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Nº 5709
Política

PLANO DE DESENVOLVIMENTO ERA PARA 516 FAMÍLIAS

Projeto voltado para o Canal do Sertão não deslanchou, frustrando os agricultores pioneiros da iniciativa selecionados pela Seagri

Por arnaldo ferreira | Edição do dia 16/11/2019 - Matéria atualizada em 16/11/2019 às 06h00

/Agricultores têm se reunido com regularidade em Delmiro Gouveia para buscar solução
/Ana Cristina Acioli, coordenadora do Colegiado do Alto Sertão, cobra projeto engavetado

Delmiro Gouveia - O Plano de Desenvolvimento do Canal do Sertão desenvolvido na gestão do secretário de Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura, Álvaro Vasconcelos, e anunciado pelo governador Renan Filho, em 2016, previa atender, na verdade, 516 pessoas da agricultura familiar. O trabalho foi iniciado em agosto pelos técnicos da secretaria, em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Fundo Instituto do Desenvolvimento Agrícola (Fida) e Projeto Dom Hélder (PE). Os agricultores pioneiros do projeto dizem que nada ainda saiu do papel. Na elaboração do plano elaborado por técnicos das instituições envolvidas, constam o conteúdo destinado a 140 módulos de produção e aprendizagem, assessoria técnica permanente, diagnóstico, adução e distribuição de águas para residências. “Nessa primeira etapa do trabalho, em parceria com o Fida e Ufal, foi feita análise de solo e capacidade de cada produtor, visando levar capacitação às famílias dos agricultores da região e incentivar a produção sustentável”, disse a agricultora Rosana Pereira e confirmou o superintendente da Seagri, Reinaldo Falcão. O plano do Canal do Sertão previa ainda capacitação, assessoria técnica em organização social, cooperativismo, metodologia participativa de geração de conhecimento, produção irrigada ecológica e organização para a comercialização locais e institucionais. Os técnicos da secretaria executiva de Políticas Agropecuárias do governo disseram, em 2016, que os módulos previstos para o Canal do Sertão contemplariam famílias com sistema de irrigação por gotejamento, exercício de gestão e comercialização da produção, cultivos agroecológicos, infraestrutura de adução e distribuição para o consumo familiar e comercialização. Três anos depois nada foi colocado em prática pela Seagri, conforme constatou a reportagem ao visitar quatro municípios (Delmiro Gouveia, Água Branca, Olho D’Água do Casado e Inhapi) onde deveriam florescer a agricultura irrigada, se o projeto do governo fosse colocado em prática. Em vários trechos, a nossa equipe encontrou o canal tão cheio que ameaçava transbordar. A poucos metros das margens, açudes e terra seca. Nas vias de acesso, movimento intenso de caminhões pipas que pegam a água de graça e revendem a preços entre R$ 100 e R$ 500 a depender da distância das comunidades. Nas áreas que deveriam ter irrigação para as culturas de melancia, manga, uva, hortaliças e grãos, tudo seco. O agricultor Arnaldo de Souza, de Inhapi, chorou ao relatar tristeza de ver água do São Francisco cortando o sertão sem utilidade prática para modificar a miséria na região. O plano do governo para o Canal do Sertão era voltado especialmente para as famílias ribeirinhas. A maioria, neste momento, improvisa projeto de irrigação para garantir a sobrevivência. Como não tem orientação técnica, os pequenos agricultores irrigam terras “salgadas”. Desta maneira, a técnica rudimentar pode deixar as outras áreas agricultáveis estéreis, disse um dos técnicos da Secretaria de Agricultura do Estado e que prefere não ser identificado.

SEM MÓDULOS

A solução hídrica para utilização da água do rio São Francisco que passa pelo Canal do Sertão é por meio do Módulo de Irrigação de Produção e Aprendizagem (Mipas). Hoje, não tem mais sentido este projeto ainda não ter saído do papel e permanecer engavetado. Quem afirma é a coordenadora do Colegiado do Alto Sertão e presidente do Instituto Palmas (entidades que trabalham na articulação e desenvolvimento do alto sertão alagoano), Ana Cristina Acioli. “A gente defende que haja uma produção ao longo do canal voltada à agroecologia, para evitar a contaminação do rio São Francisco e que as famílias produzam alimentos e saúde”. O Mipas, segundo Ana Cristina, foi construído de forma participativa com órgãos federais, estaduais, municipais e entidades da sociedade civil organizada. “Passamos mais de um ano discutindo nas comunidades (entre 2015 e 2016) o que a gente queria de produção agroecológica para o Canal do Sertão”. Ana Cristina destacou que entende a lentidão do processo burocrático. Mas observou que prejudica as pessoas da agricultura familiar. “Os tempos do governo são diferentes dos tempos da sociedade civil organizada. Entendo que o projeto foi dificultado pela burocracia. Por outro lado, entendo a necessidade de se manter a transparência do processo. Mas, depois de passar três anos, não tem mais sentido o projeto de irrigação não ter saído do papel”. Ao justificar a sua crítica, Ana Cristina observou que “o projeto já foi aprovado e tem recursos do Fecoep para ser executado. Já foi, inclusive, renovado o prazo para execução do projeto, também pelo Fecoep. Acredito que agora depende da vontade política de fazer das áreas ribeirinhas ao Canal do Sertão como áreas de interesse dos agricultores familiares, da agroecologia e da agricultura sustentável”.

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