loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 23/07/2026 | Ano | Nº 6273
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Pistoleiros ca�am o sem-terra “Z� da Coluna”

Ouvir
Compartilhar

ARNALDO FERREIRA Porto de Pedras/ AL- O ataque de seis pistoleiros encapuzados ao acampamento de trabalhadores rurais sem-terra da Fazenda Lucena, na zona rural deste município distante 94 quilômetros, tinha um objetivo: matar o líder do acampamento da Comissão Pastoral da Terra- CPT, José Manoel dos Santos, 35 anos, casado, pais de três filhos (o mais velho tem apenas sete anos). O sem-terra, conhecido na região como ?Zé da Coluna?, é visto como um herói na luta da CPT. Antigo morador desta região do litoral norte de Alagoas, cansou de viver como cortador de cana contratado, sem os direitos trabalhistas respeitados. Hoje, com voz mansa e jeito tranqüilo, diz que quer ser respeitado como produtor rural. Ele entrou no movimento de forma espontânea. Há um ano lidera o acampamento Lucena. Mascarados As 21 famílias do acampamento temem um novo ataque dos pistoleiros. Por isso, ficam atentas a toda movimentação estranha nos arredores. Quem estava no acampamento no dia do ataque chora ao lembrar da ação rápida dos mascarados, armados com espingardas e metralhadoras. ?Os homens mascarados deixaram os carros longe do acampamento. Só percebemos a chegada dos seis quando eles mandaram a gente deitar com o rosto no chão e gritavam sem parar, queriam saber quem era o Zé da Coluna?, lembra Marlene Maria da Conceição, 54 anos. ?Eles entraram no acampamento dizendo que eram da polícia. Quando descobriram que o ?Zé da Coluna? não estava, mandaram que todo mundo corresse e atiraram sem parar para o alto. Depois, com isqueiros, começaram a queimar nossos barracos, roupas e documentos. Foi uma coisa horrível. Não sei como não nos mataram?, desabafou, em lágrimas, dona Marlene. Apesar do susto, afirmou que não vai sair do acampamento. ?Não tenho nada e nem para onde ir. Esta é a única chance de ter alguma coisa na vida. Se for preciso, morro aqui?, garantiu Conceição. Ataque O ataque dos pistoleiros mascarados aconteceu domingo passado, por volta das 15 horas. A maioria das famílias que ocupavam os 21 barracos de lona e palha erguidos ao lado da cerca da Fazenda Lucena estava nos municípios de Porto de Pedras, Porto Calvo e Matriz do Camaragibe. ?Nós ficamos no acampamento de segunda a sexta-feira. Nos fins de semana, a maioria vai visitar familiares que moram em municípios das redondezas?, explicou o trabalhador João Antônio dos Santos, 23 anos, conhecido como ?Curió?. Na hora do ataque, ?Curió? estava no acampamento com a mulher, Rosiléia Josefa dos Santos, 17 anos, e o filho de dois anos. ?Eles (os mascarados) gritavam o nome do ?Zé da Coluna? e mandavam a gente correr. Pensei que ia morrer? . Na correria, ?Curió? e a mulher esqueceram o filho dormindo no barraco. ?Minha mulher voltou para pegar a criança, foi humilhada e depois os homens mandaram ela sair correndo para não morrer?. O casal perdeu a bicicleta, roupas, documentos, a barraca e a cesta básica doada pelo Incra. ?Eles queimaram tudo?, desabafou ?Curió?. A mulher e o filho estão fora do acampamento. ?Vou ficar?, afirmou. Ainda bastante abalado com a ação dos mascarados, o agricultor José Maria da Silva, 41 anos, lembrou como foi obrigado a deitar com o rosto no chão e em seguida sair correndo com a mulher, que carregava a filha de um ano. ?Eles acabaram com tudo que havia dentro dos barracos. Não deixaram nem a cama que eu tinha acabado de comprar. Só fiquei com a camisa no corpo, a bermuda e as sandálias. Até as panelas foram destruídas?, lamentava ao tempo em que mostrava à imprensa o que sobrou do seu barraco. José Maria, com os olhos cheios de lágrimas, acrescentou: ?Os homens queriam matar o coordenador do acampamento e tentaram nos afugentar com ameaças de que voltariam?. Zé da Coluna Na última quinta-feira, a reportagem da GAZETA DE ALAGOAS esteve no acampamento Lucena acompanhando uma missão de autoridades da Procuradoria da República, das Comissões de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Assembléia Legislativa, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e da Coordenação Estadual da Comissão das Pastoral da Terra. Para chegar ao acampamento o melhor acesso é pelo município de Matriz do Camaragibe, percorrendo, por dez quilômetros, uma estrada de barro esburacada e cheia de lama. Com um jeito simples e agachado à porta de um dos barracos que sobraram do ataque dos pistoleiros, estava José Manoel dos Santos, 35 anos, o ?Zé da Coluna?. Com voz mansa e demonstrando tranqüilidade, mesmo diante da constatação de que está marcado para morrer, ele contou que escapou de ser assassinado e queimado pelos supostos pistoleiros porque tinha saído com a mulher e os filhos. ?Não tenho mais condições de continuar nesta área. Os fazendeiros desta região querem minha morte. Desta vez, escapei por pouco?, afirmou o líder dos acampados. ?Zé da Coluna? passou a liderar os trabalhadores rurais e a coordenar o acampamento Lucena há um ano. ?Nós não queremos nada de ninguém. A Fazenda Lucena foi desapropriada para benefício social, especificamente para fins de reforma agrária. Por isso, não entendo essa perseguição toda?, desabafou o coordenador do acampamento onde há mais de um ano 21 famílias de trabalhadores rurais esperam por lotes da Fazenda Lucena prometidos pelo Incra. Na sua avaliação, a situação está tensa por causa da lentidão dos órgãos federais responsáveis pela reforma agrária. Por isso, cobra desburocratização e pressa na resolução dos processos de desapropriação dos imóveis e emissão de posse das áreas desapropriadas. ?No caso da Fazenda Lucena, só falta o Incra emitir os documentos que nos dão direito aos lotes?, salientou ?Zé da Coluna?. ?A demora na desapropriação da área de 395 hectares levou o fazendeiro a plantar capim no imóvel, colocar gado na fazenda para maquiá-la, como se fosse uma fazenda produtiva e assim cobrar mais na transação com o Incra?, acredita. Depois de conceder a entrevista exclusiva à GAZETA DE ALAGOAS, José Manoel dos Santos foi levado para uma área segura, bem distante dos pistoleiros que rondam as terras que ficam entre os municípios de Matriz do Camaragibe e Porto de Pedras. Por questões de segurança, ?Zé da Coluna?, a mulher e os filhos vão ficar um bom tempo distante dos familiares. Não podem se corresponder nem por telefone. ?É difícil acreditar que uma pessoa que quer apenas plantar milho, feijão, mandioca e melancia nessas terras improdutivas esteja correndo risco de ser morto?, desabafou o trabalhador rural, que não quer ser tratado como herói nem líder de nada. ?A única coisa que eu quero é um lugar tranqüilo para trabalhar, produzir alimentos e viver em paz com minha mulher e meus três filhos?. Antes de deixar a área, ?Zé da Coluna? cobrou do superintendente do Incra, engenheiro Mário Agra, pressa na imissão de posse da Fazenda Lucena. ?É preciso agir rapidamente antes que aconteça uma tragédia com as famílias que vão ficar?, recomendou José Manoel dos Santos, que se auto-intitula ?um simples agricultor?.

Relacionadas