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Política Nomeação de Sérgio Nascimento gera revolta entre representantes do movimento negro

ENTIDADES PEDEM SAÍDA DO PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PALMARES

Sérgio Nascimento, nomeado por Jair Bolsonaro, nega o racismo, ataca os negros e reforça a morte de quem considera desafeto

Instituições como o Conselho Estadual da Igualdade Racial, artistas e produtores alagoanos repudiaram a escolha de Sérgio Nascimento de Camargo para a presidência da Fundação Cultural Palmares e pedem a revogação do ato de nomeação feito pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Ex-presidentes da entidade criada para “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira” também se manifestaram contrários à escolha e publicaram manifesto contra a decisão de Bolsonaro. “É inacreditável que tenham tentado ligar nosso presidente [Bolsonaro] ao assassinato dessa mulher sem valor [vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio de Janeiro]. É preciso que Marielle morra, só assim ela deixará de encher o saco!”. Essa é apenas uma das declarações feitas por Sérgio Nascimento, nomeado para a função há cinco dias pelo presidente. Negar o racismo no Brasil e atacar negros são outras posturas adotadas pelo gestor da entidade, que tem em Alagoas um dos pontos mais representativos de atuação, o Memorial Parque Quilombo Zumbi do Palmares, na Serra da Barriga e onde acontece anualmente a comemoração pelo Dia da Consciência Negra – 20 de novembro –, outra manifestação que o novo presidente da fundação já disse que pretender acabar. “O Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Estado de Alagoas, criado pela Lei Estadual 7.448, de 20 de Fevereiro de 2013, em consonância com o inciso X, do artigo 2º. do seu Regimento Interno, vem publicamente manifestar seu total repúdio à nomeação, no último dia 27 de Novembro, do jornalista Sérgio Nascimento de Camargo para o cargo de presidente da Fundação Cultural Palmares, considerando suas públicas declarações contrárias à luta histórica do movimento social negro brasileiro, às políticas de ações afirmativas para afrodescendentes e ao próprio reconhecimento da existência do racismo enquanto traço estruturante das instituições e relações sociais no Brasil”, posicionou-se a entidade alagoana que tem à frente o historiador Clébio Araújo. Para o pleno do conselho, a Fundação Cultural Palmares não pode comportar gestores que neguem o passado histórico e a luta que gerou a sua própria criação, “pautados por visões sociais que atentam contra os princípios constitucionais de promoção da igualdade racial, representando uma ameaça direta à promoção da cidadania da população afrodescendente, pelo que se coloca a imediata necessidade de revogação de tal ato administrativo, a bem da preservação do Estado Democrático de Direito”.

MARCO REFERENCIAL

Já os ex-presidentes da Fundação Palmares, Carlos Moura, Zulu Araujo, Dulce Pereira, Eloi Ferreira, Hilton Cobra e Erivaldo Silva lembraram que o marco referencial no mundo na luta contra o racismo, a Declaração de Durban, publicada quando da realização da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em 2001, na África do Sul, reconhece a escravidão e o tráfico de escravo como tragédias terríveis na história da humanidade, “não apenas por sua barbárie abominável, mas também em termos de sua magnitude, natureza de organização e, especialmente, pela negação da essência das vítimas”. “O momento atual que estamos vivendo é preocupante e requer coragem, ousadia e determinação na defesa do processo civilizatório, tanto no Brasil como em grande parte do mundo. Por isto mesmo, devemos recusar com toda a veemência quaisquer ideias ou propostas que ponham em risco conquistas duramente alcançadas nos últimos anos no campo da promoção da igualdade e dos direitos humanos, em particular no que diz respeito a educação (cotas no ensino superior), a terra (reconhecimento dos quilombos), a cultura (reconhecimento das manifestações culturais de origem negra enquanto patrimônio cultural brasileiro e mundial) e o direito à liberdade religiosa”, pontuaram os ex-gestores da fundação. Na área artística e cultural, grupos como o Maracatu Baque Alagoano também se manifestaram em repúdio às declarações e à nomeação de Sérgio Nascimento, todos sob um misto de incredulidade e choque. “Nós do Maracatu Baque Alagoano queremos manifestar nosso repúdio e indignação com tal indicação, assim como para com suas declarações, que reforça o quão racista ainda é a nossa sociedade e o quanto devemos reafirmar nosso compromisso com a luta antirracista, com a cultura afro-brasileira, com a valorização e memória de personalidades negras que compõem a nossa história”, manifestaram. “Brasil é todo dia um absurdo inimaginável”, acrescentou a fotógrafa arapiraquense Isadora Magalhães.

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