Política
Superintendente do Incra vai depor sobre onda de saques no Agreste
ARNALDO FERREIRA O delegado regional de Arapiraca, Cícero Torres, em entrevista à GAZETA DE ALAGOAS, abre o jogo sobre a situação dos assentamentos e acampamentos de trabalhadores sem-terra em Alagoas e anuncia que na próxima terça-feira vai ouvir o superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Mário Agra, sobre seu suposto envolvimento com bloqueios e saques na rodovia AL-220. Ele adiantou que vai processar o presidente do PT, deputado Paulo Fernando dos Santos- Paulão. O deputado, em pronunciamento na Assembléia Legislativa, acusou o delegado de estar envolvido com contrabando de armas e de ter comportamento duvidoso para investigar o assassinato do líder sem-terra Luciano Alves da Silva, morto há uma semana, em Craíbas (AL). - Conservadores e ruralistas acusam os movimentos de trabalhadores sem-terra de se transformar num problema de polícia. Já o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) afirma que este é um problema social. E o senhor como entende essa questão? - Entendo que estamos diante de um grave problema social, isto a partir do momento em que as reivindicações são justas e os movimentos pacíficos. Quando a lei é ferida, aí passa a ser um caso de polícia e um caso de Justiça. - Alguns militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) denunciam infiltrações de assaltantes, homicidas e traficantes nos assentamentos e acampamentos. A polícia tem conhecimento da denúncia? - Eu tive conhecimento da denúncia. - A denúncia foi investigada? - Sim. Quando investigávamos saques na rodovia AL-220, envolvendo integrantes de movimento sem-terra do Agreste estivemos no assentamento Sementeiras. A primeira pessoa que encontramos foi um cidadão acusado de matar um policial militar. Mas não havia mandado de prisão contra o mesmo. Também é comum a polícia receber denúncia de acampados ou assentados, alertando sobre elementos suspeitos. - E denúncias sobre comércio de terras? - Também são comuns. A polícia tem conhecimento de denúncias contra pessoas que moram na cidade, se infiltram nos movimentos, invadem terras e depois as vendem. Sei também que esta é uma preocupação do governo federal e do Incra, que querem identificar essas pessoas. - Esses problemas transformam o Agreste num foco de tensão da reforma agrária alagoana? - Não. São fatos recentes. - Este ano, ocorreram bloqueios de rodovias, saques. O que provocou os movimentos a agir de forma tão forte? - Estou concluindo um dos inquéritos sobre essas ações de obstrução de rodovias e de saques. As pessoas ouvidas em inquérito policial revelaram que a movimentação foi motivada pela falta de cumprimento do governo federal no repasse de recursos, de alimentação e outras coisas prometidas. As pessoas estariam com fome e, como último recurso, resolveram saquear caminhões carregados de alimentos. - No inquérito que o senhor preside, alguém foi indiciado? - Neste inquérito há quatro indiciados. Um deles foi assassinado recentemente, o Luciano Alves da Silva, conhecido como ?Grilo?. O inquérito estará concluído na próxima semana. Eles foram indiciados por incitação ao crime e formação de quadrilha. - Fontes da polícia revelaram que o senhor estaria investigando o superintendente do Incra, Mário Agra, acusado de ter liberado os movimentos sociais para fazer o que quisessem. Isto de fato acontece? - Havia possibilidade até de indiciamento do superintendente do Incra, Mário Agra. Isto por causa de declarações dadas por pessoas ouvidas no inquérito e que revelaram que ele teria participado de várias reuniões e dado a entender que as pessoas estariam liberadas, já que o governo federal não estava honrando o compromisso de repassar as cestas básicas. Também perguntei às pessoas se o superintendente do Incra tinha autorizado os saques ou outras ações e as pessoas ouvidas responderam negativamente. - O superintendente vai ser indiciado? - Neste aspecto não. Mas o superintendente do Incra vai ser ouvido. Já o notifiquei para que possamos ouvi-lo na próxima terça-feira. - O assassinato do líder Luciano Alves Silva foi uma espécie de vingança porque ele teria participado de saques? - É difícil imaginar que a morte de Luciano tenha relação com os saques ou se há outra motivação comum ou de origem política. Tivemos informação de que existem cerca de nove mil pessoas assentadas e acampadas entre o Sertão e o Agreste. Nos assentamentos existem mercados, bares, uma comunidade normal. De repente, o cidadão pode ter problemas que não sejam nem ligados ao movimento. - O que o senhor identificou nos primeiros levantamentos? Ele era uma pessoa violenta? - Não entendi dessa forma. Os assentados, as lideranças, os colegas de Luciano deram boas informações sobre sua conduta e dizem que ele não teria inimizades. Mas há indicativos de que Luciano teria problemas internos e fora do assentamento Dom Hélder Câmara. - No dia do sepultamento de Luciano, líderes de sem-terra e o presidente do PT, deputado Paulo Fernando dos Santos - Paulão - disseram que não querem o senhor investigando este caso... - Eu tomei conhecimento disso por intermédio da imprensa. O deputado não confia na investigação do caso se o inquérito estiver sob minha presidência. - Um dos motivos da desconfiança do parlamentar seria um envolvimento seu em contrabando de armas. Como é isso? - Quero esclarecer que não sou presidente do inquérito. Sou delegado regional, portanto, tenho de tomar providências para os casos policiais da região. Neste caso, tomei conhecimento do crime e adotei as providências cabíveis. O deputado ou qualquer outra pessoa pode pedir ao secretário de Defesa Social que indique um delegado especial para o caso. O que não aceito é o deputado atingir minha honra e minha dignidade. - O senhor está envolvido com contrabando de armas? - A imprensa divulgou isto há quatro anos. Em 1995, fui autorizado pelo então coronel Amaral, por meio de um convênio firmado com o Detran, a fazer compras de armas no Paraguai. Então, eu e os doutores Flávio Saraiva e Nilson Alcântara fomos à cidade de Pedro Juan Cabaleiro e compramos R$ 50 mil em armas. Trouxemos as armas, munições, binóculos e outros equipamentos que, inclusive, estão aqui. Dois anos depois da compra, houve uma denúncia de que nós fizemos contrabando. O caso foi investigado pela Polícia Federal, fomos indiciados, o inquérito foi encaminhado à Justiça e, com requerimento do próprio Ministério Público, fomos absolvidos da acusação. Tenho cópia da sentença. O caso já transitou em julgado há muito tempo. Isto significa dizer que não existiu crime. Então, eu não aceito ser acusado hoje pelo deputado de ser contrabandista de armas. - Pretende acionar a imprensa e o parlamentar na Justiça? - A imprensa, não. A imprensa está no papel dela. Mas contra o deputado Paulão vou tomar as medidas judiciais cabíveis. Hoje, vejo o político Paulão como uma pessoa despreparada para o cargo de deputado e de presidente de um partido que tem nomes de expressão como a senadora Heloísa Helena, Judson Cabral, o presidente Lula e tantos outros.