Política
Alagoas n�o tem pol�tica de desenvolvimento
ARNALDO FERREIRA O presidente da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas, João Evangelista da Costa Tenório, é o mais novo senador de Alagoas. Assume a cadeira do senador Teotonio Vilela Filho (PSDB)- de quem é suplente- que tirou licença de 120 dias para cuidar de assuntos pessoais e para ajudar na organização dos diretórios municipais. Na primeira entrevista como parlamentar, João Tenório fez um balanço crítico da economia e lamentou a falta de política de desenvolvimento, ?estou preocupado porque Alagoas está perdendo o bonde da história?. O senador explicou que os últimos governos não criaram políticas para atrair investimentos e mostrou que o setor açucareiro não tem mais para onde crescer. Revelou que os empresários vêem com preocupação a situação de Maceió, que perde a capacidade de aproveitar as potencialidades do turismo e se encontra em posição ?humilhante? em relação a outras cidades nordestinas. Sobre eleições municipais, Tenório disse que seu setor ainda não tem candidato. - O senhor está de volta ao cenário político? - Estou tirando um tempo da licença de um amigo que é um político importante do Estado de Alagoas: o senador Teotonio Vilela Filho que, por razões pessoais, teve de se afastar temporariamente. Como sou suplente do senador, estou aqui para cumprir esta agenda, este curto período de 120 dias. - Outro empresário bem-sucedido do setor açucareiro está na política. Isto quer dizer que o senhor nunca tirou os olhos da política alagoana? - Os empresários, todos os cidadãos, não podem se afastar da política porque é este processo que rege os encaminhamentos das soluções sociais e econômicas do País. Pela via política é que se descobre os melhores caminhos. Acho que todo empresário tem essa preocupação de ter uma participação, mesmo que de forma indireta, como é o meu caso, que nunca tive participação direta. - Durante anos, o senhor apoiou determinados segmentos da política alagoana. Talvez por isso, esses setores ensaiaram sua candidatura ao Senado, noutros momentos ao governo do Estado, à Prefeitura de Maceió. Mas qual a sua pretensão política? - Me acho uma pessoa completamente destituída de vocação para o exercício da política partidária. Sinto que tenho mais vocação para ser executivo porque me preparei, me aperfeiçoei, fui treinado para isto. Quer dizer, para qualquer ensaio de caminho no cenário da política partidária teria de rever meus procedimentos, minha maneira de agir e isto leva algum tempo. - Mas uma pessoa como o senhor, aos 60 anos, que sempre caminhou, trilhou a trajetória do universo dos negócios, entende a diferença entre política partidária e política empresarial de que maneira? - A diferença, para mim, está na questão do ?time?. As coisas do mundo empresarial são definidas de forma mais rápida e objetiva. Elas têm um direcionamento com praticidade e objetividade: se você quer chegar a um determinado ponto, planeja qual a melhor maneira de chegar onde pretende. Já na política partidária as coisas são muito mais complexas, porque envolvem quantidade enorme de interesses, na maioria, conflitantes. Isto leva a um ritmo mais lento de produtividade. Esta característica não é do político, mas do processo político. - A dialética da política o incomoda? - Sim. Incomoda um pouco, porque foge muito, desvia demais da possibilidade de se atingir os melhores objetivos, quer sob o ponto de vista econômico, quer sob o ponto de vista social. - Quer dizer que quem assume a cadeira do PSDB, do senador Teotonio Vilela Filho é o empresário? - Clarissimamente é o empresário. Até por causa da ausência absoluta de experiência na política partidária. - Como o empresário, que a partir de agora é senador, vê Alagoas? - Hoje, vejo Alagoas com uma certa preocupação. - Por quê? - Vejo que Alagoas está perdendo o bonde da história. Nós temos um processo de desenvolvimento muito localizado em alguns pontos. Ao contrário de outros estados, que ousaram e estão ousando em estabelecer políticas que atraem pólos de desenvolvimento econômico. Esta coisa se manifesta mediante uma política fiscal mais favorável e também com uma política de parceria com o empresariado. Isto faz com que as oportunidades que se criam em estados vizinhos como Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Sergipe e Bahia sejam únicas. - Por exemplo? - Uma fábrica de fertilizantes que se instalar em Sergipe jamais vai se instalar em Alagoas futuramente, porque o Nordeste só comporta uma fábrica. A perda é definitiva. Se analisarmos os últimos 10, 15 anos em Alagoas, vamos observar que não aconteceu nada de novo no desenvolvimento econômico. - E o turismo? - Até mesmo o turismo, que apareceu como a grande redenção da nossa economia, sofreu um processo pior do que a estagnação: vive a regressão. Alagoas, hoje, tem uma posição turística regional bastante inferior a que detinha há 15 anos. - O que falta para o desenvolvimento? - Acho que faltam algumas coisas: primeiro, o objetivo. Quer dizer, ter metas e objetivos de gestão: eu quero chegar a este ponto, quero fazer com que Alagoas não tenha apenas as contas arrumadas, mas também quero montar o Estado para o futuro -. Isto que é importante. Às vezes, posso até comprometer meu presente, mas preciso olhar para o futuro. - Isto não acontece? - Se analisarmos os núcleos de desenvolvimento, vamos constatar que em nenhum ponto há um sinal positivo. Não estou culpando ?A?, nem ?B? ou ?C?. Isto é algo que vem ocorrendo e não é culpa desse governo que estamos vivendo agora. É uma história mais antiga. O Estado nunca deu muita atenção, muito valor, aos seus programas de desenvolvimento. Haja vista, por exemplo, e não é um problema desse governo, a sucessão de descasos que acabou por impedir a consolidação do Pólo Cloroquímico. Esta foi uma oportunidade única que perdemos e não temos como recuperar o tempo perdido. O ?time? passou. - A sociedade percebe que há alguns anos o mundo empresarial, econômico e o universo político trilham caminhos diferentes. A esquerda tem como principal cavalo de batalha o seu setor: a agroindústria açucareira. Hoje esta é, ainda, uma realidade que incomoda? - Incomoda. Olha, até compreendo. Se você observa a geopolítica brasileira verifica que não existe nenhum outro Estado no País onde haja tamanha prevalência de um setor na economia como o açucareiro na economia alagoana. Em Pernambuco, o setor é bem menos expressivo, nos outros estados há diversificação de setores de desenvolvimento. Mas no nosso Estado é muito forte, ainda, a presença do açúcar e da cana de açúcar na economia e isto, evidentemente, provoca sintomas, como o efeito das coisas ruins que acontecem no Estado. E é por causa da formatação da sua economia, quer dizer: como o Estado não vai bem, aí tudo é por causa da cana-de-açúcar. Isto é o que está no imaginário popular. - Os políticos costumam dizer que ?usineiros não pagam impostos?. Isto é verdade? - Recentemente, o governo e os empresários resolveram contratar um escritório independente, para fazer uma avaliação das pendências jurídicas que existem entre o setor açucareiro e o governo do Estado e, por sorte nossa, este escritório completamente neutro, respeitado não só no Estado, está constatando exatamente o contrário. - Quem deve é o Estado? - Não. O que ocorre é que em Alagoas se paga muito mais imposto que na grande maioria dos estados produtores de cana. Só para se ter uma idéia, nós temos hoje um crédito chamado de crédito de insumo. Em Alagoas, isto significa em torno de dois por cento, aproximadamente, dos impostos a serem pagos; nos estados de Pernambuco e da Bahia, vizinhos e concorrentes, os governos baixaram um decreto sobre o chamado crédito presumido, que ao invés de dois por cento chega a sete e oito por cento. No Estado de São Paulo, o ICMS do álcool baixou de 17% para 12%, enfim, existem políticas fiscais para a cana-de-açúcar no resto do País que adotam taxas bem menores do que as daqui. Todos esses números foram comprovados pelo escritório contratado bilateralmente para ser o mediador dessas questões entre o setor produtivo e o Estado. - Este é um dos motivos que levam empresários do setor a migrar para outros estados, como Minais Gerais e outros da região Centro-Oeste? - Veja bem, existem dois tipos de migração em Alagoas: ambas levadas pelo caráter de competitividade e por ausência de oportunidades de crescimento em Alagoas. Nós não temos mais áreas para expandir o plantio de cana. E é até bom que seja assim, já somos grandes demais na economia canavieira então por que crescer mais? É melhor partir para outros pontos, outros negócios. Mas é preciso que se estimule o aparecimento de outras atividades. É aí que está o problema, não vamos deixar crescer mais a economia da cana porque ela gera muitos problemas, então vamos buscar outras oportunidades. - O setor acha que Alagoas não tem outra vocação? - Tem. O turismo, a pecuária, a produção de cereais. Mas para isso é preciso infra-estrutura adequada, investimentos para se viabilizar a produção e mais do que isso: um apoio efetivo, financeiro e fiscal, para que as indústrias se instalem em regiões mais difíceis. Hoje, se você comparar a região norte produtora de cana- de-açúcar do Estado com a de Ribeirão Preto (SP), que é a maior produtora do mundo, não há nenhum parâmetro para fazer a comparação. Então, é preciso atitude, procedimentos administrativos que atenuem as diferenças, mas em Alagoas não existe esta política. Temos uma vocação natural, que é o turismo, mas por falta de cuidados, de uma política visando, pelo menos, a manutenção do que já existe, a gente percebe a regressão do setor. O Estado perdeu a condição de segundo destino do Nordeste, hoje estamos abaixo de Recife, Natal, Fortaleza, Salvador e Sergipe está querendo chegar perto da gente. - Esta radiografia, apontando que o seu setor chegou ao limite do crescimento, mostra que a máquina do Estado não consegue vislumbrar outras alternativas de crescimento econômico. No meio desta discussão há outra realidade, na qual aparece que de um universo de dois milhões e oitocentos mil alagoanos apenas 80 mil têm vencimentos acima de três salários mínimos. Aonde está a perversidade desta realidade constatada por institutos como o IBGE? - Acho que a perversidade está na falta de oportunidades econômicas. Sejamos cartesianos. Vamos pegar a renda das oitenta mil pessoas e vamos distribuir com os dois milhões e oitocentos mil alagoanos. Perceberemos que o problema não será resolvido, porque a questão está na mais absoluta falta de oportunidades econômicas. Em Alagoas, não de agora, mas de muito tempo atrás, vale ressaltar, se criou uma idéia de que o Estado resolveria o problema do desemprego. Se vendeu a idéia de que a máquina existia para isso. Um governo parcimonioso consegue manter uma máquina de 70 mil funcionários; um governo menos parcimonioso teria uma máquina de 120 mil servidores. Nem 70 mil nem os 120 mil resolvem a vida dos 2,8 milhões de alagoanos. Só há uma maneira de resolver, ou pelo menos atenuar esta situação econômica desfavorável socialmente, é tentar criar novas oportunidades econômicas e não é pela via pública que se faz isto. A via pública pode ser vista como o veículo de conduzir as oportunidades e não de criar. Acredito que a economia precisa desenvolver rapidamente outras alternativas. - O setor açucareiro está disposto a conversar com o governo e repensar o desenvolvimento? - Nós temos conversado. Neste momento, com a intermediação deste escritório neutro, estamos tentando resolver uma questão. Acho que o problema é maior, penso que temos de repensar um novo conceito de desenvolvimento que envolva a maior quantidade possível de novas frentes de oportunidades e segmentos. - O senhor agora é um senador da República, o que pretende fazer? - Vou passar pouco tempo no Senado. Meu procedimento será regido por um conceito objetivo: farei todo o possível para gerar oportunidades econômicas no País, para gerar empregos no Brasil. Vejo que tudo no País é importante: Educação, saúde, segurança. Porém, muito mais importante do que tudo isto é o emprego. A maior tragédia que pode acontecer é um pai de família desempregado. - No próximo ano teremos eleições municipais. Em Maceió, a disputa chama a atenção porque o setor terá um candidato, o deputado federal João Lyra, haverá um candidato de esquerda, outro do governo e o candidato que lidera as pesquisas transita nas áreas sociais mais desfavorecidas. Como seu grupo vê este quadro? - Normalmente as pessoas falam nas eleições de um determinado candidato do setor açucareiro, mas na verdade nunca existiu este candidato. - Há uma divisão no setor? - Sempre houve. Em toda eleição o setor se divide. - Isto vai prevalecer? - Isto deve prevalecer sim. Evidentemente que o que deverá nortear a escolha do setor é a busca de alguém que apresente uma solução, se não integral, pelo menos parcial, para o imenso problema que passamos a vivenciar no primeiro momento na capital e posteriormente no Estado de Alagoas. - Como os empresários do setor açucareiro vêem Maceió? - Com absoluta tristeza. A gente vê a perda de oportunidades numa cidade como Maceió, com uma riqueza estética e natural fantástica, perdendo e ficando em posições humilhante em relação a cidades como Natal, Fortaleza e outras cidades que, nem de longe, se comparam com a nossa. Isto por falta de um direcionamento para o desenvolvimento da atividade turística. Acho que isto é uma coisa que entristece qualquer cidadão.