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“Laranjas” desmoralizam a reforma agr�ria em Alagoas

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ARNALDO FERREIRA A luta pela reforma agrária em Alagoas se transformou num grande negócio que envolve políticos, grandes e médios comerciantes e até latifundiários que arregimentam ?laranjas? para infiltrá-los nos acampamentos dos movimentos de trabalhadores sem-terra. O escândalo desmoraliza o processo de reforma agrária e gera um enorme prejuízo aos governos federal e estadual, que compram terras e liberam financiamentos para projetos de irrigação, eletrificação rural, construção de casas, aquisição de equipamentos agrícolas e sementes, agrovilas e outras benfeitorias. Os ?laranjas?, na verdade, são trabalhadores de áreas urbanas, de indústrias rurais, estabelecimentos comerciais, que se infiltram e depois de adquirirem seus lotes vendem a preços que variam entre R$ 5 a 10 mil. Na última quinta-feira, a reportagem da GAZETA DE ALAGOAS, com o pretexto de visitar assentamentos produtivos, justamente os que nasceram através da articulação do Instituto de Terra de Alagoas (Iteral) e outros ligados à luta de trabalhadores ligados ao Movimento Sem Terra (MST), percebeu que boa parte das terras mais produtivas está em mãos de pessoas alheias aos movimentos sociais que cobram terra para plantar. MST No assentamento ?Eldorado dos Carajás?, no município de Branquinha, conquistado pelo MST, depois de muitas batalhas com fazendeiros e com a polícia, durante dez anos, é um dos tristes exemplos da tentativa de desmoralizar a luta pela reforma agrária. Na área onde estão assentadas mais de 120 famílias, em lotes que variam entre quatro a sete hectares, onde existem projetos irrigados, plantações de fruticultura, terra fértil, os imóveis comprados com recursos federais, hoje, são trocados por casas, em União dos Palmares, ou vendidos. Não é difícil encontrar um lote para troca ou venda. Qualquer pessoa do assentamento indica até como negociar com o vendedor. ?Tudo aqui começou errado. O maus costumes de vender os lotes foram ensinados pelos ex-líderes do Movimento Sem Terra?, revelou o agricultor Aparecido Bezerra da Silva, 23. Ele vivia com o pai em barracas de lona, com grupos do MST, até os 15 anos. ?Ganhamos um lote depois de muita luta. Hoje, vivemos melhor plantando banana, mandioca, macaxeira e outras culturas. Acabou a fome por aqui. Mesmo assim, alguns companheiros venderam seus lotes para pessoas que nada tinham a ver com a nossa luta?, lamentou Aparecido, ao acrescentar que os primeiros a vender os lotes foram ex-dirigentes do movimento. O próprio presidente da Associação dos Assentados de Eldorado dos Carajás, Gilberto Lopes, que era um dos integrantes do MST, sabe quem vendeu os imóveis. Quando a GAZETA esteve no acampamento, Gilberto estava visitando lotes e, na sede da entidade, havia uma senhora grávida do assentamento, que confirmou que ela e sua família moravam numa casa, na periferia de União dos Palmares, e hoje está numa das parcelas, produzindo culturas de subsistência, por causa da troca da casa, num lote que era de um militante do MST. Outro acampamento do MST, que era um dos focos de tensão e hoje é uma das áreas mais produtivas da zona da mata, é o ?Flor do Mundaú?, entre os municípios de Branquinha e Murici. A área já foi quase toda vendida para pecuaristas, médios comerciantes, donos de supermercados, funcionários públicos e políticos da região. ?No assentamento Flor do Mundaú agora só tem gente rica. As pessoas que se diziam sem-terra ganharam lotes e venderam?, lamentou ?seu? Cícero Olímpio de Lima, que vive acampado, há quatro anos, na comunidade ?Bolo?, num barraco de lona. Ele cobrou punição tanto para quem vende como para quem compra terras da reforma agrária. O prefeito de Viçosa, Flaubert Torres (PL), revelou que no assentamento ?Dourada?, já considerado como um dos modelos de assentamento no País, os lotes estão sendo vendidos. ?Vamos comunicar ao Incra e ao governo estadual que as terras do assentamento Dourada estão sendo vendidas a pessoas alheias aos trabalhadores rurais?. Flaubert considerou o comércio de lotes, em Dourada, como uma tentativa de enfraquecer o projeto de reforma agrária, um crime contra o Brasil. No assentamento, os lotes de até sete hectares podem ser comprados a preços de R$ 10 e 20 mil. Estado O governador Ronaldo Lessa (PSB) também implementou o processo de reforma agrária em seus dois governos. Para isso, reestruturou o Instituto de Terra de Alagoas (Iteral), que em governos anteriores não passava de um cabide de empregos. Hoje, o Iteral comemora a implantação de 41 assentamentos no Sertão, Agreste, áreas litorâneas e zona da mata. Com ajuda financeira do Banco da Terra e do Fundo de Terra e Reforma Agrária, assentou 935 famílias. Mas, como acontece nos assentamentos do Incra, o maior problema é a venda de lotes. Onde o problema é mais grave é no assentamento ?Caldeirões?, em São José da Laje. Das 30 famílias assentadas 21 eram ?laranjas? e estão sendo retiradas dos lotes. A própria presidenta da associação, a professora Florange, que mora em União dos Palmares, vai uma vez por semana ao assentamento e mantém um lote improdutivo. Em Caldeirões há comerciantes, trabalhadores de usinas, mototaxistas e até o filho de um ex-prefeito de São José da Laje, Eli Carlos Cavalcante, que trabalha como analista de sistemas em uma empresa pública de Maceió. O seu pai, o ex-prefeito Valter Nogueira, confessou: ?Meu filho nunca foi agricultor, mas o chamaram para ganhar um lote, em Caldeirões, e ele aceitou?. Nogueira também confirmou que o assentamento financiado pelo Banco da Terra e governo estadual está cheio de irregularidades, ?a começar pela própria presidenta da Associação dos Assentados, que nada tem a ver com a agricultura?. O presidente do Iteral, Roberto Paiva, admitiu para a GAZETA DE ALAGOAS que o maior problema nos 41 assentamentos é a venda de lotes para pessoas que nada têm a ver com o projeto de reforma agrária. O superintendente do Incra, Mário Agra, confirmou: ?Já identificamos que nos 61 assentamentos do Incra, o problema mais grave é o de comércio clandestino de terras da reforma agrária?. Tanto o Iteral como o Incra prometem retomar as terras vendidas e entregá-las a verdadeiros agricultores pobres que precisam da terra.

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