loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Violência deve ser maior tema da campanha

Ouvir
Compartilhar

| LUIZA BARREIROS Repórter Aos poucos, e de forma cada vez mais contundente, o noticiário político vem sendo tomado por notícias ligadas à área de segurança pública: casos de pistolagem envolvendo assessores de políticos; suspeita de envolvimento de deputado estadual com uma gangue de seqüestradores liderada por um vereador de Rio Largo; sucessivas crises no sistema prisional que revelam superlotação e necessidade de realização de concurso para agente penitenciário. Na última semana, o assalto à casa de praia do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Estácio Gama de Lima, em Paripueira, levou o procurador-geral de Justiça, Coaracy Fonseca, a pedir mudanças na cúpula da polícia e sugeriu que houvesse intervenção federal na segurança pública de Alagoas. No mesmo dia, o governador em exercício, Luis Abílio de Souza (PDT), mudou os comandos da Secretaria de Defesa Social e da Polícia Militar de Alagoas (PM). Esse cenário faz com que, a oito meses da eleição, tenha se estabelecido um quase consenso entre políticos de diferentes correntes ideológicas: o tema da violência deverá ser um dos principais assuntos do debate político na campanha para as eleições de 1º de outubro em Alagoas. Nomes do PT, PSDB, PTB e até do PDT governista admitem que a segurança estará no centro da discussão entre os candidatos. Tanto que, ao reagir às críticas feitas pelo chefe do Ministério Público, Luis Abílio que aparece como pré-candidato alternativo ao governo no grupo liderado pelo governador Ronaldo Lessa (PDT) acabou assumindo um discurso de governador, cargo que ele deverá assumir a partir de 31 de março, quando Lessa se afasta para disputar a eleição para o Senado. A ordem sempre foi e será colocar na cadeia o bandido rico e poderoso ou o pé-de-chinelo, discursou Abílio, recebendo aplausos, na solenidade de posse dos novos secretários, realizada na sexta-feira. Nos discursos e nas peças institucionais do governo, a linha tem sido a mesma: dar respostas à sociedade sobre a questão da criminalidade, seja prometendo realizar este ano concurso para contratar mil policiais militares ou citando dados sobre o aumento do custeio da segurança, que conta hoje, por exemplo, com 500 viaturas. Outro tema recorrente nos discursos é o fim da politicagem na nomeação de delegados no interior do Estado. Hoje nem o próprio governador pede saída de delegado de onde quer que seja, comparou. Abílio disse à Gazeta que concorda que a segurança pública será um dos temas que irão pautar a campanha. Mas garante que isso não será problema para o candidato do governo. Mais uma vez, a oposição será derrotada porque a população é testemunha do esforço do governo para combater a violência, disse. Se as cadeias e presídios estão lotados, é porque a nossa polícia cumpre seu papel. ### Eleitor deve ver a história política de cada candidato Para a socióloga Ruth Vasconcelos, quando um assunto complexo como a violência se torna tema central de uma campanha eleitoral, é necessário que o eleitor saiba que a análise da história política de cada candidato pode ajudar a descobrir quem está falando a verdade. Essa busca pela história acontece pela participação no processo eleitoral, por meio do acompanhamento de debates, por exemplo. Ela lembra que em 1998, quando Ronaldo Lessa, então no PSB, disputou e venceu a eleição contra o então governador Manoel Gomes de Barros, a violência foi o tema dominante no debate. Aquela campanha foi marcada pela disputa no campo discursivo sobre a violência, observa a professora. No ano passado ela analisou, numa tese de doutorado que virou livro, a relação entre o poder e a cultura da violência em Alagoas. Segundo Ruth Vasconcelos, o então governador Mano era candidato à reeeleição e assumiu um discurso em que predominava uma política contra a impunidade e o crime organizado. Um dos principais feitos do então governador foi a prisão do ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante, acusado de ser o líder da gangue fardada. Ele [Mano] afirmava por intermédio da imprensa seu empenho, coragem e determinação para romper com o crime organizado, produzindo um discurso que expressava ruptura com a impunidade e o fim da conivência com o crime organizado, observa a pesquisadora. Ela lembra ainda que o discurso do então governador e candidato à reeleição que pertencia ao grupo político conservador que estava no poder havia mais de 30 anos acabou se apropriando do discurso das esquerdas. O então governador tomava para si a missão de acabar com o crime organizado. Só depois a esquerda percebeu que ele [Mano] estava se apropriando do seu discurso e reagiu, lembrando sua histórica política, observa. Naquele debate público, o então candidato a governador Ronaldo Lessa tomou para si a missão da esquerda de colocar as coisas nos seus devidos lugares, lembra Ruth. Lessa declarou na imprensa, naquela época, que achava ótimo combater a violência, mas que cabia à esquerda lembrar que Cavalcante e sua gangue não eram a máfia, mas sim o braço armado da máfia, e que havia anos a esquerda denunciava o crime organizado e o sindicato da morte, assinala a pesquisadora. No livro dela, consta um pronunciamento feito por Lessa em janeiro de 1998, que demonstra bem o tom a que o debate chegou: Há anos estamos apanhando em praça pública, tendo nossa vida ameaçada. E tudo isso para esses senhores, a quem esses assassinos serviam, agora quererem se apropriar do discurso? Só se fôssemos idiotas para permitir isso. Papéis No pleito deste ano, quando o cargo que será disputado terá sido ocupado por Ronaldo Lessa por dois mandatos consecutivos, o candidato apoiado por ele será cobrado também pelo que foi ou não foi feito em seu governo. Que Lessa participou da luta contra violência não há dúvida. Mas isso não o imuniza para sempre. Como ele assumiu o poder, é preciso conferir, mostrar de fato o que foi feito para combater, reduzir a violência ou trazer mudanças significativas no campo da segurança. Para a pesquisadora, em 1998 era mais fácil para o grupo de Lessa ter a violência como questão central na campanha. Era mais fácil para Lessa se apresentar como alternativa porque ele nunca havia estado no poder no âmbito estadual, avalia. Agora, do mesmo jeito que os coronéis atacados por ele no passado, o governador ou o candidato apoiado por ele será alvo de avaliação. Ruth Vasconcelos alerta ainda que o eleitor deve ficar atento ao conteúdo dos discursos sobre violência. Não dá mais para ficar dizendo qualquer coisa sobre violência. É preciso uma análise mais refinada, mais sofisticada. E para isso é necessário admitir que a violência não é só uma questão de polícia. Para ela, é necessário haver um plano de segurança aliado a uma série de outras ações pontuais do governo, oferecendo à juventude opções que sigam o caminho do esporte, cultura e emprego e possam elevar a auto-estima. Não se pode atribuir somente à ineficiência da polícia o caos que estamos vivendo, disse. É preciso se antecipar à criminalidade com ações preventivas, e não somente atuar em ações repressivas, complementou. Para a socióloga, a questão da violência também está ligada à crise de valores, autoridade e referências. Dizer simplesmente que a criminalidade está ligada à miséria não é suficiente. É preciso acrescentar outras variáveis, inclusive no campo subjetivo, ligadas à formação que o indivíduo teve, a valores culturais, sendo isso que nos leva a entender que nem toda pessoa que está na miséria transforma-se automaticamente em criminosa, assim como pessoas que não vivem carências no campo econômico acabem seguindo esse caminho, observou. A socióloga admite que não há uma resposta fácil para a questão da violência. O eleitor deve ficar atento ao discurso do candidato, porque não é verdade que alguém tenha uma fórmula pronta para resolver o problema de uma hora para outra, alerta. Isso será fruto de uma construção coletiva onde Estado, sociedade e os sujeitos se impliquem nessa questão como um problema coletivo e não individual. |LB ### Dos tucanos ao PT, tema é considerado o mais delicado A ex-prefeita Célia Rocha (PSDB), o deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), o deputado federal João Lyra (PTB) e o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Celso Luiz (PMN), também declararam nas últimas semanas considerar que o tema segurança pública pontuará a campanha eleitoral. A segurança pública será o principal tema da campanha. Dividirá espaço com a questão da dívida pública, opinou Célia Rocha, que é apontada como pré-candidata ao Senado ou a vice-governadora. Para o deputado Paulão, o governo será levado a dar explicações sobre o grande número de policiais militares que deixam de estar nas ruas para ficar à disposição de assessorias militares de órgãos e autoridades. Em alguns casos é até necessário, mas ter mil homens, de uma corporação de sete mil, fora da atividade-fim é uma anomalia, avaliou. Lyra Único pré-candidato declarado ao governo do Estado, João Lyra diz considerar importante que uma pasta como a segurança pública seja colocada uma pessoa especializada, com profundo conhecimento na área operacional. A violência tem causas sociais e discuti-la passa também pelo tema geração de emprego. |LB

Relacionadas