante Santos. OR ### Gonçalves, Vieira e Genilda ajudam vila no Dique Na Associação dos Moradores da Vila São Francisco, no Dique Estrada, o presidente José Macedo disse que o deputado Gilberto Gonçalves (PFL) é o político da região. A comunidade está esperando uma ambulância, que ele ia dar à gente, cobrou o presidente. Outras pessoas, com cargos considerados ilustres, também apareceram na associação: a secretária extraordinária do Microcrédito, Genilda Leão, e o superintendente do Sebrae em Alagoas, Marcos Vieira. Isso foi há muito tempo, lembrou. A ambulância, chegando ou não, pouco vai alterar a disputa política em torno da direção da associação, cuja sede está em reforma e fica por coincidência ao lado da casa do presidente. Reclamações se multiplicam: faltam segurança e saneamento básico. O lugar também virou ponto de execução de pessoas ligadas ao tráfico de drogas. Uns três ou quatro aparecem mortos por mês por causa disso, aponta Macedo. Trazemos políticos para cá, mas não para fazer campanha garante Macedo. Não sou cabo eleitoral. Político nenhum vem aqui dizer que fez alguma coisa ou que não fez. O presidente da Federação das Associações Comunitárias de Maceió (Facom), Reinaldo Cabral, reclama da aproximação entre políticos e lideranças comunitárias da capital, e chega a chamar de promiscuidade as relações entre os lados. Recomendamos às lideranças dos bairros, como ao Baré-Cola, que cumprissem o papel de liderança comunitária, ou seja, ouvir, encaminhar as reclamações dos moradores, promover eventos, explica. Porém, de acordo com Cabral, isso não vem acontecendo. Um exemplo que não deve ser seguido é uma liderança vestir uma balaclava [capuz] e ir a locais para dedurar traficantes. Isso acontece no Benedito Bentes, afirmou. O Baré-Cola representava essa promiscuidade, um exemplo a não ser seguido. |OR ### Emendas aumentam influência política A ligação entre políticos e lideranças comunitárias faz parte de um jogo que está longe de acabar, e envolve também as emendas aos orçamentos dos governos estadual e municipal. O parlamentar tenta emplacar suas emendas ao orçamento, garantindo obras e aumentando sua influência nas lideranças comunitárias. Este ano, depois de pressão de deputados, o governo estadual liberou as emendas dos parlamentares, no valor de R$ 5,5 milhões. A maioria delas vai para ambulâncias, doadas a municípios, ou para associações comunitárias. Em alguns meses, os políticos entregam obras ou ambulâncias, alimentando a máquina eleitoral. Ja na Prefeitura de Maceió, enquanto uma briga política com a Câmara, por causa de emendas vetadas, parece longe de acabar, o Diário Oficial do Município (DOM) publicou, na sexta-feira, as emendas promulgadas, no Legislativo, pelo presidente Arnaldo Fontan (PFL): construção de uma ciclovia entre os bairros de Cruz das Almas e Jatiúca, construção de corredor de transporte no Conjunto José Tenório, obras no bairro do Pau d?Arco, no Jacintinho, construção de escadarias no Feitosa, recuperação de centro comunitário no Santo Eduardo e drenagem de ruas no Vergel do Lago. Elas serão mantidas e executadas no orçamento deste ano. Reclamando da atitude do líder comunitário do Village II, que quer fechar o conjunto para pedir a construção de um corredor de transporte, o prefeito Cícero Almeida (PTB), em entrevista na última sexta-feira, disse que atendeu a mais de 50 associações comunitárias, com um grupo de trabalho na prefeitura. O que acontece é que as cobranças estão sendo imediatas, mas essas pessoas que cobram hoje passaram esses anos todos e não faziam isso, nem tampouco eram recebidas, completou Almeida. Estamos com a prefeitura em todos os bairros, toda a periferia de Maceió, onde imaginar temos uma obra, no Sítio São Jorge, Moacir Andrade, Fernão Velho, Santos Dumont, vamos iniciar na próxima semana o corredor do Village Campestre. O prefeito não falou da influência de políticos para apressar obras na periferia da capital. Sobre a manifestação no Village II, perguntou: Porque esperaram tanto tempo?, referindo-se aos governos passados. OR