Política
L�deres comunit�rios revelam esquema de venda de votos
ISMERY CAVALCANTE / ARNALD0 FERREIRA A existência de líderes comunitários envolvidos com compra e venda de votos nas eleições de Maceió já foi confirmada por vereadores e agora líderes comunitários admitem conhecer pessoas que fazem esta transação de corrupção eleitoral. Na última sexta-feira, em entrevista exclusiva à GAZETA DE ALAGOAS, líderes comunitários e assessores parlamentares confirmaram a movimentação que acontece nos bastidores políticos. A corrupção eleitoral envolve políticos de renome no Estado, inclusive que conseguiram se eleger mediante a compra de votos de alagoanos, garantem três líderes comunitários que preservaram os nomes dos envolvidos. Confissão Entre os entrevistados, apenas um assessor parlamentar, que se identificou como ?Beiron? confessou seu envolvimento. Ele não quis dizer para quem trabalhava. Mas confirmou sua participação no comércio de votos. ?Beiron? disse ter participado da compra de votos nas eleições passadas em Alagoas e, segundo ele, graças ao seu trabalho conseguiu eleger um deputado federal e um estadual. O assessor disse que os recursos recebidos dos políticos foram suficientes para reformar sua casa, localizada no Bebedouro, e para pagar a compra de votos de alguns eleitores de sua região. ?Eles me deram uma quantia pelo meu trabalho na campanha e ainda me pagaram para comprar votos de eleitores, por trinta reais?. Mesmo ciente da prática ilegal, o assessor disse que aceitaria novamente a compra de votos para eleger novos políticos. ?Se um político me oferecer dinheiro eu aceito e o ajudo a comprar votos dos eleitores?, disse, acrescentando ser favorável a este tipo de comércio. ?Beiron? explicou que o comércio ilegal é praticado às escondidas e tem início seis meses antes do processo eleitoral. ?Eles começam a agir alguns meses antes, para que ninguém desconfie?, salientou. O assessor discorda, porém, da ação de alguns políticos que, segundo ele, fazem promessas enganosas e ainda pedem o voto dos eleitores. ?Sou a favor daqueles que compram votos e cumprem com suas promessas?. Incentivo O líder comunitário Edvaldo Guilherme, mais conhecido por Baré Cola, que trabalha para vereadores e deputados estaduais, também confirmou a existência desse tipo de comércio. Mas negou sua participação. Baré revelou que incentiva a população carente dos bairros da periferia a receber dinheiro do político e votar em outro. Porém, afirma que se esse político trabalhar em prol da comunidade será merecedor do voto da população. Segundo o líder comunitário, na maioria das vezes os vendedores de votos são pessoas carentes, que recebem o dinheiro do político para atender as suas necessidades básicas. Ele disse que se um político quiser comprar votos a população deve receber o dinheiro. ?O povo está carente, morrendo de fome, você chega na beira da lagoa vê crianças passando necessidade, pai de família roubando, vendendo maconha, cheirando cola. Um político oferece dinheiro, ele aceita, mas não tem obrigação de votar?, destacou. Baré disse que a população sabe quais são os políticos que trabalham em prol da comunidade e aqueles que aparecem apenas na época das eleições e fazem promessas enganosas. Explicou, ainda, que os eleitores temem revelar os nomes dos políticos para não sofrer ameaças, ou até mesmo correr risco de vida. Baré Cola acredita que eleitores serão prejudicados se denunciarem os políticos envolvidos com o comércio ilegal de votos. ?A Justiça não vai atrás do político mas do eleitor de baixa renda?, disse. Formas Baré Cola revelou existir diversas formas de compra de votos. ?Há políticos que compram votos em troca de cestas básicas, remédios e dinheiro, com valores que variam de 30 a 50 reais?. Ele disse, ainda, que os eleitores fazem um cadastro no qual constam seus dados pessoais e se comprometem com a venda do voto. O líder comunitário negou que cabos eleitorais e presidentes da associações comunitárias estejam envolvidos com a compra e venda ilegal. ?Não conheço nenhum presidente de associação nem cabo eleitoral que esteja num padrão de vida incompatível com seu poder aquisitivo?, acentuou. Ele declarou que os políticos costumam dar dinheiro a pessoas de confiança para comprar votos. ?Podem dar dinheiro a parentes, mas não a cabos eleitorais?, ressaltou. Dossiê Baré disse estar elaborando um dossiê intitulado ?Do outro Lado da Moeda?, no qual constará o nome de todos os políticos envolvidos na corrupção eleitoral, mas prefere não revelá-los. ?Só revelarei o nome dos políticos que compram votos próximo das eleições?, disse, acrescentando que os nomes são apontados pelos próprios eleitores que vendem seus votos. Ele disse que os políticos costumam freqüentar a casa dos eleitores pela madrugada para comprar votos em troca de benefícios. ?O negócio é feito às escondidas para que a Justiça não descubra?, acentuou, destacando que ?a Justiça é cega e o poder é forte?. Baré disse incentivar as pessoas a receberem dinheiro e votarem nos políticos que prestaram relevantes serviços à comunidade e que não obrigam os eleitores a ceder seus votos. ?Isso representa ajuda de custo, ao contrário da compra de votos, quando o político obriga os eleitores a votarem nele em troca de supostos benefícios?. Enganadas Ele revelou que muitas pessoas vendem seus votos e são enganadas pelos políticos. ?Elas me procuram, citam o nomes dos políticos e eu as incentivo a votar em outros, que realmente trabalhem pela comunidade?, revelou. Câmara As primeiras denúncias sobre a corrupção eleitoral foram feitas pelo presidente da Câmara dos Vereadores de Maceió, Alan Balbino. Em entrevista à GAZETA DE ALAGOAS afirmou: ?Já começou a movimentação de cabos eleitorais e supostos líderes comunitários oferecendo voto?. Alan adiantou que a transação, a um ano das eleições municipais, já está acontecendo. Os envolvidos com a corrupção eleitoral comparecem às sessões plenárias e atacam os vereadores com a proposta. ?Eles oferecem votos a preços que variam entre 30 e 50 reais?, explicou o vereador, candidato à reeleição. Títulos Mas o que vem preocupando os vereadores é o desaparecimento de três mil títulos, ainda sem explicação. Um processo que tramita na Justiça Federal envolve até um servidor da Primeira Zona Eleitoral. Por isso, hoje os vereadores que dizem não se envolver com a corrupção eleitoral defendem que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) faça um recadastramento das três zonas eleitorais. ?Nós suspeitamos de que esses três mil títulos podem ser usados para fraudar as eleições de 2004?. Outro vereador que não esconde sua preocupação com a corrupção eleitoral e a movimentação dos supostos cabos eleitorais é o líder da prefeita na Câmara, vereador Pedro Alves (SB). ?Sou assediado no meu gabinete, nos corredores da Câmara e até no meu escritório?, declarou Alves, que considera esse tipo de negócio uma vergonha. Ele acha que deve haver uma intervenção rigorosa da Polícia Federal e da Justiça Eleitoral. Porém, não revela quais são as pessoas que o assediam com proposta de compra de votos. Essa postura dificulta a apuração e deixa os compradores livres para se oferecerem a outros candidatos. O diretor do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Diógenes Tenório Filho, diz que o recadastramento eleitoral só pode ser discutido se houver uma provocação neste sentido. Enquanto, não houver, a Justiça Eleitoral não pensa fazê-lo.