Política
A pauta nacional está submetida à corrupção
| PETRÔNIO VIANA Repórter O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) foi reitor da Universidade de Brasília (UnB) e ministro da Educação em 2003. Hoje, é um dos pré-candidatos de seu partido à Presidência da República. No entanto, a decisão sobre o lançamento da candidatura, na opinião de Buarque, deve ser tomada o mais rápido possível, uma vez que as alianças do PDT nos estados podem inviabilizar uma candidatura própria. Em entrevista à Gazeta, o senador fala sobre os avanços e retrocessos do governo Lula, de seu temor pela tentação autoritária que poderá acometer o presidente, caso seja reeleito, e do que chama de decadência do processo democrático brasileiro, com a crise nos três poderes. Gazeta - Como o senhor avalia hoje o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Cristovam Buarque - Uma administração perdida. Em primeiro lugar porque o Lula nunca definiu com clareza os objetivos que ele tinha para realizar. Ele foi simplesmente administrando as crises. Ele não disse: ?Eu quero que no final eu tenha tal situação na Educação, tal situação na Saúde. Em segundo, pelo excesso de trapalhadas que o governo e o PT têm cometido. Trapalhadas não apenas do ponto de vista de gerência da crise, mas também do ponto de vista ético. Como o senhor avalia essa enxurrada de denúncias contra o governo federal, contra o Congresso Nacional e contra o PT? Isso tudo é resultado dessa falta de referência? É, do governo e da sociedade. É mais grave. Eu acho que isso é prova de uma decadência do próprio processo democrático. Nós temos 20 anos de uma democracia que não se conseguiu incorporar as necessidades do povo. Uma democracia que atende apenas às demandas dos incluídos, mas que não coloca o atendimento das necessidades, só das demandas, que reage às corporações, não ao País, que trabalha com o curto prazo, não com o longo prazo. Em segundo, uma crise institucional entre os três poderes, onde o Congresso tem sido tratado com desprezo na medida em que o País é administrado por medidas provisórias do Executivo e por mandados judiciais do Judiciário. E o Congresso fica impotente, sem nenhuma possibilidade de definir a pauta nacional, que está submetida à pauta da corrupção. Além disso, o Congresso, o governo, e vamos falar com franqueza, o Poder Judiciário sofrem de uma decadência na opinião pública, por causa de corrupção, de imobilismo, greves de desembargadores para ganhar mais de R$ 22 mil por mês, por causa de suspeitas de mandados judiciais com base, eu não diria nem corrupção de dinheiro, mas interferência, compradas às vezes por dinheiro, mas às vezes por conivência, por amizade. Nessa decadência, a gente vê com bastante tristeza a decadência também do PT. É um partido que vive uma profunda decadência porque não cumpriu os compromissos de campanha, mudou o discurso sem dar nenhuma explicação ao povo. Nós vivemos um período de decadência. Nesse contexto, como o senhor observa a saída do ministro da Fazenda, Antônio Palocci? A razão da saída é que é parte dessa decadência. O Palocci sai porque mentiu em relação a um crime que cometeu, de ser conivente com o desrespeito ao sigilo bancário de uma pessoa simples. Ele pode não ter dado a ordem, mas ele recebeu do presidente da Caixa [Econômica Federal, Jorge Mattoso] o extrato. Ele devia ter dito: Vou rasgar sem olhar e você está demitido porque me trouxe. Depois, o presidente da Caixa fazer uma coisa dessas é muito grave. Mas igualmente grave, tendo feito abrir o inquérito e dar 15 dias para se descobrir quem fez. Ele fez. É tratar a opinião pública com desrespeito. A saída do ministro Palocci é deprimente para um cara que fez um bom trabalho, que garantiu a transição sem desestruturação financeira, que havia um risco sério. Quem são os maiores beneficiados pelos avanços da economia brasileira? Os que sempre foram. A população excluída não é beneficiada por isso. Quem é beneficiado são os trabalhadores do setor moderno, os empresários, a Nação, na medida em que a gente tem uma reserva maior de dólares, consegue administrar melhor os problemas e, sobretudo, porque isso freia também a inflação. Então, é bom, mas não muda a vida das massas excluídas. O dinheiro público é mal aplicado? Eu acredito que as prioridades do uso de recursos públicos são maldefinidas. Tem dois problemas, duas éticas que estão sendo feridas. Tem a ética do comportamento, que é o dinheiro que é desviado para o bolso de alguém. E tem a ética das prioridades, que é o dinheiro que é aplicado em prioridades que não são decentes. Do seu ponto de vista, em que o governo Lula mais avançou e em que ele mais retrocedeu? Em que ele avançou é naquilo que o Fernando Henrique vinha fazendo. Ele avançou na política econômica, mantendo de tal maneira que o tempo trouxesse alguns benefícios. Ele avançou nos projetos sociais que o Fernando Henrique criou, organizando melhor. O senhor concorda com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em manter a verticalização das alianças partidárias? Não, não concordo porque havia sido uma decisão do Congresso Nacional com uma maioria qualificada. Foi uma reforma constitucional. Foram três quintos dos deputados que votaram. E reforma constitucional, a casa do povo tem o direito de fazer toda. Até acabar com o Supremo, se quiser um dia. Eu acho que foi uma interferência arbitrária do Judiciário e além do seu poder. Qual é a conseqüência disso para o PDT? A gente não tem clareza ainda não, mas por um lado vai trazer uma grande vantagem: como muitos partidos não vão ter candidatos a presidente, o tempo [nos meios de comunicação] vem para os que são candidatos. Então, a gente vai ter mais tempo de televisão. Nosso candidato ia ter um minuto e meio, agora pode chegar a três. A desvantagem é que pode inviabilizar as alianças em alguns estados. Isso prejudica os planos do presidente Lula? Não sei a quem prejudica ou beneficia. Não dá para saber com clareza, salvo os governistas do PMDB, que se beneficiaram. Do resto, todos podem perder e todos podem ganhar, mas do Lula não dá para dizer. A verticalização pode tirar o apoio do PSB e do PC do B. O presidente pode ficar mais dependente de partidos como o PP, o PL e o PTB? Vai ficar. O segundo mandato do Lula vai ser uma tragédia, porque ele vai ficar nas mãos da direita. O Lula vai ser um governante que vai se desmoralizar completamente no segundo mandato. E correndo o risco, porque até aqui ele caiu nas mãos da direita, mas ainda controla os movimentos sociais. Eu não sei se ele consegue controlar mais quatro anos. Aí, imagine o Lula com as ruas cheias de manifestações de trabalhadores contra ele. Aí eu temo uma coisa: uma tentação autoritária com o apoio dos partidos de direita e das Forças Armadas. Tentado ele vai ficar com certeza. Se ele vai deixar a tentação se transformar em coisas concretas eu não sei. Eu acho muito possível, por exemplo, que se o Lula ganhando a eleição, sobretudo se for no primeiro turno, com muita força, ele vai tentar um terceiro mandato. Mas isso é legal? Muda a Constituição. Eu não duvido que o Lula tente isso. O senhor acha que Lula ganha a eleição? Se a eleição fosse hoje, eu acho que o Lula ganharia porque, ao mesmo tempo que ele tem o apoio do chamado establishment, grandes empresas, sistema bancário, ele tem o apoio das massas. E essa elite está muito contente porque o Lula presta dois serviços: faz o que ela quer e controla os movimentos sociais. Imagine se o presidente fosse o Serra [José, PSDB, ex-prefeito de São Paulo]. O MST estava tocando fogo, a UNE estava na rua, a CUT tinha parado o ABC paulista. Mas o Lula controla esses movimentos. Então, ele é o candidato ideal para a elite. Por isso eu acho que hoje ele tem muita chance, mas ninguém sabe o que vai acontecer nesses meses antes da eleição, que novos escândalos vão acontecer, que nomes vão surgir, que discursos novos vão aparecer. Como estão as articulações para a candidatura própria do PDT à Presidência? O sentimento é de que a maioria no PDT quer um candidato a presidente, mas ao mesmo tempo, nas bases, começam a se consolidar alianças que ficariam inviáveis se o PDT tivesse candidato. O partido que não tiver candidato deixa de ser um partido nacional porque em cada Estado vai ter um partido com a mesma sigla, e diferente. É o caso do PMDB, que só tem de igual o nome. No mais, ele é completamente diferente de um Estado para outro. Essas alianças descaracterizam o partido que não tiver candidato a presidente. Mas eu acho que se demorarmos um pouquinho mais, vai ficar irreversível não ter candidato. O senhor aceitaria ser o candidato do partido à Presidência? Não só aceito como eu estou querendo ser candidato. Eu acho que eu tenho um discurso para fazer, acho que o Brasil precisa disso, agora não vou disputar com pessoas que são mais antigas no PDT. O governador Ronaldo Lessa já disse que não queria ser candidato. Se tiver uma prévia, eu nem discuto. Eu irei com muito prazer. Acho que o Brasil está precisando de um discurso alternativo e eu tenho esse discurso. Então, eu estou querendo, mas não vou disputar com uma figura como o Jefferson Peres [AM]. Tem que ser um consenso. Quais os prováveis aliados nacionais do PDT? Só tem dois partidos que a gente ainda tem esperança, o PPS e o PV. Mas também está ficando difícil. Como a gente demorou muito, o PPS já tem candidato que começa a crescer, o Roberto Freire [deputado federal, presidente nacional do PPS]. Fica muito difícil a gente pedir para ele retirar a candidatura dele para botar um cara do PDT que tem 1%, quando ele tem 4%. o senhor aceitaria ser vice de Freire? Não. Eu quero deixar claro aqui que eu me justifico na candidatura com um discurso, com uma proposta para o Brasil. Vice-presidente não tem voz. A primeira coisa que fazem com o vice-presidente é cortar a língua dele. E eu não consigo deixar de falar. E, no caso do Roberto Freire, não dá porque os dois são pernambucanos. A única diferença é que eu sou torcedor do Náutico, e ele é do Sport. ### QUEM É Nome: Cristovam Buarque Idade: 62 anos Cargo: Senador da República Partido: PDT Formação: Engenharia, doutorado em Economia na França Hobbies: Conversar com jornalistas (Risos).