Política
A pr�tica da democracia s� se�realiza com a inclus�o cultural
ENIO LINS Dirigente histórico do PCdoB, dono de um currículo onde se inscrevem mandatos eletivos de vereador, deputado estadual e deputado federal constituinte, Eduardo Bomfim também exerceu a Secretaria de Cultura de Maceió. Hoje, secretário estadual de Cultura, tem procurado impulsionar aquela pasta com seriedade e os resultados alcançados já são observados até fora do Estado, ao ponto de fazê-lo líder no Fórum Nacional de Secretários Estaduais da Cultura, onde foi eleito como vice-presidente para o Nordeste. Comandando uma equipe disciplinada, Bomfim tem realizado projetos em vários campos das artes e da cultura em geral. Nessa entrevista, centra o seu foco na amplitude das políticas públicas para a cultura, critica o exclusivismo, o neoliberalismo, e defende a inclusão cultural. E informa que um dos projetos mais importantes para o financiamento da produção cultural em Alagoas já está no forno, esperando apenas o sinal verde da reforma tributária. /// - Como descreve esse momento, esse ambiente no qual tanto se fala em cultura? - Estamos inseridos num período de intensa efervescência, de grandes polêmicas nos mais variados campos das idéias. Ótimo que se fale muito de cultura nesses tempos. Isso é produto e ao mesmo tempo influência o processo de oxigenação das correntes de pensamento, algumas antagônicas entre si. - Havia antes uma asfixia cultural ou teórica? - De certa forma sim, pois durante anos recentes, a euforia dos arautos do neoliberalismo atuaram no sentido de castrar o debate, de rotular de retrógrada toda idéia que não fosse servil ao chamado ?pensamento único? do tipo ?fim da história? e outras teses do tipo. Essa opressão intelectual reinou oito anos, pelo menos. A eleição de Lula para a Presidência da República ajudou a quebrar esses limites, oxigenando, como disse antes, os debates cultural e político. - Política e cultura andam juntas? - Quem entende a cultura como um bem público não pode menosprezar essa relação indispensável. O que não se pode confundir são as políticas públicas para a cultura com dirigismo artístico. Políticas culturais existem em quaisquer sociedades organizadas, sejam tocadas pelo poder público ou pela iniciativa privada, ou pelos dois em parceria. O acesso à cultura deve ser entendido e praticado como um direito político básico do ser humano. - Você tem falado muito em inclusão cultural... - Considero essencial destacar a inclusão cultural em todos os momentos da discussão sobre a inclusão em geral. Além de todas as questões da pauta social, a fome de arte e de cultura tem de ser enfrentada como prioridade. A exclusão cultural tem muitas faces e nem sempre é percebida com facilidade. - Qual o papel do governo na luta pela inclusão cultural? - Qualquer governo comprometido com a soberania nacional não pode fugir às responsabilidades de zelar pelas permanências e renovações de seu povo. Assim como não se pode desconhecer a indústria cultural, não se pode permitir o massacre das opções e manifestações artísticas populares. O poder público deve se esforçar, deve investir em diversificar as opções artísticas oferecidas, deve investir na informação cultural, na formação e na produção local. - O local se contrapõe ao universal? - De forma alguma. Não se trata de rejeitar a produção mais elevada do conhecimento humano universal, isso seria um erro que causaria um imenso e imperdoável atraso em todas as áreas da elaboração e realização cultural e científica. O local e o universal não podem estar dissociados em um genuíno processo de inclusão cultural. - Mas existe, em todo o Brasil, tendência de ênfase no local, no popular... - Isso é natural, e positivo, num primeiro momento, pois reflete a consciência da marginalização do local e do popular. Essa ênfase ajuda o processo de afirmação cultural e auto-estima. A preocupação é essa não conduzir ao isolamento, ao menosprezo pelo melhor do conhecimento universal. - Como o governo vai implementar ações que resultem na inclusão cultural? - Já estamos fazendo isso. Entre os vários projetos que estão sendo executados posso ressaltar três que caminham nesta direção. Um deles foi a Mostra Alagoana de Dança, realização que mobilizou mais de quinhentos bailarinos e dançarinos pertencentes a quarenta grupos de todo o Estado de Alagoas. Foi gratificante observar a participação, em espetáculos e oficinas, de vários grupos de diversos municípios alagoanos, além de tantos outros de bairros da periferia de Maceió. Destaco que realizações como essa não são eventos isolados, mas são projetos continuados dentro de uma política definida. - O antigo Papódromo passou por reforma. O que está sendo desenvolvido ali? - Outro projeto que caminha nesta direção é a reativação do Centro Cultural Lagoa Mundaú (antigo Papódromo), no Dique Estrada, uma das áreas mais belas e populares de Maceió. Lá estamos realizando ações permanentes de cultura. Promovendo oficinas de teatro, dança, leitura, entre outras, com o objetivo de desenvolver as potencialidades dos moradores de toda a zona sul da cidade. Também temos promovido ali várias apresentações que conseguiram até agora reunir um público estimado em mais de dez mil pessoas. Estamos trabalhando também em outros projetos. Vejamos, por exemplo, o caso do ?Alagoas em Cena? que incentiva a produção nas áreas de literatura, música, artes cênicas e artes plásticas. Este projeto já inscreveu mais de quatrocentas pessoas em todo o estado, todas engajadas em uma visão e uma prática profissional das artes. - O interior do Estado tem reclamado, ao longo dos anos, do esquecimento por parte das autoridades culturais. O que a Secult está fazendo para mudar esse quadro ? - Para essa demanda estamos dando atenção especial. As ações da secretaria não podem ficar circunscritas à Capital. Para isso, nós criamos o projeto ?Caravanas Culturais?. Já fizemos um piloto desse projeto na Cidade de Delmiro Gouveia, realizando uma semana de atividades e o seminário ?Delmiro ? da Pedra ao Desenvolvimento?, que contou com a participação de mais de três mil pessoas. Também estivemos em Maragogi, como parceiros da prefeitura local, discutindo um dos eventos mais importantes da história de Alagoas, a Guerra dos Cabanos. Por fim, estamos programando uma edição das Caravanas para o município de Viçosa. Para isto já entramos em contato com o prefeito Flaubert Torres. As Caravanas Culturais já são uma realidade e vão se espalhar por todo o Estado. - Alagoas está em condições de exportar produtos culturais? - O governo do Estado, por meio da Secretaria de Articulação Externa, capitaneada pela secretária Patrícia Mourão, de-senvolve um projeto chamado ?Alagoas de Corpo e Alma?. A Secretaria da Cultura é uma parceira nisso. Já estivemos em vários estados da Federação levando nosso teatro, dança, música e artes plásticas. Por onde passa, as artes e os artistas de Alagoas conquistam sucessos. A receptividade tem sido estupenda. - Para fazer cultura, dinheiro é preciso. Como andam as leis de incentivo? - Iniciamos o processo de discussão da legislação alagoana, mas tivemos de interromper em virtude da tramitação da reforma tributária. O que eu posso adiantar é que já conseguimos negociar com o Senado a permanência das leis estaduais onde elas já existem. Onde ainda não existem leis, como é o caso de Alagoas, conseguimos negociar para que elas sejam criadas. No Fórum Nacional de Secretários de Cultura, defendi a tese de que como essas leis culturais não provocam guerra fiscal, devem ser tratadas com excepcionalidade. Os senadores concordaram. Logo que houver a votação da reforma, retomamos a discussão da lei de incentivos à cultura em Alagoas. - E o apoio político? - O governador Ronaldo Lessa e o vice Luís Abílio têm garantido as bases para todos esses projetos, apesar das dificuldades materiais do Estado. Sem esse apoio, não há política cultural que se sustente.