loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Lula: “Negros e pobres pagam a conta da desigualdade social”

Ouvir
Compartilhar

ARNALDO FERREIRA, MARCOS RODRIGUES E WILSON ARAÚJO (FOTO) União dos Palmares ? No topo da Serra da Barriga, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu, ontem, que quem paga a conta da desigualdade social no Brasil são os negros e os pobres. O Dia Nacional da Consciência Negra foi marcado por um forte esquema de segurança montado para receber o presidente da República. As danças de capoeira e as manifestações afro-brasileiras foram substituídas por revistas policiais, cenas de constrangimento e preconceito, inclusive com as autoridades políticas. Lula fez um discurso forte, mostrando que quem sofre com a desigualdade neste País é a mulher negra, o homem negro, o idoso negro, o jovem negro e a criança negra. ?O Brasil tem a sociedade mais desigual do planeta, recai sobre a mulher negra a síntese da perversidade nacional?. Segundo o presidente, o governo recenseou 743 comunidades quilombolas e pretende ?titular?. Lula aproveitou para assumir com as comunidades remanescentes quilombolas o compromisso de titulação de suas áreas e assinou decretos de políticas de promoção racial para garantir direitos e cidadania. Prometeu investir na construção do Memorial Zumbi. No discurso, Lula mostrou que 1,7 milhão dos brasileiros mais ricos acumulam as mesmas rendas destinadas a 85 milhões dos brasileiros pobres. De cada dez pobres, seis são negros. Apenas 22% da nossa população é de brancos. E mais, apenas 22% dos empresários brasileiros são negros. A mortalidade infantil é 60% superior entre as crianças negras do País. Estes são os números oficiais que confirmam a exclusão, a discriminação social no Brasil e ecoaram, ontem, do topo da Serra da Barriga, o berço do Quilombo dos Palmares, hoje reconhecido como a ?primeira República Palmarina? que efetivamente lutou contra a discriminação e abrigou as minorias constituídas de negros, mulatos e índios que fugiam das senzalas em busca de liberdade. Depois de 350 anos de senzala e pelourinho, de 108 anos do massacre do Quilombo dos Palmares e da morte do líder Zumbi, um presidente da República sobe ao topo da Serra da Barriga e admite que o Brasil precisa mudar a história de 500 anos de discriminação e preconceito: dois adjetivos que este nordestino, fugitivo da seca do sertão pernambucano, metalúrgico de São Paulo, que chegou à presidência da República, conhece muito bem. O presidente, Lula numa espécie de mea-culpa, emocionou as lideranças do Movimento Negro Nacional, embaixadores e autoridades de países africanos que estavam na Serra. Porém, reconheceu que no Brasil do século XXI ainda há exclusão social porque continua a haver desigualdade. ?Hoje, os homens são iguais perante a lei, mas não têm oportunidades iguais?. Segundo Lula, os direitos republicanos são monopólio de uma pequena parcela da população brasileira, como se na prática o Brasil fosse uma república branca, ainda que 46% do povo seja negro. Lula deu lições de cidadania ao reconhecer as desigualdades sociais, colocou flores na escultura de Zumbi e de outros mártires negros que resistiram e tombaram junto com a Serra da Barriga. Um forte esquema de segurança, com mais de 400 homens do Exército, policiais federais, civis e militares, terminou protagonizando situações constrangedoras para quem, habitualmente, costuma comemorar o ?Dia Nacional da Consciência Negra? no topo da Serra. Seguranças Enquanto Lula estava na Serra, os grupos de capoeiristas não podiam entrar na área dos rituais e das autoridades. Os capoeiristas Diogo da Silva, da Associação Cultural Nação Capoeira, e Ivanilde dos Santos, do Grupo Guerreiros de Maceió, queixaram-se porque tiveram seus berimbaus e atabaques recolhidos pelos seguranças que confundiram os instrumentos com armas. A técnica da Secretaria Estadual das Minorias, Marinete Andrade, ficou escandalizada com as constantes reclamações dos capoeiristas e artistas populares que tiveram seus instrumentos apreendidos pelos seguranças. A militante do Movimento Negro Filomena Félix, conhecida como ?Filó?, que estava na equipe de trabalho da ornamentação, também se queixou: ?A segurança é tão forte que se Zumbi fosse vivo correria o risco de ser barrado pelos seguranças do presidente na porta de sua própria casa?. Autoridades Passavam das 10 horas quando o presidente Lula desembarcou do helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) no alto da Serra, acompanhado do governador Ronaldo Lessa (PSB), da ministra da Ação Social, Benedita da Silva; da secretária especial de Política da Igualdade, Matilde Ribeiro, e do líder do PMDB no Senado, senador Renan Calheiros. Seguiam a comitiva os deputados federais Givaldo Carimbão (PSB), Maurício Quintela (PSB), João Caldas (PSB), João Lyra (PTB) e o deputado federal Vicente Paulo ? Vicentinho, ex-presidente da CUT (PT/SP), além dos deputados estaduais Paulo Fernando dos Santos - Paulão (PT), Cícero Almeida (PDT), Celso Luiz (PSB); o presidente do Tribunal de Contas de Alagoas, conselheiro Edval Gaia, entre outras autoridades federais e estaduais. Os prefeitos também prestigiaram a visita de Lula, dentre eles a presidenta da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), prefeita Rosiana Beltrão (PSB) e a prefeita de Maceió, Kátia Born. O excesso de zelo da segurança presidencial provocou constrangimento também entre as autoridades políticas: o deputado estadual Nelito Gomes de Barros - filho do ex-governador Manoel Gomes de Barros (PTB), o vice-prefeito de Maceió, Alberto Sexta-Feira (PSB), e o prefeito de União dos Palmares, José Pedrosa (PTB), foram barrados e depois de muita discussão conseguiram adentrar até o espaço restrito às autoridades. Situação semelhante viveram também os índios da tribo wassú cocal, de Joaquim Gomes, que tiveram os arcos e as flechas artesanais apreendidos. Até o secretário de Comunicação do governo estadual, jornalista Joaldo Cavalcanti, considerou que ?houve burocracia desnecessária?. Mas nada disso evitou protestos. Alguns parlamentares alagoanos e o prefeito de União foram vaiados. Estudantes também fizeram manifestações, cobrando da secretária estadual de Educação o pagamento do serviço de transporte escolar. O governador Ronaldo Lessa disse que o discurso de Lula é o começo de um resgate da luta pela cidadania plena iniciada por Zumbi. ?Os ideais de liberdade agora estão mais vivos do que nunca, mediante compromissos assinados na Serra de Zumbi?.

Relacionadas