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Política Tratamento de pacientes com coronavírus vai entrar em nova fase com uso do remédio

ENTIDADES DESCONFIAM QUE GOVERNO SABOTA A HIDROXICLOROQUINA

Denúncia de promotora de Justiça jogou mais polêmica sobre o uso do medicamento entre os pacientes com coronavírus

Por thiago gomes | Edição do dia 23/05/2020 - Matéria atualizada em 22/05/2020 às 22h23

A polêmica em torno do uso ou não da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com suspeita ou confirmação de covid-19 misturou política com ciência e esta combinação, enquanto não for desfeita, abre precedentes para uma série de interpretações. Em Alagoas, o remédio sumiu das farmácias e das unidades de saúde. Há denúncias, feitas pela promotora Cecília Carnaúba, pela médica oncologista e imunologista Nise Yamagushi (defensora da cloroquina) e pelo Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal), de que o medicamento não está sendo distribuído e nem administrado. 

Uma das hipóteses para que isto esteja acontecendo seria as divergências políticas entre o governador Renan Filho (MDB) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mas, isto é uma tese de bastidor. O fato é que há evidente cautela dos médicos na prescrição devido à insegurança e ausência de respaldo científico.

Diante desta celeuma, os Ministérios Públicos Federal e Estadual de Alagoas (MPF e MPAL) expediram recomendação, nessa semana que passou, para que a União, o Estado de Alagoas e o Município de Maceió disponibilizem dados de transparência relacionados aos protocolos clínicos e farmacológicos que estão sendo utilizados no tratamento da covid-19. Também foi recomendado ao Conselho Regional de Farmácia de Alagoas (CRF) que divulgue dados sobre a disponibilidade dos medicamentos preconizados nos Protocolos de Manejo Clínico, ambulatorial e hospitalar, adotados pelos entes públicos.

A situação em todo o Brasil parece mais um ringue. De um lado, chefes de Estado, inclusive o presidente brasileiro, jurando que o remédio é milagroso. E ele não está só: o Conselho Federal de Medicina recomendou o uso. Da outra banda, infectologistas e pneumologistas pisaram no freio e alertaram para os devastadores efeitos colaterais e a falta de comprovação científica.

O que há de concreto nesta briga? É fato que não há evidências seguras da eficácia desta droga no trato do coronavírus (os estudos ainda estão no início e só devem ficar prontos, preliminarmente, daqui a seis meses). Mesmo assim há recomendação recente do Ministério da Saúde para que o remédio seja administrado em casos leves, mas colocando o paciente, já debilitado, na posição de juiz da própria vida. Deve assinar um termo de compromisso em que está ciente do que pode lhe acontecer se for tratado com esta substância.

Em Alagoas, as discussões em torno deste assunto ganharam as redes sociais. Defensores e oposicionistas debatem o tempo todo sobre a utilização da hidroxicloroquina. Os ânimos estão tão acalorados que a promotora de justiça, afastada das funções temporariamente, Cecília Carnaúba, denunciou que o medicamento sumiu do Estado mesmo o Governo Federal ter enviado mais de 31 mil caixas até o dia 11 de maio. Ela disse que tem sido procurada por médicos informando que estão receitando o remédio aos pacientes, mas não há entrega na farmácia pública nem nas unidades de saúde.

“Há protocolo estadual de trato do Covid-19, publicado em DO, que inclui a ministração de cloroquina. O protocolo está sendo cumprido? A medicação está sendo disponibilizada aos médicos que decidem tratar seus pacientes de acordo com o protocolo? Além da entrega feita pelo governo federal, o governo estadual comprou com recursos próprios este medicamento para viabilizar o protocolo estadual? E os demais medicamentos indicados no protocolo estão disponíveis para uso dos médicos?”, questionou a promotora, nas redes sociais.

Após a publicação, a integrante do Ministério Público Estadual foi repreendida pelo procurador-geral de Justiça, Márcio Roberto Tenório de Albuquerque. Em nota informativa, o chefe do Ministério Público Estadual deixou claro que a atuação do MPE é desenvolvida por promotores e procuradores de justiça, com formação na área do Direito, portanto, nenhum membro da instituição teria capacidade técnica para opinar sobre o uso de medicamentos que possam agir no combate ao novo coronavírus. 

A médica Nise Yamaguchi, durante recente entrevista à Rádio Bandeirantes, revelou que conhece profissionais da medicina de Alagoas e informou que tem recebido ligações de alguns deles dando conta da falta da hidroxicloroquina. “Alagoas está necessitando da medicação. Vários médicos me ligaram e pediram para que pudesse existir outra maneira para trazer o remédio que não fosse, simplesmente, pelo poder público local. Eles disseram que não estão conseguindo ter acesso, mesmo que os médicos prescrevam”.

Ela ainda fez um comparativo entre Minas Gerais e Alagoas no enfrentamento da pandemia. Segundo ela, o Brasil enfrenta uma pandemia em cima de uma situação crônica, crítica, do sistema de saúde. “Por isso, não se consegue arrumar tudo para tratar depois. Se a gente for construir tudo o que não construímos nos últimos 100 anos em um mês para querer depois tratar, vamos perder o bonde da história”.

De acordo com Nise Yamagushi, a doença saiu das camadas privilegiadas, ficando nas camadas mais pobres e esta fatia da sociedade não consegue manter o isolamento nunca porque vive em grupos de pessoas. Ela defende que se trate a covid-19 de uma forma diferente, pensada, batendo rápido na doença para diminuir a contaminação. Caso contrário, conforme pensa, somente o isolamento não será suficiente. 

“Minas Gerais tem uma qualidade. A população é bastante educada, trabalha firmemente junto ao Governo do Estado, que, também está alinhado com o Governo Federal”, afirmou a médica, hipotetizando que o Governo de Alagoas não converge com o Governo Bolsonaro.

Ela considera a eficácia da hidroxicloroquina nos casos leves e no início dos sintomas. “Quando enfrentamos a H1N1, tínhamos uma medicação que foi utilizada para tratar logo no começo da doença, no segundo dia de sintomas, porque eliminava uma grande quantidade de vírus e dava tempo para o sistema imune agisse. O mesmo acontece com o coronavírus. Se você trata precocemente, existe um benefício maior e se evolui para necessidade de intubação e internação. Este protocolo já foi seguido em vários grupos internacionais tanto que hoje já é aceito na Itália e na França, dois países arduamente ofendidos pela doença. Na França, perdeu-se 10 mil pacientes até que se tomasse esta decisão”.

A profissional defende que os médicos, a partir de autorização do Conselho Federal de Medicina, prescrevam e tenham acesso a estas medicações em quadros leves a moderados. Nos mais graves, ela admite que os resultados não estão sendo satisfatórios. “No Brasil, tivemos no Piauí um grupo fazendo o estudo de hidroxicloroquina, azitromicina e zinco a partir de uma médica piauiense que mora em Madri e que teve sucesso bem interessante. A ministra Damares, inclusive, conversou comigo para expressar o quanto ficou impressionada com o que presenciou lá. Mas, há outros exemplos no Brasil também em convênios médicos com sucesso”.

Segundo ela, a resistência da comunidade científica é pelo aguardo de estudos mais profundos. “A grande questão é que, numa pandemia, deve-se tomar decisões e enfrentar o problema. Alguns colegas médicos, inclusive cardiologistas famosos, optaram por receber a medicação quando contraíram o coronavírus e não tiveram toxicidade. Um remédio administrado por cinco dias tem um nível de toxicidade muito pequeno em virtude desta medicação já ser usada por pacientes com quadro reumáticos por um longo período. Há uma confusão de informações”, entende.

A Gazeta fez diversos questionamentos à Sesau, mas até o fechamento desta matéria as respostas não foram dadas. Em transmissão nas redes sociais, na semana que passou, o governador e o secretário Alexandre Ayres, da Saúde, disseram que não pensam em retirar a hidroxicloroquina da lista de medicamentos para coronavírus em Alagoas, falaram que a prescrição é feita pelo médico e anunciaram que pretendem adquirir mais lotes de drogas para o Estado.

PACIENTE GRAVE TRATADO COM HIDROXICLOROQUINA SE RECUPERA

A Gazeta conversou com a família de um paciente que mora na periferia da capital e ficou internado quase um mês, sendo 18 dias entubado na UTI, com diagnóstico confirmado de covid-19. Ao contrário do que as pesquisas indicam, foi tratado também com hidroxicloroquina e se recuperou. 

Moisés Araújo apresentou os primeiros sintomas característicos da doença na terceira semana de abril. Foi atendido, medicado na UPA do Benedito Bentes e orientado a voltar para casa. Alguns dias depois, o quadro piorou e ele passou a ter dificuldades para respirar. Retornando à unidade de saúde, ficou internado e recebendo suporte de oxigênio. Como não apresentava melhora, foi transferido para a Santa Casa, onde precisou de ventilação mecânica. Ao longo dos dias, a angústia dos parentes só aumentava.

Os parentes informaram que desde a primeira ligação que receberam do hospital foram informados de que Moisés estava sendo tratado com hidroxicloroquina, medicamento, segundo a família, recomendado pelo Ministério da Saúde. Após mais de duas semanas em tratamento intensivo, o paciente foi extubado, deixou a UTI e já está em casa se recuperando.

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