Política
Greve de servidores federais deixa PT contra PT
MARCOS RODRIGUES O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está diante da primeira greve de servidores públicos. Em Alagoas, como no resto do Brasil, a mobilização colocou servidores simpatizantes e filiados ao PT contra os dirigentes petistas que estão nos órgãos ocupados por indicação do partido no Estado. Ao todo são quatro setores: Delegacia Regional do Ministério do Trabalho (DRT); Instituto Nacional de Regularização Fundiária e Reforma Agrária (Incra); Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e Delegacia Regional do Ministério da Agricultura. Na semana passada ocorreu o primeiro embate dos dois lados, na Delegacia Regional do Trabalho. Lá, o delegado Ricardo Coelho de Barros, ex-presidente do Diretório Municipal do PT, segundo fontes ligadas à base da categoria, arrancou uma faixa que impedia o acesso ao prédio da delegacia no centro. Procurado pela reportagem ele negou que tenha tido confronto com os servidores, mas defendeu a continuidade das atividades. ?O que eu pretendo é garantir o funcionamento e o acesso de quem queira trabalhar e do público. O que não pode é se colocar uma faixa na porta para parar o órgão por decreto. Mas se houver piquete, por exemplo, não chamarei a polícia, nem farei lista para punições. Respeito os trabalhadores ?, explicou. O incidente na porta da DRT aconteceu na última terça-feira, quando foi deflagrado em todo o País o movimento grevista. Para alguns servidores do órgão, o delegado tem aparecido demais na mídia sobre outros assuntos e não dialoga com a categoria. Ricardo desmente essa versão e diz que vem mantendo contato com os trabalhadores para evitar confrontos. ?O fato é que no prédio existem muitos servidores terceirizados e esses não têm nada com o movimento e podem manter o órgão funcionando?, concluiu. Ele não acredita que o fato venha a ter mais repercussões dentro das instâncias internas do partido, no Estado. O representante do Sindicato do Servidores da Previdência, que envolve os trabalhadores da DRT, José Jobson dos Santos, foi procurado pela reportagem da GAZETA DE ALAGOAS para comentar o caso, mas não foi localizado. Segundo informações dos servidores, o sindicalista entrou em férias na última sexta-feira. Mas a presidenta do Sindicato dos Previdenciários, Idailza Beirão, confirmou a informação de que o delegado Ricardo Coelho havia retirado uma das faixas de reivindicação afixadas à porta do prédio. Ela admitiu que a paralisação na DRT é difícil por causa do número de terceirizados. Esta semana, segundo revelou, o Sindprev organizará atos em frente ao prédio. A sindicalista não acredita em confronto nestas atividades, ?só se for necessário?. Sobre a paralisação das atividades, ela disse que já que o órgão sempre ofereceu resistências, se contasse com o apoio do delgado Ricardo Coelho isso seria mais fácil. Movimento O movimento dos servidores, que tem caráter nacional, discorda do texto da reforma da Previdência enviado ao congresso nacional. Segundo a proposta, os servidores públicos mudam o sistema de contribuição previdenciária, além de terem alterado o tempo de aposentadoria, que aumentaria em cinco anos em relação à proposta atual para todos os trabalhadores. Quanto aos servidores aposentados, o governo quer, ainda, incluí-los como contribuintes. As reivindicações dos trabalhadores contam com o apoio de pelo menos trinta parlamentares do próprio PT, a exemplo da senadora alagoana Heloísa Helena. Ela, juntamente com seus colegas, intitulados de ?radicais?, participou dos atos preparatórios da mobilização, em Brasília. Na oportunidade, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Nelson Pelegrino (PT/BA) foi vaiado e cuspido por manifestantes. O processo de mobilização já começou, semana passada. Em Alagoas já estão paralisados a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e os postos de atendimento do INSS. Apenas o prédio-sede só conta com uma adesão de 30%, segundo a coordenação do movimento. Central O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Isaac Jackson Ferreira, afirmou, por telefone, que o movimento de mobilização vem crescendo a cada dia no Estado e que a entidade estará à frente e apoiando todos os sindicatos envolvidos. Segundo ele, o que vinha atrapalhando a mobilização era a interpretação do que foi deliberado no congresso da CUT, ocorrido mês passado. Alguns sindicatos de servidores defenderam publicamente o arquivamento da proposta e outros emendas ao projeto. Ele participou da reunião do comando do movimento dos servidores no Estado e reforçou o posicionamento da entidade em apoiar a reivindicação. ?Unificaremos o discurso e partiremos para a mobilização, principalmente nos setores que ainda não paralisaram as atividades?, confirmou Isaac. Na terça-feira, a CUT realiza uma Plenária para discutir o assunto e aparar as arestas. Indagado sobre a possibilidade de enfrentamento com membros do partido nos órgãos envolvidos ele disse que isso não acontecerá. ?Os companheiros têm sido solidários com a causa?, disse. Liberdade Os dirigentes dos órgãos que ainda não aderiram ao movimento disseram que defenderão a liberdade de mobilização dos servidores. Para o delegado Regional do Ministério da Agricultura, Évio Lima, caso ocorra alguma mobilização esta semana, não será reprimida. ?Vale lembrar que nós, por princípio, respeitamos os trabalhadores. Só estamos aqui porque acreditamos na proposta do governo. E quero deixar claro que não interferiremos no processo em caráter de repressão?, afirmou o ex-presidente da CUT. O raciocínio é o mesmo do coordenador da Funasa, Ricardo Valença. ?Eu estou do outro lado. Sou governo, mas sou funcionário público. A decisão de parar é da categoria e ela tem de estar livre para isso. Estou sensibilizado com as reivindicações, mas não poderei participar?, explicou o ex-sindicalista. O superintendente do Incra, engenheiro Mário Agra, declarou, também por telefone, que o órgão ainda não paralisou suas atividades, mas não será contra nenhum tipo de mobilização. ?Os trabalhadores têm todo o direito de se mobilizar. Além disso, fui educado dentro dos movimentos sociais e aprendi a respeitá-lo?, explicou Agra.