Política
Seca arrasa lavouras de feij�o e milho no Sert�o
ARNALDO FERREIRA E MAYKEL MARQUES Pela primeira vez nos últimos 50 anos, em 35 municípios do Sertão e parte do Agreste de Alagoas, produtores de grãos e de culturas de subsistência vão amargar perda total das safras de milho, feijão, algodão e outras. Os pequenos produtores e criadores reclamam que o gado também está morrendo. Já são mais de 70 mil flagelados nas duas regiões. A miséria só não é maior porque as famílias estão recebendo ajuda financeira por intermédio do programa de Cartão-Alimentação, do governo federal. Mesmo assim, os prefeitos das duas regiões pedem socorro aos governos e garantem que a situação é desesperadora. Nas zonas rurais dos municípios do alto Sertão, como Água Branca, Canapi, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Maravilha, Mata Grande, Olho D?Água do Casado e Ouro Branco, a situação é desoladora. Centenas de famílias passam fome e bebem água suja dos açudes, de barragens e do Rio São Francisco. No município de São José da Tapera, a mortalidade infantil, a fome, o desemprego na zona rural e a falta de água tratada nas comunidades voltaram a atormentar o sono da prefeita Edneuza Ricardo (PSDB). O município, no primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso (PSB), era considerado o campeão nacional dos índices negativos sociais e o de pior índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Latina. Para reduzir os índices que envergonhavam o País e só eram comparados aos dos países mais pobres da África, FHC investiu pesado em programa de erradicação da miséria, do trabalho infantil e de combate ao desempregado. Até o ano passado, Tapera era uma espécie de laboratório dos programas sociais do governo federal e serviu, também, de base política eleitoral do senador Teotonio Vilela Filho. AMA A presidenta da Associação dos Municípios Alagoanos AMA, prefeita Rosiana Beltrão (PSB) foi quem revelou à GAZETA DE ALAGOAS que a situação de São José da Tapera voltava a ser preocupante. Porém, a presidenta da AMA revelou que a situação da maioria dos 102 municípios alagoanos é difícil, por causa das constantes quedas de receita e redução do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). ?Mas é nos municípios do Sertão e do Agreste que a população enfrenta os piores momentos. A longa estiagem destruiu as culturas tradicionais?, salientou. Rosiana está preocupada com a situação de municípios que lideram as estatísticas negativas. ?A prefeita Edneuza Ricardo está bastante apreensiva com a situação em São José da Tapera. A mortalidade infantil e a fome voltaram àquela região?, lamentou a presidenta da AMA, que viaja a Brasília na terça-feira para pedir socorro ao governo federal. Com relação à redução no repasse do FPM, a líder dos prefeitos observou que este é um problema nacional. ?No nosso caso, a perda de 10% do orçamento geral dos municípios é uma tragédia. No Sertão e no Agreste, então, nem se fala. A previsão é de que a partir de outubro a temperatura se eleve ainda mais, com a chegada do alto verão, e a receita deve cair mais cinco por cento com a nova redução do FPM?, afirmou. Caminhão-pipa Sem água encanada para atender as comunidades da zona rural, os prefeitos dos 40 municípios castigados gastam 10% do seu orçamento com fretamento de caminhões. O prefeito de Traipu (um dos municípios de pior IDH), Marcos Santos (PSDB), confirma que as áreas rurais são atendidas com caminhões-pipa. Por causa do consumo de água suja, é nesta época do ano que a população mais sofre com as doenças de contaminação hídrica. As despesas municipais com remédios e cestas básicas também aumentaram, segundo a maioria dos secretários municipais de Saúde e de Assistência Social. Governo federal A situação de desespero vivida pelos moradores da zona rural do Sertão já é do conhecimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente está cobrando um relatório da situação do Semi-árido aos governadores. Para amenizar o drama, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, liberou R$ 200 mil, emergencialmente, para a contratação de caminhões-pipa em Alagoas. Na verdade, o montante esperado pelos prefeitos somava R$ 380 mil. O dinheiro deveria ter sido enviado no ano passado para que os prefeitos pagassem aluguéis de carros-pipa. Mas os recursos estavam contingenciados desde março. A pressão dos prefeitos, da AMA, e da bancada federal forçou a liberação dos R$ 200 mil. Hoje, o Exército também está nas regiões mais críticas e ajuda na distribuição da água, conforme orientação do presidente Lula. ?Quando a situação começou a piorar, o governo federal passou a liberar os recursos. O ministro Ciro Gomes tem sido um parceiro importante neste momento?, destacou a presidenta da Associação dos Municípios, Rosiana Beltrão, e os prefeitos das áreas afetadas. A luta dos prefeitos neste momento é incluir mais famílias das áreas rurais nos programas sociais do Fome Zero. Um pleito neste sentido foi encaminhado ao ministro da Segurança Alimentar, José Grazzeano Neto. A partir de segunda-feira, os prefeitos começam a acionar a bancada federal, os senadores Heloísa Helena (PT), Renan Calheiros (PMDB) e Teotonio Vilela Filho (PSDB)- (os dois últimos acabaram de se eleger com votos de milhares de sertanejos) para se engajarem na luta em busca de socorro do governo federal.