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St�deli: “Lula n�o fez porcaria nenhuma pela reforma agr�ria”

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ARNALDO FERREIRA O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, disse em Maceió, na última terça-feira, que o Brasil atravessa uma fase crítica de crise econômica. ?Depois de 12 anos de neoliberalismo, o povo brasileiro sente na carne a perversidade deste modelo: todos os indicadores sociais pioraram no País?, alertou. Segundo o ideólogo dos movimentos de trabalhadores sem-terra, ?a figura de Lula é a figura do compromisso com o projeto popular, mas o presidente é fruto de uma composição eleitoral que o levou ao Palácio do Planalto e que gerou este transgênico...?. Nesta entrevista, Stédile critica a política de Lula e afirmar que ?em nove meses o governo federal não fez porcaria nenhuma pela reforma agrária?. /// Quais os temas que mais preocupam os movimentos socais no campo hoje? O primeiro deles é a questão dos transgênicos. É uma situação muito grave, porque está em jogo o futuro da agricultura. Se o povo brasileiro perder o controle de sua sementes, nós ficaremos subordinados às transnacionais dos Estados Unidos. Vamos perder a nossa soberania alimentar. Por quê? Porque quem controla as sementes é quem define o que vai ser plantado e o que vai ser comido. Qual o outro tema que chama a atenção? É a questão da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) porque há um processo de negociação continental e este é um tema que vai afetar todo o povo brasileiro e em especial a agricultura. Como os movimentos de trabalhadores sem-terra vêem a atual situação do Brasil? Vemos que o Brasil está numa encruzilhada, porque atravessamos um período histórico de uma prolongada crise econômica que trouxe muitos problemas sociais. Esta crise é decorrente do modelo de industrialização dependente que vinha norteando a nossa economia desde a década de 1930 e entrou em crise na década de 80. Para sair da crise na década de 90, as elites nos impuseram o neoliberalismo. Depois de 12 anos de neoliberalismo, o povo brasileiro sentiu na carne a perversidade deste modelo: todos os indicadores sociais pioraram. Como resultado disso, nas eleições de outubro passado o povo votou contra o neoliberalismo e elegeu o presidente Lula. Isto é o suficiente? Ainda não é suficiente para definir qual o novo caminho que o nosso povo vai seguir. Hoje, nos encontramos numa verdadeira encruzilhada, porque há uma disputa permanente entre três grandes projetos: um projeto para dar continuidade ao neoliberalismo; um segundo projeto para fazer pequenas mudanças, reciclando o modelo neoliberal, mas mantendo a essência e os principais parâmetros da política econômica; e o terceiro projeto seria para mudanças verdadeiras. É o que chamamos genericamente de projeto popular. Qual é a gravidade desta situação que acaba de desenhar? É que esses três projetos estão em disputa em todos os espaços da nossa sociedade. Eles estão presentes dentro do governo Lula, ou seja, o governo não tem uma posição unitária sobre qual dos três caminhos vai adotar. Há ministros neoliberais, há ministros recicladores e há ministros comprometidos com o projeto popular. A sociedade, a opinião pública e os meios de comunicação estão divididos. Neste processo de disputa e de divisão se gerou uma situação de empate: nenhuma força social e política consegue ser majoritária para impulsionar a nossa sociedade para um novo projeto. Diante desse quadro, é fundamental que os movimentos sociais se unam nacionalmente, porque a única maneira de haver o desempate é o povo brasileiro se mobilizar, ir para as ruas e lutar por um projeto popular. Em meio a tantas desilusões, o que unificaria o povo brasileiro neste momento? A luta pelo emprego, pelo trabalho é o que pode unificar os movimentos sociais. Desde os estudantes da União Nacional dos Estados (UNE), que sabem que se formam e não têm emprego até os sem-terra, que, quando ocupam uma terra, é para trabalhar. Esta luta é hoje o principal problema da nossa sociedade, é a grande bandeira que pode nos unir e, por outro lado, é o definidor de um novo projeto popular. Por quê? Porque os defensores do neoliberalismo e os defensores da reciclagem do modelo neoliberal sabem que mesmo com a nossa economia crescendo, sem mudar o modelo, vai aumentar o desemprego. Hoje, os ricos vão bem e os pobres cada vez pior. O Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras de Vereadores se mostram como conservadores. Então, como levar este projeto popular para o parlamento? O nosso problema não é o parlamento. O problema são as ruas. A política no Brasil se decide nas ruas. O parlamento é um mero espelho do que a sociedade pensa. Se hoje temos um parlamento conservador em todas as instâncias, é porque estamos num momento de apatia da sociedade, que está descrente da política. A nossa missão enquanto movimentos sociais não é ficar preocupados com o que pensam os vereadores, deputados... A nossa tarefa é levar o debate para a sociedade, para a classe trabalhadora, para os estudantes. O povo tem de pegar a política no sentido clássico e decidir o futuro, ao invés de ficar preocupado com essa politicagem que, na verdade, é uma degeneração da política, é uma falsa democracia. A verdadeira democracia é aquela quando o povo luta para garantir os seus direitos republicanos: o direito ao trabalho, moradia, educação, terra. Nunca, em 500 anos de nossa historia cheia de perversidade, passamos uma situação de 25% da nossa população estar desempregada, 60% no trabalho informal. Como o senhor classifica o presidente Lula hoje? A figura do Lula é a figura com compromisso histórico com o projeto popular. Mas o presidente Lula é fruto de uma composição política eleitoral que o levou ao Palácio do Planalto e esta composição produziu este transgênico, que no mesmo governo tem ministros neoliberais, ministros que reciclam e ministros que são de projeto popular. O senhor diz que o transgênico é um perigo para a agricultura. O presidente Lula é um perigo para os movimentos sociais? Eu não falei o Lula. Eu disse que o governo ainda não se definiu por um projeto claro. E não é por falta de vontade do presidente. O que eu estou analisando é uma correlação de forças políticas que existe no governo e na sociedade. Quais os ministros neoliberais? É muito ruim na política você definir nomes. Mas é evidente que o Ministério da Agricultura aplica uma política neoliberal ao defender os trânsgênicos; é evidente que a política do Banco Central apóia a entrada da Alca e a continuidade do neoliberalismo; é evidente que a política econômica do Ministério da Fazenda é a continuidade do neoliberalismo. Mas há outros ministros que tentam fazer pequenas mudanças, que querem mudanças verdadeiras. Qual a sua posição em relação a Alagoas, que tem a monocultura da cana? Em relação a Alagoas, sou um ignorante. Mas tem outros companheiros do MST, que podem responder com mais precisão. O meu olhar é de gaúcho apavorado. Não nos conformamos em olhar de longe que as melhores terras de Alagoas continuem como há 500 anos, voltadas à monocultura da cana. Não nos conformamos que num Estado tão rico se tenha os mais baixos índices de desenvolvimento humano. A quem desagrada a luta do MST? Aos poderosos, ao latifúndio improdutivo. Há orçamento federal para política agrária? Primeiro vou criticar o que o governo fez até agora: o MST é amigo e parceiro do governo Lula. Mas mantemos a nossa autonomia. Evidentemente que nesses primeiros nove meses o governo não fez porcaria nenhuma na reforma agrária. Assentou apenas 2,5 mil famílias. Foi um governo incompetente. Por quê? Primeiro, por falta de experiência administrativa; segundo, porque o governo priorizou no primeiro semestre a agricultura familiar, ficou preocupado com o plano safra e em ir atrás de dinheiro para crédito; terceiro, porque a disputa de forças no governo reflete também na reforma agrária. Há orçamento para a reforma agrária? O orçamento no Brasil é um mero exercício matemático. O que muda a política não é o orçamento, são as pressões sociais. Nós acreditamos que o governo Lula mantém o compromisso com a reforma agrária e estamos na expectativa de que até o fim do mês o governo apresente para a sociedade o plano nacional de reforma agrária que vem sendo elaborado por uma equipe de técnicos, sob a coordenação do professor Plínio Sampaio, e esperamos que, a partir deste plano, o governo faça uma reforma agrária de qualidade.

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