loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 23/07/2026 | Ano | Nº 6273
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Candidatura de Heloísa pode ser mortal para Lula

Ouvir
Compartilhar

| PETRÔNIO VIANA Repórter O professor Gildo Marçal Brandão, do departamento de Ciência Política da Universidade da São Paulo (USP), autor de diversos artigos sobre a conjuntura política contemporânea, publicados em jornais e revistas de circulação nacional, em entrevista exclusiva concedida à Gazeta, avalia que a possível reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai depender principalmente da classe média brasileira que, nas eleições passadas, deu um voto de confiança ao presidente. Brandão comentou ainda a candidatura da senadora alagoana Heloísa Helena (P-Sol) à Presidência da República nas eleições deste ano e as alternativas do presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros (PMDB), caso seja confirmada sua desistência em disputar o governo estadual. Gazeta - Quem sai beneficiado ou prejudicado pela queda da verticalização das alianças partidárias? Brandão - Eu acho que o máximo que se pode dizer é se beneficia ou prejudica a formação dos blocos políticos rumo à democratização. Esse é um País federativo. A diversidade política regional é muito grande. Qualquer tentativa de forçar, de cima para baixo, uma ?verticalização?, é algo que desrespeita a realidade de que cada Estado tem uma política diferente. Nas condições de hoje, verticalizar significaria transportar para o resto do país um conflito que é basicamente paulista. Só em São Paulo você tem um conflito tão acirrado entre PT e PSDB. No resto do País, o conflito existe, mas as relações são outras. Sem a verticalização e deixando que as forças políticas se armem ao longo do tempo, será mais produtivo e mais democrático. O senhor concorda com o financiamento público de campanhas eleitorais? Em princípio, eu seria favorável, mas isso é complicado. O problema é conseguir o controle disso. Como é que você consegue diminuir a vulnerabilidade do financiamento público à corrupção. O financiamento público, por si só, seguramente não resolve o problema. Eu acho que a gente vai ter que combinar. O financiamento público tem que estar de um lado e outras medidas de fiscalização, de controle, acompanhamento, de outro. Na sua opinião, quais são as chances do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reeleger nas eleições deste ano? Isso é delicado. Qual é o quadro que está se desenhando no País? Você tem duas forças políticas com capacidade de dirigir o País. Tanto o PT quanto o PSDB têm quadro, programa, uns mais outros menos. Mas tem uma coisa: hoje, a quebra da imagem do PT foi muito profunda a meu ver. Basta observar os índices negativos em relação ao presidente Lula. O problema seria saber o que esses dois partidos que seriam a direção política do País têm a oferecer nesse segundo governo. Todos eles já exerceram o governo. O que eles têm a oferecer de novo? Não há uma ruptura significativa entre o que foi o PSDB de um lado e o que foi o PT de outro. O próximo governo vai continuar isso, seja ele qual for, ou vai introduzir algumas mudanças? Isso é o que nos interessa saber. O programa que foi executado tanto pelo PSDB quanto pelo PT se esgotou. O essencial está feito, para bem ou para mal. Isso eu acho que é decisivo. Até agora não está claro o que eles estão propondo para o País e esse é o problema decisivo para o eleitor. Como o senhor avalia uma candidatura própria do PMDB para a Presidência da República? Todas essas coisas ainda estão muito no ar. O PMDB é um partido decisivo, embora não possa mais ser núcleo de uma aliança porque só o PT e o PSDB têm condições de dirigir o País, no sentido de organizar alianças e propor mudanças. No entanto, nenhuma dessas políticas pode ser levada adiante sem o PMDB. Ele é todo dividido, mas é profundamente enraizado no resto do País. Para onde o PMDB se inclina, o País pode caminhar. Por isso essa divisão entre os que são a favor do Lula, os que querem seu próprio candidato, os que apóiam Serra ou Alckmin [Geraldo, PSDB, governador de São Paulo]. Como fica o PT sem o apoio do PMDB para as eleições deste ano? Se eu fosse analisar as possibilidades e os limites de cada partido, eu diria que aí reside um dos grandes problemas do PT. Ele tem o PSB, o PCdoB, aquele velho grupo de esquerda com ele. Ele vai governar com quem? Ele vai governar com uma parte do PMDB. O bloco do primeiro governo do Lula é frágil, não tinha nenhuma organicidade, tanto que a coisa caiu na base do toma-lá-dá-cá, na base da corrupção. Muito provavelmente, Lula e PT não caminham mais juntos. O Lula hoje é um candidato suprapartidário. O PT está indo cada vez mais para a esquerda, e o Lula para a direita. Eu não acredito que no final haja um racha entre eles, é muito difícil, mas talvez um racha interno no PT. Acho que o Lula pode ganhar a eleição. Mas ele governa? Hoje as condições dele são menores porque ele não tem mais o PT unido em torno dele e há tensão entre a política que ele leva e a que o PT majoritariamente está começando a defender. Os outros partidos que se aliaram a ele sabem cada vez mais que o PT depende deles, o que aumenta muito o poder de chantagem do PTB, do PP, etc. Isso não significa que a situação do PSDB seja melhor. O PSDB tem agora que resolver o problema de qual vai ser o candidato dele. Na sua opinião, quem leva vantagem nessa disputa interna do PSDB? Eu tenho a impressão que o Serra seria um candidato mais competitivo. Em primeiro lugar, porque ele é mais conhecido nacionalmente, tem uma penetração no Nordeste que o Alckmin não tem. A fraqueza da campanha do Serra é que ele teria que deixar claro em que ele é capaz de mudar o País no sentido de que PSDB e PT, até agora, executaram a mesma política. Acontece que essa política já foi realizada, sendo boa ou ruim. Tanto o Lula quanto o Serra vão ter que ser capazes de dizer o que querem fazer do País. Essa é a dificuldade deles. O senhor acredita que o P-Sol pode tirar algumas alianças tradicionais do PT? Pode. Nessa eleição, qualquer percentual de mudança de voto, se o P-Sol tiver mais de 5% de votos, vai ser decisivo para o destino do Lula. Esses 5% podem ser mortais porque esses votos serão tirados do Lula. Eu tenho a impressão de que a área mais afetada pela crise do PT foi a classe média. A classe média, nas grandes cidades em geral, se sentiu agredida. Boa parte dessa gente hoje não vota mais no PT. Ele ganhou a última eleição porque convenceu a classe média que sempre desconfiou dele, que merecia o voto. Ela já retirou esse apoio. Até quando, em que proporção, ninguém sabe por enquanto. Uma parte dessa gente é da esquerda. O que ocorre com esse voto? Uma parte vai para o P-Sol. Mas existe um núcleo mais ideológico que, apesar da desilusão com o PT, continua votando. Eu acho que a eleição será decidida, a meu ver, por esse tipo de gente. Ele também tem o voto da elite financeira do País. Não é brincadeira essa história de que os banqueiros desconfiam mais do Serra do que do Lula hoje. Eles temem que o Serra tome decisões por vontade própria. Se ele vai tomar ou não é outra história, mas eles temem. Não têm o controle que têm sobre o Lula. O que o senhor espera dessa provável candidatura da senadora Heloísa Helena (P-Sol) à Presidência da República? Eu acho bom que exista a candidatura da Heloísa Helena. Ela vai tirar voto e apoio partidário do Lula, seguramente. Agora, a proposta dela é recuperar as origens, o que o PT foi nas origens. Mas o problema é outro. Qual é o tipo de esquerda que eu preciso hoje? E isso não é só o P-Sol, nenhum grupo de esquerda responde. De todos os grupos de esquerda que existem hoje, ou viraram ?mais do mesmo? ou não têm mais proposta, não têm mais conjunto ideológico. A partir de 1989, o PT percebeu que podia chegar ao governo e traçou toda a estratégia em chegar ao poder com o Lula. Então, o PT se tornou mais ?lulista? do que petista. O ?lulismo?, ou petismo, construiu sua identidade à base da ética na política. Quando você constrói com a ética na política, pode-se perguntar: Mas que política? Quando apareceram todas essas denúncias de corrupção, isso afetou seriamente o PT porque afetou no âmago da identidade dele, que era a ética. E isso não é um problema só do PT, é da esquerda em geral. PCdoB, PPS, PDT, qual é o perfil dessa gente? O que levaria um eleitor comum a entrar para um partido de esquerda e não de direita? Ora, mas isso é mortal para a esquerda. Uma esquerda que pratica a mesma coisa que a direita pratica é uma esquerda que não é esquerda. A minha dúvida no caso do P-Sol é se a bandeira de recuperar a pureza das origens é suficiente. Eu acho que não basta. Tem que tentar discutir o que é a esquerda hoje. Nos bastidores, comenta-se que o presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros (PMDB), praticamente desistiu de disputar o governo de Alagoas. Quais seriam as alternativas dele? Tudo depende da relação entre o Lula e o PMDB. O PMDB é uma caixa-preta. Você tem o grupo do qual Renan é um dos cabeças, que defende a aliança com o Lula. Você tem o grupo do Temer [Michel, deputado federal e presidente do PMDB] e do Geddel [Vieira Lima, deputado federal], que defende a aliança com o PSDB, você tem o perfil de um Garotinho [Anthony, ex-governador do Rio de Janeiro], que não é desprezível do ponto de vista eleitoral. Então, é muito difícil. Grande parte do nó dessa eleição é como vai se comportar o PMDB. E mais do que na eleição, quem ganhar, para governar, vai depender muito do PMDB. O Renan é um quadro de primeira linha, um quadro muito capaz. Não é por acaso que é presidente do Senado. Ele tem uma capacidade de articulação política fantástica. Como o governador Ronaldo Lessa (PDT) é avaliado fora de Alagoas? Ele aparentemente se beneficia de um elemento: os anteriores a ele eram muito piores. Ele aparentemente conseguiu pôr alguma ordem na casa. Em segundo lugar, ele é um homem com uma certa presença política, tem algum ?jogo? fora. O problema é que o poder político executivo de Alagoas é pequeno. Até o poder político parlamentar é muito grande para o tamanho de Alagoas. É só olhar quantos políticos estão sempre em cargos-chave da República. Há uma coisa a ser explicada, porque Alagoas é um Estado tão pequeno e tem quadros sempre no comando de partidos, no governo, no Congresso. Isso é um dado a ser explicado, porque não ocorre com a Paraíba, com o Rio Grande do Norte. Agora, o Lessa é um cara que pode se nacionalizar. ### QUEM É Nome: Gildo Marçal Brandão Idade: 57 anos Cargo: Professor do Departamento de Ciência Política da USP Formação: Graduado em Filosofia e doutor em Ciência Política pela USP Hobby: Cinema

Relacionadas