Política
Lula convoca alagoanos a lutar�contra racismo e discrimina��o
ARNALDO FERREIRA A primeira visita oficial de um presidente da República ao topo da Serra da Barriga, no local onde existiu o Quilombo dos Palmares, foi a vitória da luta contra a discriminação e o preconceito, que desembarcaram no Brasil junto com os colonizadores. O presidente Lula fez um discurso simbólico. Admitiu que ?a Lei Áurea abriu as portas das senzalas, mas escondeu a chave da cidadania?. Ao convocar a população para despertar a consciência, Lula reconheceu que o Estado brasileiro tem um passivo a saldar. ?Hoje, temos mulheres negras, nordestinas que enfrentam a situação de servidão, semelhante à escravidão?. A GAZETA DE ALAGOAS acompanhou a visita de Lula e reproduz hoje alguns dos melhores trechos do discurso feito na Serra de Zumbi. Conscientização ?Eu vou falar sobre Zumbi, sobre Palmares. O que estamos fazendo hoje (quinta-feira, 20/11) é dar continuidade a um trabalho de conscientização da sociedade brasileira sobre a necessidade de transformar a consciência do nosso povo. Alguns heróis só serão heróis no dia em que a sociedade brasileira os assumir como heróis. Porque durante muito tempo, esses, que um dia virão a ser tratados com dignidade pelo País, foram tratados como se fossem marginais, como se fossem pessoas não gratas para a sociedade brasileira. Este é um trabalho de recuperação difícil. É um trabalho para o qual não basta dar um grito, não basta um discurso ou a boa-fé das universidades: é preciso que nossas crianças, na pré-escola, no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e na universidade apreendam a verdadeira história dos negros do nosso País. Quando isto acontecer nós teremos uma nova geração, que saberá considerar os verdadeiros heróis do nosso País?. Herói Zumbi ?Zumbi, pelo que simbolizou na luta contra a opressão neste País, será tratado como herói não por nós apenas, mas por todas as crianças, adolescentes, adultos e os idosos brasileiros. Esta não é uma tarefa pequena, vai depender muito do que fizermos daqui para frente. Nós sabemos que isto aqui (a Serra da Barriga) será transformado num lugar sagrado para a gente recordar o que foi este lugar há 308 anos, podem ficar certos disso governador Ronaldo Lessa (PSB) e meus companheiros que participam do movimento de manutenção deste lugar extraordinário. O governo federal fará sua parte para que Zumbi tenha seu lugar de destaque?. Nasci três vezes ?Acredito mais na força da consciência. Ela se propaga, resiste, não se dobra. Mesmo preso, atrás das grades, separada pelos oceanos, soterrada pelos séculos, sob a mira de um canhão, a consciência lateja e se impõe. O ser humano nasce pela segunda vez na vida quando adquire consciência social e renasce muito mais forte. Costumo dizer que tenho duas datas de aniversário, pensando bem são três: tem o dia em que nasci, tem o dia em que fui registrado e tem o dia em que tomei consciência dos meus direitos e da necessidade de lutar pela conquista de direitos. A consciência é como a gravidez, é um parto e nem sempre sem dor. É bem verdade que muitos morreram, Zumbi foi um deles: foi degolado e salgado num 20 de novembro como esse, há 308 anos. Mas a sua consciência sobreviveu. Ele morreu há mais de três séculos e hoje está aqui lavando, outra vez, a nossa consciência e nos enchendo de vontade de lutar como ele lutou por liberdade e democracia. É por esta luta que nos unimos na Serra da Barriga, onde existiu o Quilombo dos Palmares. Para homenageá-la e dizer não à cobiça dos algozes. É difícil abandonar a própria consciência depois que se instala, porque ela cresce, invade cada célula do corpo, ativa a nossa mente e o mundo nunca mais será o mesmo. Por isso o Dia Nacional da Consciência Negra é também o chamamento da consciência social?. Desigualdade Social ?Está na hora de este País encarar uma verdade disfarçada há quatro séculos: quem paga a conta da desigualdade social neste País é a mulher negra, o homem negro, o idoso negro, o jovem negro e a criança negra. Quando o Brasil aboliu a escravidão restavam cinco por cento de escravos da população. Hoje, temos um terço dos brasileiros vivendo na exclusão social. Portanto, a consciência nacional tem que ser tão forte, talvez até mais forte do que aquela que levou Palmares a resistir durante quatro séculos, contra os que pretendiam destruir seu sonho de liberdade. No Brasil colonial havia escravidão porque havia desigualdade. Os homens não eram iguais perante a lei, os escravos eram tratados como animais ou como simples mercadoria. No Brasil do século XXI há exclusão porque continua a haver desigualdade. Hoje, os homens são iguais perante a lei, mas não têm oportunidades iguais. Os direitos republicanos são monopólio de uma parte da população, como se na prática o Brasil fosse uma república branca, ainda que 46% do seu povo seja negro. Um milhão e setecentos mil brasileiros mais ricos têm as mesmas rendas destinadas à soma de 85 milhões de brasileiros pobres. Vocês sabem tanto quanto eu que os ricos são poucos e os pobres são maioria. De cada dez pobres, seis são negros. Entre os empresários, apenas 22% são negros, a mortalidade infantil é 60% superior entre as crianças negras. E mais: somente 20% do crédito da agricultura familiar vai para os negros. Se acrescentarmos a cor à discriminação de gênero, veremos que recai sobre a mulher negra a síntese da perversidade nacional. Uma negra pobre, nordestina, moradora da área rural não consegue ganhar, em média, mais de um terço do que ganha um cidadão ou uma cidadã branca. Isto é quase que uma servidão, para não falar em escravidão. É preciso que dentro do Estado brasileiro a voz da mulher negra seja ouvida para dizer a cada ministro, a cada economista, a cada decisão orçamentária, ao vice-presidente, ao presidente da República: ?Eu tenho direitos e quero a minha dignidade?. Política de governo ?Nós criamos a Secretaria de Igualdade Racial, para que ela seja dentro do meu governo o grupo da mulher negra e a voz altiva da metade negra da nossa população. Como diz a ministra Matilde Ribeiro, a metade negra do nosso povo é a metade pobre do Brasil, é a metade discriminada, a metade esquecida, a metade que há quatro séculos o Estado brasileiro finge que não vê. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, foram 350 anos de senzala e pelourinho. Para cada mês da nossa história, três semanas foram vividas sobre a chibata do feitor. Os senhores coloniais empreitaram quase oito milhões de negros africanos, só a metade chegou viva aqui, para as lidas dos engenhos. A vida útil de um escravo era medida entre cinco e oito anos. A escravidão brasileira foi responsável por 40% de todo o tráfico feito no mundo. Hoje, somos a segunda maior nação negra do planeta, só menor que a Nigéria. A composição africana enriqueceu o Brasil: no trabalho, na língua, na fé, na cultura, na espontaneidade, na alegria de viver, na beleza, nas mais variadas manifestações do espírito humano. Mas esta riqueza étnica carrega um passivo social ainda não pago e que persiste na forma de pobreza e de preconceito?. Lei Áurea ?A Lei Áurea abriu as portas da senzala, mas escondeu a chave da cidadania, colocou 700 mil pessoas na rua, sem casa, sem emprego, sem comida e sem oportunidade, o que seria equivalente hoje a oito milhões e meio de pessoas. A liberdade veio junto com a exclusão e assim persiste até os nossos dias. Esta desigualdade secular trava o desenvolvimento, concentra riquezas e oportunidades na mesma mão. Obriga o País a conter o seu potencial pela metade. Por isso, a promoção da igualdade racial não é apenas um compromisso étnico, mas é também uma diretriz política-econômica de desenvolvimento. Vamos interagir: governos federal, estaduais e municipais para que o Brasil, finalmente, possa imprimir o combate à discriminação no pacto federativo nacional?.