Política
Sem-terra cobram 24 mil hectares para reforma agr�ria
Alagoas é apontado como o segundo Estado de maior tensão agrária no País. O primeiro é São Paulo. Quatro representações de movimentos sociais do campo, o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTTL), o Movimento Luta e Terra (MLT), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) esperam que o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) cumpram com a promessa de destinar cerca de 24 mil hectares para fins de reforma agrária em todo o Estado. O superintendente do Incra de Alagoas, Mário Agra, hoje tem apoio fechado das principais lideranças dos movimentos sociais. Por isso, tem de cumprir a promessa que fez, inclusive através da GAZETA DE ALAGOAS, de assentar, ainda este ano, cerca de duas mil famílias de trabalhadores rurais que hoje vivem nos acampamentos de sem-terra espalhados pelo território alagoano, a maioria nas margens de estradas. ?Estamos concluindo levantamento das áreas, a regularização dos imóveis e fechando convênios para iniciar uma reforma agrária de qualidade no Estado?, adianta Mário. Ele depende de novas definições de Brasília, mas mantém o otimismo de iniciar, este ano, o processo de reforma agrária, com a destinação de lotes às famílias cadastradas. Estatística Segundo levantamentos dos movimentos sociais e do próprio Incra, mais de seis mil famílias vivem em condições subumanas em 59 acampamentos. A principal reivindicação das famílias é terra e cobram também que o Incra acelere os processos de expulsão de pessoas que compraram de forma indevida as parcelas em assentamentos regularizados pelo governo federal. A idéia é entregar os imóveis para os verdadeiros sem- terra. O Incra concorda e promete atender ao pleito dos movimentos. Um dos coordenadores estaduais do MST-AL, José Carlos da Silva, 24 anos, explicou que os sem-terra acreditam no governo Lula e apostam que o futuro econômico do País está na produção agrícola. ?Mas temos de lutar para que a reforma agrária saia efetivamente do papel?, afirmou. Porém, ele teme que não haja tempo para o Incra assentar as duas mil famílias como espera fazer ainda este ano. Outro problema que preocupa os movimentos sociais é a infiltração de pessoas alheias à luta pela Reforma Agrária. Essas infiltrações prejudicaram muito a imagem dos movimentos perante a sociedade. José Carlos Silva admitiu, inclusive, que ocorreram algumas infiltrações indesejáveis nos acampamentos e nos assentamentos. Adiantou, entretanto, que os movimentos sociais estão se organizando para evitar infiltrações de pessoas estranhas à luta dos trabalhadores sem-terra. ?Quando a gente identifica a infiltração indesejada, comunicamos imediatamente à polícia e expulsamos do assentamento ou do acampamento?. Este ano, segundo o coordenador do MST, oito pessoas foram expulsas dos movimentos. Mas ele preferiu não revelar os nomes dos expulsos. ?Somos a favor da lei, da ordem e de cumprimento à Constituição Federal?, frisou. José Carlos entrou no MST aos 12 anos, depois que teve o pai assassinado. Hoje, com apenas o primeiro grau completo, é uma das lideranças mais respeitadas. Quando conversou com a reportagem da GAZETA DE ALAGOAS, o militante do MST revelou a sua alegria ao saber que, anos depois de entrar para o movimento, estava na lista para ganhar o seu lote. Por uma questão de segurança do líder sem-terra, a reportagem deixa de divulgar onde ficará a sua parcela rural. Mas ele garante que ?hoje, tem uma consciência política sobre a importância rural para a economia brasileira. ?Agora, vou realizar meu sonho: vou ter a terra para produzir a minha lavoura de subsistência e conseguir o dinheiro que preciso para continuar meus estudos?, disse José Carlos, que alimenta a esperança de chegar à faculdade de Agronomia e dedicar a sua graduação para os assentamentos de ex-sem-terra. Estiagem Além da luta social dos movimentos por terras e pela reforma agrária, as organizações enfrentam também as peculiaridades climáticas do Nordeste. Neste momento, oito acampamentos localizados nos municípios de Delmiro Gouveia, Maravilha, Olho D?Água do Casado, Pão de Açúcar e Piranhas, todos na região do alto sertão, distantes mais de 200 quilômetros de Maceió, com cerca de 1.220 famílias, passam sede, fome e não têm trabalho. A estiagem que castiga a região, pelo segundo ano consecutivo, é dramática. Um dos coordenadores do MST do Sertão, Cleilson Moreira da Silva, 25 anos, adiantou que as culturas de subsistência de milho e feijão foram dizimadas e as pequenas criações dos acampamentos não resistem às altas temperaturas. A situação só não é pior porque algumas prefeituras, como a de Olho D?Água do Casado e Piranhas, ajudam as famílias mais necessitadas com cestas básicas. O programa Fome Zero, via Incra e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), também socorrem os acampamentos e assentamentos regularizados que amargam perdas totais dos seus projetos agrícolas. Além dos prefeitos do Sertão, os trabalhadores sem-terra apóiam a luta pela implantação do Canal do Sertão para mudar o perfil de miséria das áreas rurais da região semi-árida. Nos assentamentos, os agricultores esperam a água do canal para iniciar os plantios de culturas tradicionais.