Política
Lula: Negros e pobres pagam a conta da desigualdade social
ARNALDO FERREIRA, MARCOS RODRIGUES E WILSON ARAÚJO (FOTO) União dos Palmares ? No topo da Serra da Barriga, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu, ontem, que quem paga a conta da desigualdade social no Brasil são os negros e os pobres. O Dia Nacional da Consciência Negra foi marcado por um forte esquema de segurança montado para receber o presidente da República. As danças de capoeira e as manifestações afro-brasileiras foram substituídas por revistas policiais, cenas de constrangimento e preconceito, inclusive com as autoridades políticas. Lula fez um discurso forte, mostrando que quem sofre com a desigualdade neste País é a mulher negra, o homem negro, o idoso negro, o jovem negro e a criança negra. ?O Brasil tem a sociedade mais desigual do planeta, recai sobre a mulher negra a síntese da perversidade nacional?. Segundo o presidente, o governo recenseou 743 comunidades quilombolas e pretende ?titular?. Lula aproveitou para assumir com as comunidades remanescentes quilombolas o compromisso de titulação de suas áreas e assinou decretos de políticas de promoção racial para garantir direitos e cidadania. Prometeu investir na construção do Memorial Zumbi. No discurso, Lula mostrou que 1,7 milhão dos brasileiros mais ricos acumulam as mesmas rendas destinadas a 85 milhões dos brasileiros pobres. De cada dez pobres, seis são negros. Apenas 22% da nossa população é de brancos. E mais, apenas 22% dos empresários brasileiros são negros. A mortalidade infantil é 60% superior entre as crianças negras do País. Estes são os números oficiais que confirmam a exclusão, a discriminação social no Brasil e ecoaram, ontem, do topo da Serra da Barriga, o berço do Quilombo dos Palmares, hoje reconhecido como a ?primeira República Palmarina? que efetivamente lutou contra a discriminação e abrigou as minorias constituídas de negros, mulatos e índios que fugiam das senzalas em busca de liberdade. Depois de 350 anos de senzala e pelourinho, de 108 anos do massacre do Quilombo dos Palmares e da morte do líder Zumbi, um presidente da República sobe ao topo da Serra da Barriga e admite que o Brasil precisa mudar a história de 500 anos de discriminação e preconceito: dois adjetivos que este nordestino, fugitivo da seca do sertão pernambucano, metalúrgico de São Paulo, que chegou à presidência da República, conhece muito bem. O presidente, Lula numa espécie de mea-culpa, emocionou as lideranças do Movimento Negro Nacional, embaixadores e autoridades de países africanos que estavam na Serra. Porém, reconheceu que no Brasil do século XXI ainda há exclusão social porque continua a haver desigualdade. ?Hoje, os homens são iguais perante a lei, mas não têm oportunidades iguais?. Segundo Lula, os direitos republicanos são monopólio de uma pequena parcela da população brasileira, como se na prática o Brasil fosse uma república branca, ainda que 46% do povo seja negro. Lula deu lições de cidadania ao reconhecer as desigualdades sociais, colocou flores na escultura de Zumbi e de outros mártires negros que resistiram e tombaram junto com a Serra da Barriga. Um forte esquema de segurança, com mais de 400 homens do Exército, policiais federais, civis e militares, terminou protagonizando situações constrangedoras para quem, habitualmente, costuma comemorar o ?Dia Nacional da Consciência Negra? no topo da Serra. Seguranças Enquanto Lula estava na Serra, os grupos de capoeiristas não podiam entrar na área dos rituais e das autoridades. Os capoeiristas Diogo da Silva, da Associação Cultural Nação Capoeira, e Ivanilde dos Santos, do Grupo Guerreiros de Maceió, queixaram-se porque tiveram seus berimbaus e atabaques recolhidos pelos seguranças que confundiram os instrumentos com armas. A técnica da Secretaria Estadual das Minorias, Marinete Andrade, ficou escandalizada com as constantes reclamações dos capoeiristas e artistas populares que tiveram seus instrumentos apreendidos pelos seguranças. A militante do Movimento Negro Filomena Félix, conhecida como ?Filó?, que estava na equipe de trabalho da ornamentação, também se queixou: ?A segurança é tão forte que se Zumbi fosse vivo correria o risco de ser barrado pelos seguranças do presidente na porta de sua própria casa?. Autoridades Passavam das 10 horas quando o presidente Lula desembarcou do helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) no alto da Serra, acompanhado do governador Ronaldo Lessa (PSB), da ministra da Ação Social, Benedita da Silva; da secretária especial de Política da Igualdade, Matilde Ribeiro, e do líder do PMDB no Senado, senador Renan Calheiros. Seguiam a comitiva os deputados federais Givaldo Carimbão (PSB), Maurício Quintela (PSB), João Caldas (PSB), João Lyra (PTB) e o deputado federal Vicente Paulo ? Vicentinho, ex-presidente da CUT (PT/SP), além dos deputados estaduais Paulo Fernando dos Santos - Paulão (PT), Cícero Almeida (PDT), Celso Luiz (PSB); o presidente do Tribunal de Contas de Alagoas, conselheiro Edval Gaia, entre outras autoridades federais e estaduais. Os prefeitos também prestigiaram a visita de Lula, dentre eles a presidenta da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), prefeita Rosiana Beltrão (PSB) e a prefeita de Maceió, Kátia Born. O excesso de zelo da segurança presidencial provocou constrangimento também entre as autoridades políticas: o deputado estadual Nelito Gomes de Barros - filho do ex-governador Manoel Gomes de Barros (PTB), o vice-prefeito de Maceió, Alberto Sexta-Feira (PSB), e o prefeito de União dos Palmares, José Pedrosa (PTB), foram barrados e depois de muita discussão conseguiram adentrar até o espaço restrito às autoridades. Situação semelhante viveram também os índios da tribo wassú cocal, de Joaquim Gomes, que tiveram os arcos e as flechas artesanais apreendidos. Até o secretário de Comunicação do governo estadual, jornalista Joaldo Cavalcanti, considerou que ?houve burocracia desnecessária?. Mas nada disso evitou protestos. Alguns parlamentares alagoanos e o prefeito de União foram vaiados. Estudantes também fizeram manifestações, cobrando da secretária estadual de Educação o pagamento do serviço de transporte escolar. O governador Ronaldo Lessa disse que o discurso de Lula é o começo de um resgate da luta pela cidadania plena iniciada por Zumbi. ?Os ideais de liberdade agora estão mais vivos do que nunca, mediante compromissos assinados na Serra de Zumbi?.